UOL Notícias Internacional
 

06/09/2006

Como salvaguarda em meio a conflito sectário, muitos iraquianos mudam seus nomes

The New York Times
Edward Wong*
em Bagdá, Iraque
Não havia nada fora do comum no jovem segurando um maço de papéis no
cartório, exceto seu nome: Saddam Hussein al Majid.

"Todos seus três nomes combinam com os dele", disse o atendente com uma
risada, se referindo ao líder deposto do Iraque. "É inacreditável!"

Hussein fez cara de irritação. "O que posso fazer?" ele disse. Foram seus pais que escolheram o nome, não ele. Agora ele estava tentando evitar pagar com sua vida por tal decisão. Ele queria mudar seu primeiro nome na certidão de nascimento para Sajad, apreciado pelos xiitas.

Hussein, um árabe xiita, estava ciente de que milicianos de sua própria
seita poderiam achar que ele faz parte da antiga minoria árabe sunita que governava o país.

O homem na fila atrás dele, outro Saddam, queria mudar seu nome para Jabar, um dos 99 nomes de Deus segundo o Islã.

O derramamento de sangue entre sunita e xiitas no país está levando muitos iraquianos a enterrar a própria essência de sua identidade: seus nomes. Ter que esconder o próprio nome é considerado profundamente vergonhoso. Mas com o aumento da violência sectária, os iraquianos temem que o nome em uma carteira de identidade, passaporte ou outro documento possa se tornar uma sentença de morte caso seja visto pela pessoa errada.

Isto ocorre porque alguns primeiros nomes e nomes tribais indicam se uma pessoa é sunita ou xiita. (O primeiro nome Omar é popular entre os sunitas, por exemplo, assim como Ali é entre os xiitas.)

Há várias histórias de civis iraquianos sendo parados em barreiras por
milicianos, rebeldes ou homens uniformizados e tendo seus documentos de
identidade analisados. Eles então são levados ou executados no lugar caso tenham um nome suspeito ou sejam de uma cidade dominada pela seita rival. Em Bagdá, esquadrões da morte xiitas -às vezes trajando uniforme policial- atuam em muitas barreiras ilegais, disseram autoridades iraquianas e americanas.

O episódio mais famoso deste tipo ocorreu em julho, quando xiitas armados armaram uma barreira falsa e promoveram violência à luz do dia no bairro de Jihad, em Bagdá, arrastando pessoas para fora de seus carros e casas e as matando após olharem seus documentos de identidade. Até 50 pessoas foram mortas.

Nos primeiros sete meses deste ano, 1.000 iraquianos mudaram oficialmente de nome, bem mais do que em qualquer período semelhante desde a invasão americana em 2003, disse o general Yassen Tahir al Yasseri, diretor do departamento do Ministério do Interior que emite os documentos de identidade. A maioria era árabe sunita. A correria teve início após o atentado ao reverenciado templo xiita em Samarra, em fevereiro passado, ter provocado ondas de violência sectária.

Os falsificadores de documentos de identidade dizem que o negócio está
prosperando. Todo iraquiano possui uma carteira de identidade chamada
"gensiya". Um falsificador no favela xiita de Sadr City, que se identificou como Abu Ahmed, disse produzir seis ou sete carteiras de identidade falsas por dia, a maioria para pessoas que querem nomes neutros na disputa sectária. Ele não tem orgulho de ajudar pessoas a esconderem sua identidade e seita. "Nós fazemos estas coisas e nos envergonhamos disto", ele disse.

O número crescente de pessoas que buscam mudar ou esconder seus nomes é
apenas uma conseqüência do enorme medo que os iraquianos sentem no momento de revelar sua seita. Cada vez mais, os iraquianos se perguntam se a seita que seguem é óbvia para as pessoas ao seu redor, e se este é o caso, como esconder isto.

Não há como distinguir fisicamente árabes sunitas de árabes xiitas, de forma que os milicianos e rebeldes estão cada vez mais matando pessoas com base em pequenos sinais denunciadores -se o dono de um carro ou casa tem pôsteres ou adesivos de mártires xiitas, por exemplo, ou se o motorista tem um carro com placa de uma província dominada pelos sunitas.

Antes do atentado em Samarra, os negócios de Abu Ahmed geralmente envolviam pais que queriam mudar a idade de seus filhos para que pudessem começar o ensino básico mais cedo. Ele fazia apenas de 25 a 40 carteiras de identidade.

Agora, seus clientes incluem pessoas que apenas querem se deslocar entre o enclave sunita de Adhamiya e o baluarte xiita vizinho de Kadhimiya sem serem importunados nas barreiras policiais ou milicianas, disse Abu Ahmed. Uma nova identidade custa entre US$ 7 e US$ 50, ele acrescentou.

Os primeiros nomes que são mais usados por sunitas ou xiitas geralmente
prestam homenagem a líderes no século 7 que tiveram papéis importantes na divisão das duas seitas.

Os nomes comuns entre os xiitas incluem Ali, Hussein e Abbas. Os sunitas preferem Omar, Othman ou Marwan. Nomes tribais também podem denunciá-los -Al Dulaimi e Al Jabouri são grandes tribos sunitas, por exemplo, enquanto Al Lami e Al Daraji são predominantemente xiitas.

Ahmed e Muhammad são os nomes neutros favoritos para aqueles que buscam
novos nomes ou carteiras de identidade falsas.

Al Yasseri, o funcionário do governo, disse que quando assina documentos aprovando mudanças de nome, "minha mão treme, porque estes nomes não são sujos ou obscenos. Às vezes digo às pessoas que sejam pacientes e não mudem seus nomes. Mas elas dizem: 'Senhor, não podemos, porque estamos enfrentando uma situação muito perigosa'".

Muitos moradores em Fallujah, uma fortaleza na província de Anbar, no oeste, dominada pelos sunitas, compraram carteiras de identidade falsas para esconder seus nomes e cidade natal para o caso de terem que viajar para Bagdá ou outras áreas mistas.

Bassim Abdullah Farhan, 40 anos, o dono de uma loja de autopeças, disse que pagou o equivalente a US$ 35 por uma identidade falsa que lista seu nome tribal como Al Shammari em vez de Al Dulaimi, e sua cidade natal como sendo Bagdá e não Fallujah. "Nós nunca esperávamos que a escala de homicídios e expulsões seria tão grande e tão violenta", ele disse enquanto bebia chá ao ar livre com um amigo.

Um oficial americano em Fallujah disse que famílias árabes sunitas que fogem de perseguição em Bagdá afirmam que o "'A' escarlate de Anbar significa morte" se militantes xiitas o virem em uma carteira de identidade.

Circular com um veículo com placa de Anbar pode ser igualmente perigoso. Os iraquianos contam histórias de milicianos xiitas atirando contra motoristas com placas de Anbar ou os seqüestrando.

Abdullah Ali, um mecânico em Bagdá, disse que viu seu cunhado ser
recentemente arrancado de um carro com placa de Anbar por homens armados, no bairro xiita de Shuala. O cunhado, Marwan Najim Abdullah, de Fallujah, estava dirigindo seu sedã Buick branco como parte de um cortejo de casamento. Os homens armados se aproximaram e se voltaram para o carro de Abdullah, aparentemente por causa da placa.

"A família dele o buscou no necrotério", disse Ali.

Ali disse que também teve um primo que foi seqüestrado, mutilado e morto a tiros em Shuala porque estava com uma placa de licenciamento errada. O primo, um taxista, dirigiu até o bairro em um Volkswagen Passat com placa da província de Salahuddin, dominada pelos sunitas. Mas os milicianos xiitas que o mataram cometeram um erro terrível, disse Ali -o primo era um xiita que estava por acaso com placa de Salahuddin.

O escritório de direitos humanos do principal grupo político árabe sunita, o Partido Islâmico Iraquiano, já recebeu dezenas de relatos de civis sendo molestados ou mortos devido às placas de seus carros, disse Yahia Ghazi Abdul Latif, um funcionário do escritório. Em junho, por exemplo, o partido tomou conhecimento de 10 casos, ele disse. Eles geralmente ocorrem em barreiras montadas pelos milicianos ou por comandos do Ministério do Interior, ele acrescentou.

"Eu tinha um carro com placa de Anbar e o vendi por este motivo", disse
Abdul Latif. "Eu nem mesmo o vendi por um bom preço."

Um porta-voz do Ministério do Interior negou que policiais ou comandos
estivessem discriminando com base nas placas dos veículos.

Um mercado de placas falsas surgiu, assim como o de carteiras de identidade falsas. E a demanda por carros com placas de Anbar e Salahuddin despencou, já que a mudança da placa original envolve uma dor de cabeça burocrática. Abdul Sattar al Taie, um vendedor de carros em Bagdá, disse que teve que reduzir os preços de carros com estas placas em 20%.

"A mudança no mercado se deve à violência sectária", disse Al Taie com um suspiro. "Os iraquianos são um só povo, do norte ao sul e do sul ao norte. Não há discriminação."

Suas palavras pareciam visar tranqüilizá-lo mais do que qualquer outra
coisa.

*Wisam A. Habeeb, Hosham Hussein e funcionários iraquianos do "The New York Times", em Bagdá e Fallujah, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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