UOL Notícias Internacional
 

12/09/2006

Marcando vidas perdidas e os sinais esperançosos de cura

The New York Times
Robert D. McFadden*

em Nova York
Novamente os sinos soaram em pesar, entes queridos recitaram os nomes dos mortos no ponto zero e um país ferido, mas resistente, fez uma pausa para lembrar o dia calamitoso em que explosões terroristas reverberaram como trovões de tempestade de verão e pessoas caíram do céu.

James Estrin/The New York Times 
Parentes e amigos das vítimas juntam-se perto de piscina que marca lugar das torres gêmeas

No quinto aniversário dos ataques de 11 de Setembro, enquanto a maioria dos americanos prosseguia em suas rotinas, milhares se reuniram na segunda-feira no ponto zero, no Pentágono e em um campo na Pensilvânia, locais onde caíram os aviões comerciais seqüestrados. Eles incluíam famílias e amigos das 2.973 pessoas que morreram, o presidente Bush e outras autoridades públicas, assim como inúmeros estranhos unidos pela lembrança assustadora mas que está perdendo força.

No fosse em Lower Manhattan onde se erguia o World Trade Center, elas celebraram o dia com rituais familiares: minutos de silêncio para marcar os momentos em que os aviões colidiram e as torres ruíram, colocação de coroas de flores, orações, a música e a poesia da perda e da recordação. Tudo repleto de emoções que ainda calam fundo mas que estão exibindo sinais de cura.

"Quanto eu amo você?" disse Susan Sliwak, mãe de três, em um microfone no palco acima da multidão em pesar, citando uma letra de Irving Berlin em homenagem ao seu marido, Robert Sliwak, um funcionário da Cantor Fitzgerald e um dos 2.749 mortos no trade center. "Quão profundo é o oceano? Quão alto é o céu?"

Enquanto um violoncelo, uma flauta e outros instrumentos interpretavam suavemente o Canon de Pachelbel, o Adágio de Albinoni e outras peças solenes, cerca de 200 cônjuges, parceiros e outros entes queridos se alternavam na leitura dos nomes dos mortos. Muitos se dirigiram diretamente aos parceiros perdidos, freqüentemente com vozes firmes, orgulhosas. Outros falaram entre lágrimas do nascimento de netos ou reafirmaram seus votos de matrimônio. Muitos apenas expressaram seu amor e o de seus filhos, uma promessa de nunca esquecer.

Sob raios dourados de sol, muitos parentes se ajoelharam no fosso para rezar. Eles se abraçaram, choraram ou soluçaram e colocaram coroas de flores e rosas nos espelhos d'água que ocupam o lugar das torres caídas. As águas logo ficaram tomadas de flores.

Mas como se houvesse um tema nos procedimentos deste ano, foi uma homenagem e recordação dos mortos acompanhada de uma continuidade da vida. "Para todos os americanos, esta data será para sempre entrelaçada com tristeza", disse o prefeito Michael R. Bloomberg em seus comentários de encerramento, na hora do almoço. "Mas a lembrança daqueles que perdemos queimará com um brilho cada vez mais brando."

Momentos depois, trompetistas da polícia e do corpo de bombeiros de Nova York tocaram o toque de silêncio, a bela e comovente solenidade que encerrou o dia militar. A celebração de segunda-feira foi encerrada na verdade com outra tradição: o "Tributo de Luz", dois feixes poderosos na direção do céu, criando as silhuetas das torres caídas.

Foi um dia suntuosamente fresco, um grande portal para o outono, e Lower Manhattan era um cenário dramático. Era preciso imaginar a arquitetura para acompanhar o terreno estriado -arranha-céus angulares para acompanhar os espelhos d'água- mas o restante era real: a silhueta mágica dos prédios se erguendo em padrões geométricos, os mares de bandeiras americanas, o Hudson reluzindo com a luz do sol e ao longe as gaivotas mergulhando e subindo aos céus em uma cadência musical.

Bush não participou das cerimônias no ponto zero, onde ele e sua esposa, Laura, colocaram uma coroa de flores no domingo. Em vez disso, ele se juntou a 100 policiais e bombeiros para um café da manhã em um posto dos bombeiros, no Lower East Side de Manhattan, em homenagem àqueles que primeiro correram até as torres para salvar vidas, mas que acabaram perdendo suas próprias. Enquanto os sinos tocavam, Bush abaixou sua cabeça em silêncio para marcar os momentos em que os aviões atingiram as torres.

Posteriormente, ele seguiu para a Pensilvânia para cumprimentar e abraçar, sob uma chuva fria, as famílias dos 40 que morreram na queda do Vôo 93 da United e que, segundo acreditam as autoridades, pouparam a Casa Branca ou o Capitólio da destruição ao enfrentarem os seqüestradores. No Norte da Virgínia, o casal Bush depositou uma coroa de flores na parede do Pentágono que foi atingida pelo Vôo 66 da American Airlines, matando 184 pessoas.

Pela primeira vez desde 2002, o presidente visitou todos os três locais onde vidas foram perdidas no 11 de Setembro, o fazendo sem proferir discursos até o pronunciamento no início da noite feito do Escritório Oval.

A cerimônia no ponto zero foi apenas um dos muitos eventos solenes por todo o país. Em templos, postos dos bombeiros e chefaturas de polícia, em parques e prédios públicos em muitas cidades, ocorreram vigílias, fóruns, cerimônias ecumênicas, concertos, exposições e eventos que variavam de empinar pipas a lanternas flutuantes. Milhões assistiram as cerimônias pela televisão e falaram sobre onde estavam e o que faziam quando os aviões atingiram as torres, assim como sobre quanto suas vidas mudaram.

Ocorreram cerimônias por toda parte em Nova York, na Catedral de São Patrício, na Capela de São Paulo perto do ponto zero, na rotunda da Suprema Corte estadual em Manhattan. Concertos, missas, exposições, inaugurações de memoriais e outros eventos foram realizados em muitos subúrbios de Nova York, Nova Jersey e Connecticut.

Mas por trás do dia de cerimônias, os ritmos da vida nos Estados Unidos prosseguiam. Havia trabalho a fazer, aulas a assistir, jogos de futebol, casamentos, nascimentos, mortes e compromissos. Os exércitos de comerciantes, construtores e funcionários públicos prosseguiam em seus afazeres, não como de costume, talvez, mas com uma consciência de que o 11 de Setembro, uma data queimada na psique nacional, se afasta da catástrofe e caminha para o reino da história trágica. Foi uma ocasião para solenidade, mas não mais para dor profunda.

Fora a discussão sobre o significado do dia, ele foi comum na maioria das escolas. Nos aeroportos, rodoviárias, estações de trem e outros centros de transporte, foi outro dia de segurança e viagem, apesar da Estação Pensilvânia em Manhattan ter sido brevemente evacuada pela manhã devido a um pacote suspeito, que revelou não ser nada ameaçador.

As lembranças ainda estão vivas nos postos do corpo de bombeiros, como o da Amsterdam Avenue e Rua 66, onde os carros 40 e 35 perderam 11 homens há cinco anos. "Nós convivemos com isto todo dia", disse o capitão John Miles. "Este dia é apenas para lembrança daqueles que perdemos." Mas às 8h42, minutos antes do primeiro momento de silêncio, o alarme de incêndio soou e os bombeiros correram para seus caminhões.

Em Wall Street, o trabalhou parou em observação aos minutos de silêncio, um efeito estranho no pregão normalmente barulhento. Na travessia de balsa de Nova York para Jersey City, o capitão Kirk Slater, que levou pessoas ao trabalho que nunca voltaram em 11 de Setembro, parou suas máquinas e navegou à deriva em um rio silencioso. Um trem do metrô também parou no mesmo momento perto da Rua 96, no Upper West Side de Manhattan. No Central Park, pessoas caminhavam, jogavam bola e deitavam no gramado como se passassem o dia em uma pintura impressionista.

Vida e morte prosseguiam. Na Owens Funeral Home no Harlem, um serviço fúnebre foi realizado para Clyde Griffin Jr., um veterano de 80 anos da Segunda Guerra Mundial que morreu na semana passada. No Saint Luke's-Roosevelt Hospital Center, Emma Paulino-Chindra nasceu de Ines Paulino-Chindra, 26 anos, e seu marido, Wendell, 31. "É um bebê milagroso", disse o novo pai. "Nós celebraremos a vida hoje, não a morte."

Tony Arroyo Sr., de Lancaster, Pensilvânia, que levou seu filho, Tony Jr., ao Jardim de Inverno do World Financial Center, se maravilhou com a reforma de US$ 50 milhões e, pela janela, com a North Cove Marina no Rio Hudson, onde barcos atingidos pelos escombros das torres partiram. Agora, mais de 40 embarcações navegavam com a brisa, incluindo um megacatamarã reluzente chamado Best Revenge.

O aniversário mostrou um país muito mudado em cinco anos, com guerras no Afeganistão e no Iraque, temores renovados de um conflito nuclear e medidas de segurança que alteraram as formas como os americanos viajam, fazem negócios e o que pensam do mundo. Apesar dos US$ 250 milhões gastos em segurança nos aeroportos, fronteiras e portos, a maioria dos americanos acredita que outro grande ataque é inevitável, mas passaram a aceitar as revistas, demoras e inconveniências como o preço de uma vida em uma era de terror.

No ponto zero, parentes e amigos dos mortos começaram a se reunir logo após as 7 da manhã e por volta das 8h30 a multidão já era de milhares. Algumas pessoas vestiam camisetas com imagens dos entes queridos. Outras carregavam fotos, buquês de rosas ou cravos e o fardo de cinco anos com o vazio em suas vidas. Elas desceram ao fosso em uma rampa enfeitada com bandeiras e blocos de cimento pintados alternadamente de vermelho e branco.Gaitas de foles tocavam "The Minstrel Boy" e os violinos e flautas se somavam ao ar de pesar. Posteriormente, Wynton Marsalis fez um solo de trompete. Bloomberg foi o mestre de cerimônias e foram feitas leituras e comentários pelos governadores George E. Pataki, de Nova York, e Jon S. Corzine, de Nova Jersey, assim como pelo ex-prefeito Rudolph W. Giuliani. Na platéia havia muitas autoridades, incluindo os senadores Hillary Rodham Clinton e Charles E. Schumer, ambos democratas por Nova York, e o procurador-geral Eliot Spitzer.

Mas grande parte do público era formado por pessoas como Marie Paprocki, 50 anos, cujo irmão, Denis Lavelle, estava no 94º andar da Torre Norte quanto o avião a atingiu e nunca foi encontrado nos escombros. "É importante para mim vir aqui porque não pudemos enterrá-lo", ela disse. "Eu me sinto perto dele aqui. Eu me sinto em paz."

A recitação dos nomes dos mortos se tornou o ponto central da cerimônia, realizada nos últimos anos pelas autoridades públicas, filhos, pais e avós. No ano passado, irmãs e irmãos leram os nomes. Neste ano foi a vez de maridos, esposas e companheiros.

A grande maioria era viúvas, esposas dos bombeiros e policiais, funcionários das empresas do setor financeiro e outros funcionários do trade center. Foi difícil para muitas, que soluçavam de emoção ao falar o nome do marido. Vozes embargavam ao invocarem os nomes de sus filhos sem pais e ofereciam palavras carinhosas, mensagens que diziam, na prática, nós amamos vocês, sentimos sua falta e nunca os esqueceremos.

A recitação dos nomes levou mais de três horas e, perante uma platéia silenciosa e enlevada, se tornou uma espécie de narrativa, uma com um forte poder literário. Ela transmitia imagens além das mortes de heróis e patriotas, discreta e implacavelmente capturando a perda de maridos e esposas de verdade, pais e mães reais, filhos e irmãos verdadeiros, tocando o coração do assunto: os amores arruinados, as esperanças esmagadas e a comoção das vidas comuns.

Durante a recitação, também ocorreram silêncios eloqüentes: às 8h46, o momento em que o Vôo 11 da American Airlines atingiu a Torre Norte e mudou tudo; às 9h04, quando o Vôo 175 da United Airlines atingiu a Torre Sul; às 9h59, quando a Torre Sul ruiu, e às 10h29, quando a Torre Norte caiu.

Enquanto os nomes dos mortos ecoavam como em oratórios, milhares de pessoas se deslocavam pelas ruas vizinhas, algumas pensativos, outras parecendo chateados, outras agindo como se estivessem em uma feira de rua 11 de Setembro. Na Liberty Street, alguém colocou um medalhão em volta no pescoço de um pássaro tropical empoleirado em uma cerca, a passos de distância de um centro recém-inaugurado para artefatos do ponto zero.

Na Church Street, dezenas de manifestantes em camisetas pretas desfilavam com cartazes e textos promovendo teorias de conspiração sobre a destruição do trade center. Algumas pessoas pregavam sobre Deus. Outra pessoa tocava um tambor. Estacionado na Cedar Street, um ônibus estava coberto por dentro e por fora com os nomes e fotos dos mortos.

Ao entardecer, nuvens se aglomeraram sobre a região e o céu se tornou uma vastidão de iridescência madrepérola. Às 19h12, ao pôr-do-sol em Nova York, uma chave foi ativada e duas poderosas colunas de luz -o "Tributo de Luz"- se ergueram em Lower Manhattan, restaurando, por mais uma noite de aniversário, as silhuetas das torres gêmeas.

*Dan Barry, Glenn Collins, Sarah Garland, Kate Hammer, Anemona Hartocollis, Kate Meyer, Michelle O'Donnell e Matthew Sweeney, em Nova York, e Sheryl Gay Stolberg, em Washington, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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