UOL Notícias Internacional
 

07/09/2006

No Brasil, ex-aliada pode atrapalhar eleição para o presidente

The New York Times
Larry Rohter

em São Joaquim do Monte, Brasil
À primeira vista, ela parece frágil, afável e suave, características dificilmente encontradas em candidatos presidenciais. Mas quando Heloísa Helena Lima de Morais começa a falar, suas palavras são duras e acusatórias, cheias de fogo e enxofre, especialmente em relação ao seu antigo companheiro de partido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com os brasileiros prestes a irem às urnas em 1º de outubro para eleger um presidente, Heloísa Helena se tornou o elemento imprevisível no que inicialmente seria uma disputa entre dois homens. As pesquisas mostram o presidente Lula próximo dos 50% dos votos que necessita para sua reeleição já no primeiro turno, com seu principal adversário, Geraldo Alckmin, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) de centro-esquerda, bem atrás, com menos de 30%.

Contando com o apoio de cerca de 10% dos eleitorado, Heloísa Helena, uma esquerdista de 44 anos, parece não ter chance de vitória. Mas os estrategistas de Lula no Partido dos Trabalhadores do governo temem que ela possa conquistar votos suficientes junto aos eleitores insatisfeitos com a corrupção que veio à tona durante seu governo para forçar um imprevisível e indesejado segundo turno em meados de outubro.

Em seus discursos, Heloísa Helena, a candidata do Partido Socialismo e Liberdade (P-SOL), cobre de desprezo seus dois principais adversários, os descrevendo como "meninos de recado do capital financeiro" que representam "dois lados da mesma moeda imunda". Mas ela tem concentrado grande parte de seus ataques contra Lula, um antigo aliado ao qual ela agora acusa de "arrogância e covardia política".

"Não quero comentar mais nada sobre esse rapaz", ela disse no domingo quando perguntada por repórteres enquanto fazia campanha aqui, no Estado natal do presidente, no Nordeste do Brasil. "Quero ter a oportunidade de debater com ele, bem pertinho, de forma civilizada, como o povo brasileiro quer, para que ele seja desmascarado. Espero que ele desça do seu troninho de arrogância e covardia política para, de forma civilizada e conseqüente, debater alternativas de desenvolvimento econômico e projetos de inclusão social."

Até 2003, Heloísa Helena era membro do Partido dos Trabalhadores, que Lula, um ex-líder sindical de 60 anos, fundou em 1980. Mas ela foi expulsa no que chamou de "uma inquisição", porque se recusou a se submeter à disciplina do partido e ao apoio à políticas econômicas que ela considerava uma traição aos princípios de esquerda do partido.

Como Lula, Heloísa Helena é natural do Nordeste brasileiro, uma região de nove Estados, mais de 50 milhões de habitantes e uma das áreas mais pobres e atrasadas do país, e possui um passado semelhante de privação e perseverança. Ela nasceu a cerca de 160 quilômetros da cidade natal de Lula e o pai dela, que morreu quando ela era bebê, também tinha o apelido de Lula.

Criada pela mãe, uma costureira, Heloísa Helena freqüentou uma prestigiada escola católica para moças com uma bolsa de estudos e então estudou enfermagem em uma universidade em seu Estado natal, Alagoas, ao sul daqui. Em 1998, após servir na assembléia legislativa de seu Estado, ela foi eleita para o Senado em Brasília.

Uma católica fervorosa que é contra o aborto e a pesquisa de células-tronco, Heloísa Helena se descreve como socialista, mas uma cuja crença é baseada menos em Marx e Lenin e mais na Bíblia. "Lá é dito que você serve ao amor ou ao dinheiro", ela argumenta, acrescentando que aqueles que seguem o caminho da riqueza estão fadados a "assar feito churrasco no fogo do inferno".

Em um recente ensaio, João de Souza Martins, um professor de sociologia da Universidade de São Paulo, comparou Heloísa Helena a uma longa tradição brasileira de profetas místicos religiosos do sertão que "erguem a bandeira milenária de um reino de liberdade, justiça e abundância". Isto a tornou um pára-raios para todo tipo de descontentamento, entre grupos que incluem trabalhadores rurais daqui e a classe média urbana no sul mais próspero.

"A indignação dela com os efeitos perversos da atual economia, com a manipulação do poder, com a corrupção e o atraso na redenção dos pobres é a indignação de milhões de eleitores", ele escreveu. "São aqueles que se sentem enganados por uma estrela guia que, na verdade, não conduziu o Brasil a uma nova era de tranqüilidade confortável."

Para acentuar o contraste entre ela e os dois principais candidatos, Heloísa Helena tem feito uma campanha com poucos recursos. Ela toma vôos comerciais em vez de um avião particular, dorme na casa de simpatizantes em vez de hotéis, veste jeans azul e blusa branca lisa em eventos públicos e se recusa a aceitar doações de corporações.

"Eu não tenho um Air Lula ou jato particular", ela diz para as multidões quando precisa encurtar um discurso para pegar um avião. "Eu sou como todos vocês, uma mulher do sertão que tem que lutar para sobreviver."

O que sua campanha carece de recursos ou organização, ela compensa com entusiasmo pessoal. No palanque, Heloísa Helena mantém bastante contato físico, oferecendo abraços e beijos para os eleitores e se dirigindo aos repórteres que lhe fazem perguntas em noticiários de televisão como "meu amor", "minha flor" e outros termos carinhosos.

"Ela tem um talento para aproximação que lhe permite chegar perto das pessoas, e as pessoas querem se aproximar dela, sem todo o aparato de segurança que outros candidatos têm", disse o padre católico romano Manoel Henrique de Melo Santana, amigo e conselheiro espiritual ocasional. Lula pode estar se apresentando como "pai dos pobres", acrescentou Santana, "mas talvez o que os pobres queiram seja uma mãe".

No domingo, Heloísa Helena chegou a esta cidade rural para participar de uma peregrinação religiosa em homenagem a um frei italiano que muitos brasileiros consideram santo. Ela foi cercada por pessoas que lhe desejavam boa sorte e gritavam frases como "bata duro neles, mulher", enquanto subia e descia o morro que abriga o santuário.

"Lula vai ganhar, mas eu vou votar nela assim mesmo", disse Antélio Ramos da Silva, um trabalhador rural aposentado, depois que ele e sua esposa abraçaram a candidata. "Ela é uma lutadora e é honesta, e é disto que precisamos para limpar o ninho de corrupção em Brasília." George El Khouri Andolfato

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