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11/09/2006

Nos EUA, mulheres alugam artigos de luxo para circular na alta sociedade

The New York Times
Ruth la Ferla, em Nova York
Na última quarta-feira, durante a série de festas que precedem a Semana de Moda de Nova York, Stephen Knoll, o famoso cabeleireiro, olhou para o meu nécéssaire Saint Laurent Muse e murmurou: "Lindo". A seguir, ele viu o meu casaco Marni, com a sua decoração de flores plásticas. "Fabuloso", disse Knoll.

Eu deixei de lhe dizer que alugara os dois artigos a fim de atrair os olhares cheios de inveja das minhas colegas. Tal confissão teria estragado a diversão.

Milton Pedraza, diretor do Luxury Institute, um grupo de pesquisas sobre consumidores, teria dito que eu aluguei não só um visual, mas também uma experiência: nesse caso a sensação de superioridade associada ao uso daqueles produtos mais procurados da estação.

"No que diz respeito aos artigos de luxo, hoje em dia muita gente está mais interessada em curtir as experiências associadas a eles do que em realmente comprá-los", explicou Pedraza pelo telefone. Ele acrescentou que mesmo entre os não tão ricos, a emoção associada à posse acaba rapidamente. "As pessoas ricas, em particular, estão cansadas da quantidade de bugigangas nas suas vidas. Elas não querem mais o incômodo associado à posse dos produtos. Mais do que posse, elas querem variedade."

Nos últimos seis anos, o apetite dos consumidores por artigos de luxo gerou uma explosão de alugueis de automóveis de mais de US$ 35 mil, jatos particulares, casas de férias e até mesmo mobiliário e obras de arte. Por exemplo, uma mesa de café Knoll para a sala de estar, ou um Warhol colorido para decorar o corredor. Uma pequena taxa de associação ou mensalidade, como aquela que é cobrada pela companhia de aluguel de DVDs NetFlix, está possibilitando um maior acesso a esse tipo de artigos.

Atualmente, o aluguel de artigos de luxo se estendeu para a moda. E peças caras e finas, antigamente disponíveis apenas para celebridades, chefes de corporações e socialites estão atualmente acessíveis a qualquer um que se disponha a pagar. Algumas empresas cobram uma taxa de adesão. Outras só cobram por peça, geralmente de 10% a 15% do valor de venda.

Os consumidores potenciais podem pesquisar os sites de firmas especializadas como a Bag Borrow our Steal (www.bagborroworsteal.com) de Seattle, que oferece bolsas e jóias feitas por designers famosos para aluguel; a Borrowed Bling, uma fornecedora californiana de diamantes ; ou a Albright Incorporation, uma loja cavernosa no centro de Manhattan, onde podem ser encontrados vestidos, bolsas e sapatos de estilistas famosos.

E vários outros serviços do gênero surgiram nos últimos dois anos, espelhando-se mais ou menos no modelo de companhias como a NetJets, que oferece vagas em jatos particulares, ou a Exclusive Resorts, que concede aos membros pontuais no pagamento a propriedade em tempo parcial de residências em locais exóticos. O aluguel de artigos de moda, um negócio em estágio inicial, já faz sucesso nacionalmente, e os clientes estão concentrados principalmente nos grande centros urbanos.

Na Bag Borrow or Steal, onde consegui a minha bolsa Muse, a taxa de filiação é de US$ 995, e mediante o pagamento de aluguéis que variam de US$ 8 a US$ 800, é possível conseguir bolsas para usar durante uma semana ou um ano. E, se você é incapaz de viver sem a bolsa dos seus sonhos, essas firmas fornecem também a opção de compra.

A Muse, que é vendida por US$ 2.000, pode ser alugada por US$ 60 por semana ou US$ 175 por mês. Alguns artigos estão em uma lista de espera.

No www.borrowedBling.com, um site inaugurado em março, mediante o pagamento de taxas de associação que variam de US$ 30 a US$ 100 o consumidor pode alugar jóias, pedras preciosas decorativas ou candelabros. O site recebe cerca de 4.500 novos visitantes por mês, segundo Carol Wechsler, a sua criadora.

A cliente pode ser uma jovem esposa que deseja impressionar as colegas de trabalho do marido, explica Wechsler. Porém, segundo ela, o tipo mais comum é uma integrante proeminente da sua comunidade, envolvida em atividades filantrópicas. "Esse tipo de cliente costuma ver o mesmo grupo de pessoas todos os meses, ou todas as semanas, e ela provavelmente possui as suas próprias jóias."

"Mas não me importa se a pessoa é a Elizabeth Taylor", acrescenta Wechsler.

"Ninguém possui jóias suficientes para trocar de visual caso se encontre com as mesmas pessoas regularmente."

Para os colecionadores em série de artigos de luxo, os aluguéis passaram a demolir o estigma que costumava estar associado a ternos e vestidos alugados. "Na minha opinião, esta é uma grande idéia", disse Melanie Charlton, socialite de Nova York.

Charlton, a nova proprietária da Closette, uma firma que organiza espaço de guarda-roupas, participa de dezenas de eventos de gala por ano, mas suplementa os seus vestidos e aqueles emprestados por estilistas amigos com roupas alugadas. Por US$ 450, ela alugou por uma noite um vestido preto e branco Narciso Rodriguez da Wardrobe NYC, uma firma de aluguel de artigos de moda de Manhattan. "De certa forma, isto é um progresso", opina Charlton. "A cliente paga pelo vestido, em vez de pegá-lo emprestado junto ao estilista. Pessoalmente, não enxergo vergonha nenhuma nisso".

O conceito de um guarda-roupa caro temporário foi introduzido mais de uma década atrás, quando as celebridades começaram a caminhar sobre os tapetes vermelhos cobertas do glamour conferido pelos artigos alugados. A ascensão de sites de leilão online, como a e-Bay e o Portero, especializado em artigos de luxo, que dão ao cliente uma oportunidade de se despojar dos tesouros da estação passada, alteraram ainda mais a percepção do público.

"As pessoas estão começando a modificar a sua visão quanto à propriedade temporária", afirma Adam Dell, que tem capital investido na Bag Borrow or Steal. "Chegou a época do aluguel de artigos de moda".

Mas não tão rapidamente. Kathryn Finney, autora do livro "How to Be a Budget Fashionista: The Ultimate Guide to Looking Fabulous for Less" (algo como, "Como Andar na Moda Gastando Pouco: O Guia Supremo para se ter uma Aparência Fabulosa por Menos") considera muito elevada a quantia de US$ 150 ou mais pelo breve prazer de exibir uma bolsa alugada.

"Isso é muito caro, quando se faz o cálculo", diz Finney. "Além disso, alugar artigos de moda é apenas uma outra maneira iludir pessoas que tentam comprar a cultura das celebridades. Indivíduos que precisam viver com um padrão de vida mais alto do que a sua renda lhes permite."

Mesmo assim, a flexibilidade proporcionada pelo aluguel atrai pessoas como Charlton. "Fica bem mais barato alugar um vestido de US$ 5.000 ou US$ 8.000 que você só vai usar uma ou duas vezes por ano".

Mas o custo é apenas uma parte do atrativo proporcionado pelo aluguel, porque, conforme observam analistas de aluguéis e moda, há uma boa chance de que quem aluga já tenha uma bolsa Chloe, um vestido Lanvin ou sapatos Louboutin.

"Este tipo de cliente é muito ligado à moda", afirma Robert Burke, consultor de vendas de Nova York, e cujos clientes incluem a Bag Borrow or Steal. Ele disse que, para essas consumidoras, o aluguel não é motivado pela necessidade de economizar, mas sim por uma sede persistente de experiências novas.

Para outros, o aluguel consiste em uma alternativa elegante e politicamente correta ao frenesi de compras. A estilista Vivienne Tam, vendo o meu casaco Marni alugado durante a cerimônia de lançamento de um livro do fotógrafo Timothy Greenfield Sanders na quarta-feira passada, manifestou aprovação. "Você o alugou?", indagou Tam. "Que bela forma de reciclar."

Mas, apesar de outros atrativos deste tipo de aluguel, este é um conceito que a indústria da moda vem adotando de forma muito lenta. "A indústria é conservadora", disse Pedraza. "Talvez os seus membros saibam que o sucesso desta tendência não está de forma alguma garantido. Esse modelo de negócio é frágil e complexo. Exige o gerenciamento de estoque, das remessas e de seguros. O verdadeiro desafio é tentar encontrar um equilíbrio por meio do qual o aluguel seja rentável para a companhia, mas não muito caro para o cliente".

Dito isso, Pedraza argumenta que o aluguel desses artigos atende a uma sociedade de consumo com uma capacidade máxima de atenção digna de um inseto. "A idéia é 'Vou mergulhar nesta onda por uma semana, e depois disso paro'. Ou algo como: 'Não quero retornar àquela casa em Aspen. Quero uma nova em Vail'."

Creio que sei o que ele quer dizer. Após as festas, a minha Muse perdeu o seu magnetismo. E eu já estou voltada para outra coisa. Pergunto a mim
mesmo: "O que eu não daria por uma nova bolsa Cabas da Chanel?." Danilo Fonseca

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