UOL Notícias Internacional
 

05/09/2006

Assassinatos no Quênia aumentam a divisão racial

The New York Times
Jeffrey Gettleman

Em Soysambu, Quênia
De todas as famílias britânicas da alta sociedade que vieram a este país e nunca partiram, uma é mais famosa do que todas: os Delameres.

Eles davam as festas mais glamourosas, tinham a linhagem mais fabulosa (que remontava a William, o Conquistador) e, significativamente, as terras mais excepcionais.

O Rancho Soysambu é a jóia de sua coroa, 20 mil hectares repletos de girafas e zebras no coração do grande Vale do Rift da África. O cenário é saído de um cartão postal -os pastos dourados, as colinas esculturais, o sensação de ter grande parte do mundo em um único bocado.

Mas Thomas Cholmondeley, o descendente da família que usa gravata e até recentemente estava a caminho de se tornar o Sexto Barão de Delamere, não está mais aqui. Ele está na prisão de segurança máxima de Kamiti em Nairóbi, um raro rosto branco atrás das grades neste país, aguardando julgamento em um caso de assassinato que está dividindo o Quênia.

Porque em pouco mais de um ano, ele atirou em dois negros quenianos e os matou em seu rancho.

O primeiro era um guarda florestal disfarçado que estava prendendo alguns dos trabalhadores de Cholmondeley suspeitos de caça ilegal. Alegando defesa própria, Cholmondeley foi liberado sem enfrentar julgamento.

O segundo foi um caçador ilegal, com um antílope pendurado nas costas. Cholmondeley disse que os cães do caçador o atacaram e, novamente, disparou em defesa própria.

Fazendeiros brancos no Quênia, uma espécie cada vez mais sitiada e ameaçada, estão profundamente solidários. Eles dizem que a criminalidade está fora de controle e que a polícia é inútil, e que as matas, apesar de bonitas, estão repletas de armas.

Certamente, há uma explosão de violência no Vale do Rift, com gangues vindas de Nairóbi e as tensões crescendo entre os trabalhadores rurais pobres e o punhado de quenianos brancos que ainda vivem em terras vastas. Joan Root, uma famosa ambientalista, foi morta a tiros em sua cama em janeiro. Outros brancos foram mortos em assaltos à mão armada.Um fazendeiro disse que agora dorme com uma arma para elefante ao seu lado.

Durante o período colonial, esta área, a 80 quilômetros a noroeste de Nairóbi, era famosa entre os brancos por seu estilo de vida hedonista e era chamada de Vale Feliz. Agora ele parece estar sitiado.

Mas os negros quenianos vêem a situação de Cholmondeley de forma diferente, e temem que os dias de privilégios dos brancos ainda não tenham acabado. Sua absolvição no primeiro caso aprofundou seu cinismo em relação a um judiciário já suspeito e provocou grandes protestos. Algumas pessoas até mesmo ameaçaram invadir as fazendas brancas.

O caso parece estar atingindo muitos pontos sensíveis do Quênia -terras, violência, corrupção, o comércio de caça ilegal e, é claro, raça.

"É muito atraente quando um homem branco está em apuros", disse Maina Kiai, presidente da comissão de direitos humanos do Quênia. "Nós ainda temos este complexo de inferioridade e nos empolgamos em ver um branco em uma posição de impotência."

E não se trata apenas de um homem branco qualquer.

Thomas Patrick Gilbert Cholmondeley, 38 anos, 1,97 metro, é um anacronismo criado na mata que tem uma cicatriz do tornozelo até o quadril, de quando foi atacado por um búfalo vários anos atrás, e cujo bisavô tornou elegante aristocratas britânicos se mudarem para a África.

Tal colono, Hugh Cholmondeley, o terceiro Barão de Delamere, pegou pedaços do Vale do Rift dos membros (iletrados) da tribo Masai local no início dos anos 1900, transformando a área em um playground para os brancos. Ele entrava cavalgando em bares, atirava nos lustres em hotéis de luxo e acabou se tornando um importante produtor de leite e derivados e um político. A principal rua de Nairóbi se chamava Avenida Delamere até a independência, em 1963.

Thomas nasceu cinco anos depois, cresceu em Soysambu (o nome significa "lugar de rocha vermelha" na língua masai) e foi enviado para estudar em Eton. Naquela época, um masai chamado Samson ole Sisina consertava picapes para o conselho de turismo do Quênia, na esperança de se tornar um guarda florestal. Robert Njoya, um membro pobre da tribo Kikuyu, abandonava a escola para carregar pedras e praticar caça ilegal. Os homens viviam perto de Naivasha, uma cidade sonolenta que passava por algumas dificuldades sérias de crescimento.

As fazendas de flores surgiam ao longo do Lago Naivasha, atraindo milhares de trabalhadores temporários de baixa remuneração. Muitos viviam em acampamentos de ocupantes ilegais, incluindo um chamado Manera construído nas terras de Delamere. As pessoas ali chamam Cholmondeley de "o ilustre assassino" e dizem que ele os aterrorizou por anos.

Mary Njeri, 51 anos, disse que Cholmondeley a pegou catando lenha em sua propriedade há dois anos e que bateu nela até ver estrelas. Peter Kiragu, 12 anos, disse que estava jogando futebol na propriedade de Delamere quatro anos atrás, quando Cholmondeley o agarrou pela parte de trás de sua camisa, o jogou em uma picape e o manteve trancado por horas.

Ambos os episódios foram denunciados à polícia, mas ele nunca foi indiciado. "Os Delameres costumavam ser intocáveis", disse Gideon Kibunjah, um porta-voz da polícia do Quênia. "Mas isto mudou."

O Thomas Cholmondeley descrito pelos amigos brancos é muito diferente: charmoso, genuíno, um bom ouvinte, um pai dedicado aos seus dois filhos, o tipo de fazendeiro que fala suaíli com seus funcionários e os olha nos olhos.

Diretor das fazendas de leite e carne bovina de sua família, ele é defensor da vida selvagem e seus esforços aumentaram o número de girafas, zebras, pelicanos e flamingos na área. Um motivo para ter porte de arma é proteger os animais selvagens.

"Tom ama aquelas terras", disse Dodo Cunningham-Reid, um amigo que dirige uma pousada privativa em Naivasha.

Fred Ojiambo, o advogado de Cholmondeley, disse que seu cliente foi injustamente satanizado. Ele não quis discutir detalhes, mas disse: "É muito difícil olhar para este caso apenas como um disparo de uma arma. Isto aconteceu em um contexto".

No ano passado, disseram autoridades da vida selvagem no Quênia, trabalhadores de Soysambu eram suspeitos de caça ilegal e da venda ilegal da carne dos animais caçados. Em 19 de abril de 2005, Sisina, que foi promovido de mecânico a guarda florestal, e dois outros guardas foram ao rancho, disfarçados, e pegaram os trabalhadores esfolando um búfalo. Matar animais selvagens é ilegal no Quênia.

Assim que Sisina e seus colegas começaram a afetuar as prisões, chegou Cholmondeley. Ele viu estranhos em trajes civis apontando armas para seus funcionários e atirou em Sisina.

Após a prisão de Cholmondeley, ele disse à polícia: "Eu lamento amargamente a enormidade do meu erro". Ele disse que pensou que Sisina fosse um ladrão.

O caso causou um racha entre as autoridades policiais que buscavam um julgamento por homicídio e os promotores que acreditavam na alegação de autodefesa. E os masais estavam observando.

Os masais são famosos por suas pinturas de guerra vermelho ocre e pelos modos pastorais tradicionais. A maioria é pobre, mas Sistina era diferente. Ele ascendeu de uma cabana de esterco a um emprego público respeitável.

Quando as acusações foram abruptamente retiradas um mês depois -uma foto de Cholmondeley fazendo sinal de positivo com os dois polegares estampou a primeira página do principal jornal do Quênia- os masais realizaram protestos em frente ao gabinete do procurador-geral e ameaçaram invadir Soysambu.

"Os Delameres foram aqueles que roubaram nossas terras em primeiro lugar", disse William ole Ntimama, um membro masai do Parlamento. "E agora olhe para nós. Nós nos tornamos parte da vida selvagem."

Masais enfurecidos marcharam até as fazendas dos brancos dois anos atrás e tentaram retomar suas terras ancestrais. Mas o Quênia não é o Zimbábue, onde o governo instigou tais ocupações. Tropas de choque da polícia expulsaram os masais.

Em 10 de maio deste ano, Njoya, o membro da tribo Kikuyu, saiu à procura de comida para sua esposa, Sarah, e seus quatro filhos. Ele pegou dois amigos e seis cães e encontraram um antílope morto em uma armadilha que armaram nas terras de Soysambu.

Naquele entardecer Cholmondeley, armado com seu rifle do período colonial, estava à procura de um local para construir uma casa.

O que aconteceu a seguir não está claro. Cholmondeley disse que os caçadores lançaram os cães contra ele e disparou dois tiros, atingindo acidentalmente Njoya. Os amigos de Njoya disseram que nem mesmo viram Cholmondeley.

"Nós apenas ouvimos os disparos vindos da mata", disse Peter Gichuhi, que disse que estava ao lado de Njoya.

Njoya sangrou até a morte em questão de minutos.

"Oh, não, de novo não!" foi a manchete desta vez e os protestos foram enormes. Muitos negros quenianos boicotaram os produtos Delamere, chamando o iogurte da família, vendido com a característica coroa dourada, de "iogurte de sangue".

Desta vez os promotores o indiciaram por assassinato. O julgamento está marcado para 25 de setembro. Se condenado, Cholmondeley poderá ser enforcado.

A última vez em que um branco esteve no centro de um caso tão sensacional no Quênia foi em 1980, quando Frank Sundstrom, um marinheiro americano, matou uma prostituta em Mombasa. Sundstrom se declarou culpado de homicídio, foi multado em US$ 70 e autorizado a partir. George El Khouri Andolfato

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