UOL Notícias Internacional
 

09/09/2006

Comitê diz que CIA recusou associar Saddam à Al Qaeda

The New York Times
Mark Mazzetti

em Washington
A CIA repudiou no ano passado a alegação de que havia ligações pré-guerra entre o governo de Saddam Hussein e um agente da Al Qaeda, Abu Musab al Zarqawi, segundo um relatório divulgado na sexta-feira pelo Comitê de Inteligência do Senado.

A revelação refuta as afirmações do governo Bush de que tais laços existiam e de que forneceu evidência dos laços entre o Iraque e a Al Qaeda. O comitê controlado pelos republicanos também criticou fortemente o governo por sua dependência do Congresso Nacional Iraquiano durante o prelúdio para a guerra no Iraque.

As conclusões, em dois novos relatórios, são parte de uma investigação em andamento do comitê da inteligência pré-guerra sobre o Iraque. Os resultados foram além das conclusões iniciais, divulgadas em 2004, ao incluir críticas não apenas às agências de inteligência americanas, mas também ao governo.

Vários republicanos discordaram fortemente das conclusões do relatório sobre o Congresso Nacional Iraquiano, dizendo que ele exagera o papel que o grupo de exilados teve na avaliação da inteligência pré-guerra sobre o Iraque. Mas o comitê aprovou por maioria esmagadora o outro relatório, com apenas um senador republicano votando contra.

Os relatórios não tratam da questão que provoca muita divisão política, sobre se o governo Bush exagerou ou usou indevidamente a inteligência como parte de seu esforço para obter o apoio para a invasão do Iraque. Mas um relatório contradiz as afirmações do governo, feitas antes da guerra e desde então, de que os laços entre Al Zarqawi e o governo de Saddam forneciam evidência de um relacionamento estreito entre o Iraque e a Al Qaeda.

Em 21 de agosto deste ano, o presidente Bush disse em uma coletiva de imprensa que Saddam "tinha relações com Zarqawi". Mas um relatório da CIA, concluído em outubro de 2005, afirma que o governo de Saddam "não tinha relacionamento, nem acolhia e nem fazia vista grossa a Zarqawi e seus associados", segundo as novas conclusões do Senado.

O relatório da CIA também contradiz as alegações feitas em fevereiro de 2003 pelo secretário de Estado, Colin L. Powell, que mencionou Al Zarqawi nominalmente 20 vezes durante um discurso perante o Conselho de Segurança da ONU defendendo a posição do governo de ir à guerra. Naquele discurso, Powell disse que o Iraque "atualmente acolhe uma rede terrorista mortal" chefiada por Al Zarqawi, e rejeitou como "não críveis" as afirmações do governo iraquiano de que não tinha conhecimento do paradeiro de Al Zarqawi.

Na verdade, a investigação do Senado concluiu que Saddam considerava a Al Qaeda uma ameaça e não uma aliada potencial, e que o serviço de inteligência iraquiano "tentou ativamente localizar e capturar Al Zarqawi sem sucesso".

O relatório de 356 páginas do comitê critica especificamente uma decisão do Conselho de Segurança Nacional, em 2002, de manter um relacionamento estreito com o Congresso Nacional Iraquiano (INC), chefiado pelo líder exilado Ahmad Chalabi, mesmo após a CIA e a Agência de Inteligência da Defesa terem alertado que "o INC foi infiltrado por serviços de inteligência hostis", notadamente do Irã.

O relatório concluiu que o INC forneceu um grande número de inteligência falha aos Estados Unidos sobre o Iraque, e concluiu que o grupo "tentou influenciar a política dos Estados Unidos para o Iraque fornecendo informação falsa por meio dos desertores, visando convencer os Estados Unidos de que o Iraque possuía armas de destruição em massa e tinha laços com os terroristas".

As conclusões e sua divulgação ocorreram em um momento inoportuno para o governo Bush, que passou a última semana tentando afastar a atenção dos eleitores dos erros no Iraque e atraí-la para o território político confortável da ameaça terrorista aos Estados Unidos.

Na sexta-feira, o porta-voz da Casa Branca, Tony Snow, minimizou os relatórios, dizendo que não continham nada de novo e estavam "questionando novamente coisas que aconteceram três anos atrás".

"O mais importante a fazer é determinar o que fazer amanhã, no dia seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte para assegurar que esta guerra contra o terror seja vencida", disse Snow.

A expectativa é de que os dois relatórios divulgados na sexta-feira devam ser os aspectos menos controversos do que resta da investigação do comitê do Senado, que no final tratará da questão sobre se as afirmações do governo Bush sobre o Iraque refletiam precisamente a inteligência disponível.

Mas sua conclusão está meses atrasada e sua divulgação, no meio de uma campanha da Casa Branca que enfatizava o terrorismo, pareceu ocorrer por coincidência.

Os relatórios foram de fato aprovados pelo comitê em agosto, mas passaram por um processo de liberação de sua confidencialidade que durou um mês. Foi o senador Pat Roberts do Kansas, o presidente republicano do comitê, que estabeleceu o início de setembro como data de divulgação.

O relatório inicial do comitê em 2004, que criticava as agências de inteligência por exageraram o estado dos programas de armas químicas, biológicas e nucleares do Iraque, foi divulgado com aprovação unânime. Mas os relatórios divulgados na sexta-feira forneciam evidência de quanto o relacionamento entre republicanos e democratas no comitê degenerou nos últimos dois anos.

Uma série de conclusões, que incluía críticas aos laços do governo com o Congresso Nacional Iraquiano, enfrentou a oposição de vários republicanos do comitê, incluindo Roberts, mas foi aprovada com o apoio de dois republicanos, Chuck Hagel, de Nebraska, e Olympia Snowe, do Maine, juntamente com todos os sete democratas. Roberts até mesmo tomou a medida incomum de rejeitar as conclusões sobre o papel exercido pelo INC, dizendo que eram "enganadoras e não apoiadas pelos fatos".

O relatório sobre o papel do INC concluiu que a inteligência falha fornecida pelo grupo foi parar em vários relatórios de inteligência pré-guerra, incluindo a Avaliação Nacional de Inteligência de outubro de 2002, que precedeu diretamente a votação do Senado sobre a guerra no Iraque. Ele diz que fontes apresentadas pelo grupo à inteligência americana influenciaram diretamente dois julgamentos chaves daquele documento: o de que Saddam possuía laboratórios móveis de armas biológicas e que estava tentando retomar seu programa nuclear.

O relatório disse que havia evidência insuficiente para determinar se uma das fontes de inteligência de maior destaque, usada pelos Estados Unidos antes da guerra no Iraque, estava ligada ao Congresso Nacional Iraquiano. A fonte, um iraquiano apelidado de "Curveball", foi fundamental para a visão americana de que Saddam tinha um programa de armas biológicas móveis, mas a informação que ele forneceu foi posteriormente desacreditada.

Segundo o relatório, outra informação errada sobre o programa biológico do Iraque foi fornecida por uma fonte ligada ao Congresso Nacional Iraquiano, e disse que o uso da informação pelas agências de inteligência "constituiu um erro sério".

O parecer contrário, assinado por Roberts e quatro outros membros republicanos do comitê, minimiza o papel do grupo de Chalabi. "A informação do INC e de desertores afiliados ao INC não foi amplamente usada em produtos da Comunidade de Inteligência e teve um papel pequeno nos julgamentos da Comunidade de Inteligência sobre os programas de armas de destruição em massa do Iraque", disseram os republicanos.

Francis Brooke, um porta-voz do INC, chamou o relatório de "tendencioso, partidário e enganador", e concordou com a dissensão republicana de que o INC não teve papel central na defesa da guerra pelo governo Bush.

Ao mesmo tempo, Brooke disse que sua organização ficou surpresa em quão pouco o governo americano sabia sobre o regime de Saddam antes da guerra no Iraque, o que pode ter forçado as autoridades americanas a depender mais do INC.

"Nós não percebemos a escassez de inteligência humana que o governo tinha em relação ao Iraque", disse Brooke. George El Khouri Andolfato

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