UOL Notícias Internacional
 

06/09/2006

Déjà-vu nuclear: primeiro o Iraque, agora o Irã

The New York Times
David E. Sanger e William J. Broad

em Washington
O governo Bush vem pressionando outras grandes potências mundiais a se apressarem na imposição de sanções contra o Irã por suas atividades nucleares. Enquanto isso, surge com as últimas descobertas de inspetores internacionais um quebra-cabeça fascinante de evidências conflitantes que nutre um debate sobre o sentido de confrontar Teerã.

Desde que a Agência de Energia Atômica Internacional emitiu um relatório na quinta-feira (31/8), as autoridades americanas vêm insistindo que o caso está encerrado. O Irã, argumentam, recusou uma exigência do Conselho de Segurança que parasse de enriquecer o urânio.

"No final, só isso importa. Eles desafiaram o conselho", disse na semana passada R. Nicholas Burns, subsecretário de Estado para assuntos políticos.

O relatório surpreendeu os analistas com sua revelação de novas evidências atormentadoras. Os inspetores disseram que encontraram traços de urânio altamente enriquecido, que pode ser usado em bombas atômicas. Até agora, os iranianos não explicaram como esse material chegou lá, alimentando suspeitas nos EUA e na Europa de que os iranianos estão mostrando aos inspetores apenas parte do programa e que algumas instalações permanecem secretas.

No entanto, o mesmo relatório também observou que Teerã progrediu pouco na montagem de novos equipamentos para enriquecer o urânio em sua principal instalação nuclear, em Natanz. Nos últimos dias, diplomatas da União Européia e da Rússia citaram essa conclusão para reforçar o argumento que não há urgência e não há crise -e que o governo Bush deve aliviar a pressão.

Juntas, as duas opiniões colocam o governo Bush e a Organização das Nações Unidas em uma situação paralela à que estavam há quatro anos com o Iraque, no período anterior à guerra.

Em setembro de 2002, Bush dirigiu-se à ONU exigindo que Saddam Hussein permitisse a entrada de inspetores internacionais no Iraque. Autoridades européias e russas citaram esse exemplo repetidamente nas últimas semanas para argumentar que a imposição de sanções inevitavelmente levaria ao desacato iraniano, e este levaria ao confronto.

No final de semana, o secretário-geral Kofi Annan veio endossar essa opinião.

"Não acredito que sanções sejam a solução para tudo", disse Annan ao jornal francês Le Monde, a caminho do Irã. "Existem momentos em que um pouco de paciência é mais eficaz. Acho que esta é uma qualidade que devemos exercitar mais freqüentemente."

O Irã, disse ele, pode provar que seu programa é benigno "dando aos inspetores da ONU acesso a todas suas instalações".

O próprio Bush certa vez admitiu, em uma conferência com a imprensa em dezembro, que os erros de inteligência em torno da questão de armas não convencionais no Iraque tornava difícil para ele defender o caso contra o Irã. Agora, dizem especialistas, ele está começando a pagar o preço.

Graham Allison, diretor do Centro Belfer de Ciências e Assuntos Internacionais da Escola de Governo John F. Kennedy, em Harvard, argumentou que as evidências aparentemente contraditórias divulgadas pela agência de energia atômica talvez simplesmente indiquem que o programa nuclear declarado do Irã é menos avançado que seus esforços secretos para dominar os fundamentos das armas nucleares.

"Isso não é apenas plausível, mas provável", disse ele em entrevista na segunda-feira. "Para ser prudente, a abordagem americana deve incluir a possibilidade de que negociações sobre as operações declaradas são essencialmente uma distração para nos manter concentrados na mão que está se mexendo, enquanto a outra está colocando o coelho na cartola."

O urânio enriquecido em baixo nível pode alimentar reatores nucleares, que é o objetivo declarado pelo Irã. Mas engenheiros hábeis podem fazer bombas com o urânio altamente enriquecido, que os EUA dizem ser a verdadeira meta de Teerã.

A corrida para compreender as verdadeiras intenções do Irã intensificou-se em janeiro, quando o país cortou as correntes e cadeados instalados em suas plantas de enriquecimento de urânio pelos inspetores e recomeçou seus esforços para produzir combustível atômico. Em abril, o Irã anunciou que tinha usado uma série de 164 centrífugas em sua planta de Natanz para enriquecer o urânio em escala industrial, vangloriando-se que o feito significava que tinha entrado para "o clube atômico".

Ao mesmo tempo, especialistas ocidentais previram que Teerã logo teria sucesso em montar e operar duas outras cascatas, ou séries de centrífugas, cada uma consistindo de 164 máquinas. Eles acreditavam que o Irã faria isso em maio e junho, respectivamente, aproximando-o de domínio da tecnologia fundamental para produzir combustível para uma bomba.

Em vez disso, o progresso diminuiu significativamente neste verão. De acordo com inspetores atômicos, o Irã não completou nenhuma das cascatas adicionais e simplesmente fez mais testes de enriquecimento com a primeira.

David Albright and Jacqueline Shire, do Institute for Science and International Security, grupo de pesquisa em Washington que acompanha o programa iraniano, concluíram em recente relatório que o "Irã poderia estar diminuindo deliberadamente o ritmo de seu trabalho para dar tempo aos esforços diplomáticos em curso ou poderia estar passando por problemas técnicos".

Enquanto alguns diplomatas europeus usam os atrasos como justificativa para a falta de urgência, outros dizem que Teerã está agindo intencionalmente para minimizar a probabilidade de condenação internacional e para dividir ainda mais os aliados que buscam deter os experimentos atômicos e promovem a adoção de sanções.

Em contrate à imagem do atraso nuclear do Irã, o relatório da agência de energia atômica apresentou fortes evidências de passos na direção do enriquecimento.

Os inspetores encontraram novos traços de urânio altamente enriquecido em uma instalação iraniana -o terceiro episódio desse tipo em três anos. Nos casos anteriores, a agência concluiu que ao menos alguns dos traços tinham vindo de equipamentos contaminados que o Irã obtivera do Paquistão.

Mas neste caso, as "digitais" nucleares das partículas não se encaixaram com as de outras amostras, gerando questões sobre a origem das partículas, disse uma autoridade.

Em três anos de inspeções, a agência descobriu mais de uma dúzia de pistas circunstanciais sugerindo que o Irã nutre ambições nucleares secretas.

Uma das mais importantes foi o anúncio do presidente Mahmoud Ahmadinejad que o país estava pesquisando uma nova geração de centrífugas avançadas para o enriquecimento do urânio. Os inspetores nunca viram essas máquinas. Deborah Weinberg

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