UOL Notícias Internacional
 

06/09/2006

Ford traz alguém de fora para ajudar a dirigir a empresa

The New York Times
Micheline Maynard*

em Dearborn, Michigan
William Clay Ford Jr., bisneto do fundador da Ford Motor Co., trouxe uma pessoa de fora na terça-feira (05/9) para ajudar a dirigir a empresa, em uma admissão tácita de que precisa de uma nova estratégia para seus esforços de reformar a companhia em crise.

Ford deu um passo altamente incomum para Detroit, de buscar um executivo sem experiência na indústria automobilística. Ele entregou os títulos de diretor executivo e presidente para Alan R. Mulally, alto executivo da Boeing Co.; Ford continua sendo um dos diretores.

Ford, 49, disse que continuaria sendo a face pública da empresa -ele tem sido astro dos anúncios da Ford há anos- mas daria a Mulally a responsabilidade de resolver os muitos problemas da Ford, inclusive de queda nas vendas, encolhimento dos lucros e perda de mercado para suas rivais asiáticas.

Apesar do nome da sua família estar no prédio, o papel proeminente de Ford na empresa foi certa anomalia nas últimas décadas. Ele assumiu como diretor executivo em 2001, depois de 22 anos nos quais a empresa foi dirigida por pessoas que não eram da família, depois que seu tio, Henry Ford II, renunciou.

Ford ressaltou a herança de sua família em muitas conversas e estava visivelmente inquieto com suas dificuldades. As empresas da família Ford perderam mais de metade de seu valor nesta década, com a queda das ações.

Desde que se tornou diretor, em 1998, Ford aumentou cada vez mais seu poder na empresa, somando cargos. Mas em julho, ele disse ao conselho que queria trazer uma chefia de fora.

Ford disse a respeito de Mulally: "Nossa equipe precisa da mão firme de alguém que passou por reviravoltas e sabe o que é preciso e possa dizer:
'Vocês estão no caminho certo, mantenham o curso, vai funcionar', ou então, 'Este não é o caminho, vamos mudar o foco e ir para outro lugar'."

Ford já começou a fechar 14 plantas e cortar 30.000 empregos, sob um plano chamado Way Forward. Mesmo assim, os executivos da empresa estão preparando um plano maior de reestruturação, que deve ser revelado no final do mês e pode envolver mais cortes de empregos, fechamentos de fábricas e reduções nos gastos.

A contratação de Mulally "é outra admissão que os desafios que a empresa enfrenta são muito maiores do que se previra inicialmente", disse Craig Hutson, analista de investimentos da Gimme Credit, serviço de pesquisa independente.

Apesar das empresas de automóveis freqüentemente contratarem executivos de outras, a complexidade da indústria tornou-a resistente a pessoas de fora, especialmente no alto escalão. Uma rara exceção ocorreu no ano passado, quando a fabricante italiana Fiat contratou como seu novo diretor executivo Sergio Marchionne, advogado.

Enquanto isso, a General Motors está sob pressão de seu maior acionista, Kirk Kerkorian, para reestruturar-se mais rapidamente.

Kerkorian apontou para Carlos Ghosn, diretor executivo da Nissan e da Renault, como exemplo de gerente que a GM precisa. Ghosn construiu sua fama com a rápida mudança da Nissan, onde ele pôs fim a muitas das antigas práticas da empresa. O conselho da GM sempre apoiou seu diretor executivo, Rick Wagoner.

A contratação de Mulally encaixa-se com a opinião de Ford que a empresa deve dispensar a tradição para andar mais rápido.

De fato, William Ford não tem tempo a perder: em julho, a Toyota ultrapassou a Ford pela primeira vez como segunda maior fabricante de carros do país, atrás da GM, apesar de a Ford ter reconquistado a posição no mês passado.

Ford, frustrado com o lento ritmo de mudança em sua empresa, assumiu as responsabilidades de diretor de operações em julho, apesar de não ter adotado o título. Naquele mesmo mês, ele começou uma pesquisa de candidatos de dentro e de fora da indústria que o levou a Mulally, disse em entrevista.

O elo entre Ford e Mulally foi Richard Gephardt, ex-líder da maioria na Câmara e hoje assessor de Ford. Seu antigo distrito, perto de St. Louis, abrigava uma planta de caminhões fechada epla Ford recentemente. Gephardt ajudou a Boeing a alcançar o acordo de 2005 que terminou a greve de 18.000 membros do sindicato dos maquinistas. Mulally disse que estava ansioso em experimentar uma nova indústria depois de 37 anos na Boeing.

"Mal posso esperar para me tornar um homem dos carros", disse Mulally.

Mulally disse que foi atraído pela oportunidade de trabalhar com Ford, além da herança da empresa de automóveis e a oportunidade de ajudar um ícone americano em dificuldades. Gephard, de fato, usou esse argumento para ajudar a convencer Mulally a considerar a proposta, disse Ford. "Ele disse a Mulally que tinha que fazer isso pelos EUA", disse Ford.

O bisneto de Ford terá atuação "notadamente diferente" do que quando Jacques A. Nasser foi diretor da empresa, de 1999 a 2001. Os dois homens teriam tido confrontos sobre as propostas de Nasser para revigorar a cultura corporativa letárgica da Ford, como a mudança dos critérios pelos quais a empresa conduzia as avaliações de seus funcionários.

"Fui CEO agora", disse Ford. "Compreendo esta empresa e sei como funciona muito melhor do que antes."

Ele disse que já estava pronto para deixar o cargo que vinha desempenhando pelos últimos cinco anos, acrescentando: "Como CEO, uma coisa que está absolutamente clara para mim é o quanto nossos funcionários se preocupam com esta empresa e como querem vencer". Ford prosseguiu: "Esta é absolutamente a medida correta para termos um líder que mostre a eles o caminho certo para a vitória."

Ford disse na terça-feira que ligou para Ron Gettelfinger, presidente do sindicato United Automobile Workers para contar que tinha contratado Mulally, e soube que Gettelfinger já o conhecia. Mulally disse que planejava ligar para Gettelfinger na quarta-feira, para que pudessem renovar seus laços.

Apesar de Mulally nunca ter trabalhado em Detroit, há paralelos entre as duas indústrias. As duas lidam com sindicatos de trabalhadores decadentes, porém ainda poderosos, como descobriu Mulally no início da década, quando a Boeing foi atingida pela Associação Internacional de Maquinistas e Trabalhadores Aeroespaciais.

As duas indústrias compartilham um longo período de investimento -de três a quatro anos para desenvolver um novo carro, e até mais para novos aviões. As duas requerem que as empresas apostem bilhões de dólares em novos produtos e arrisquem ver a demanda dos consumidores murchar quando os preços do petróleo aumentam e a economia tropeça. Elas também requerem vastas quantias de conhecimento de engenharia e dependem de inúmeros fornecedores. Entretanto Mulally não precisa que alguém o relembre de Ford, cujas idéias ele usou quando reformou a divisão de aviões comerciais da Boeing, nos últimos nove anos.

Em particular, Mulally estudou o desenvolvimento do Ford Taurus, um carro desenhado na década de 80 para competir com ofertas da Toyota e Honda. A Ford uniu um grupo de engenheiros, projetistas, especialistas de produção e outros para desenvolver o Taurus, conhecido por sua aparência aerodinâmica, que na época era radical.

Além disso, Mulally estudou o Toyota Producion System, que o fabricante japonês usa em suas operações no mundo. O sistema da Toyota, conhecido como TPS, enfatiza o aprimoramento constante, a eliminação de desperdícios e envolvimento dos trabalhadores na resolução de problemas da linha de montagem.

Mulally aplicou essas lições enquanto enxugava as operações da Boeing, cortando suas linhas de produtos de 14 para 4.

Mulally foi vencido duas vezes nesta década para o cargo de diretor executivo da Boeing, que mais recentemente foi para outro estranho na indústria, W. James McNerney, que veio da 3M.

A Boeing nomeou Scott Carson, 60, como substituto de Mulally. Carson era responsável pelas operações de vendas da divisão de aviões.

Analistas disseram que a partida de Mulally parecia lógica. "Alan é claramente um sujeito ambicioso, e a Ford é um grande cargo", disse Cai Von Rumohr, analista do aeroespaço da SG Cowan and Co. "Não surpreende que ele queira outro desafio."

Ainda assim, Douglas M. Steenland, diretor executivo da Northwest Airlines, disse que Mulally, que até hoje dirige um sedã de luxo Lexus LX430, ia precisar se atualizar em sua nova empresa. Mas ele acrescentou: "Habilidades executivas são transferíveis. Algumas vezes ajuda ter uma formação em outros ramos."

Outro executivo de companhias aéreas, Herbert D. Kelleher Jr., diretor e co-fundador da Southwest Airlines, disse que a tarefa inicial de Mulally seria "conquistar os corações e mentes das pessoas da Ford."

Isso poderia ser um desafio em uma empresa que sofreu inúmeras perdas de executivos durante esta década. Apesar de Mulally ser apenas o nono diretor executivo na história de 103 anos da Ford, o segundo e terceiro escalão foram marcados por inúmeras partidas desde a demissão de Nasser em 2001.

Mulally disse que não planejava trazer executivos com ele para a Ford, mas contar com os que já estão na ativa. Além disso, ele disse que não faria ajustes ao plano expandido Way Forward que Ford vai expor em algumas semanas e sobre o qual ele foi informado.

Ford disse que não achava que a moral do pessoal seria prejudicada pela chegada de Mulally. De fato, não havia sucessores lógicos para Ford dentro da empresa, e o nome mais citado para substituí-lo era o de Ghosn. Este, porém, recusou as propostas da Ford ao menos duas vezes e atualmente está em negociações com a GM.

*Leslie Wayne contribuiu para este artigo de Nova York e Nick Bunkley de Detroit Deborah Weinberg

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