UOL Notícias Internacional
 

12/09/2006

Perto do Ponto Zero, um aniversário marcado pela normalidade

The New York Times
Patrick McGeehan e David W. Dunlap

em Nova York
Sob um céu de setembro tão azul e promissor quanto o de cinco anos atrás, milhares de trabalhadores marcharam pela Baixa Manhattan na manhã de segunda-feira, desejando apenas um dia rotineiro no escritório.

Eles avançaram lado a lado pelas estações de metrô, subindo as escadas e ao longo das calçadas em uma pressa para chegar a reuniões, atender clientes ou negociar ações. Muitos estavam determinados a não dar muita atenção à terrível história do dia, o quinto aniversário do ataque terrorista que derrubou o World Trade Center em uma avalanche de aço, vidro e pesar.

Mas, é claro, as lembranças são recentes e dolorosas demais para serem ignoradas completamente. O melhor que os trabalhadores no distrito financeiro podiam esperar era um dia agitado, pontuado constantemente pelo repicar dos sinos e apenas ocasionalmente por algum acesso emotivo.

Nos escritórios da Associação Nacional dos Corretores de Ações (Nasd), a principal reguladora do setor, uma caixa de lenços de papel estava presente no peitoril da cada janela com vista para o ponto zero. Em cada sala de reunião, a cobertura da imprensa do serviço memorial passava em grandes telas de vídeo. Mas poucos se aproximaram das janelas, os lenços permaneceram intocados e as TV sem serem assistidas.

No andar de baixo, Deborah L. Fling, uma secretária dos advogados da associação, estava encaixotando documentos de um caso concluído para serem arquivados. Ela disse que estava feliz pela tarefa estar ocupando sua atenção.

"Eu cheguei, abracei algumas pessoas e agora estou fazendo meu trabalho habitual", disse Fling, 50 anos, que mora em Tremont, no Bronx. "Nós apenas seguimos a corrente."

Annette Talt, uma executiva assistente da Nasd, disse que veio de ônibus de sua casa, em Staten Island, para seu escritório, no 48º andar no Nº 1 da Liberty Plaza, como de costume. Mas assim que olhou pela janela pela qual assistiu a torre sul queimar, suas defesas caíram.

"Eu realmente achei que nada disto me afetaria", disse Talt, 64 anos, que estava sozinha na sala executiva silenciosa quando ouviu o primeiro jato cruzar a rua. "Então simplesmente chorei."

Toda vez que um sino soava, Talt levantava a cabeça e checava seu relógio, tentando determinar seu significado.

A vários quarteirões dali, na Bolsa de Valores de Nova York, os corretores tinham menos tempo para refletir. Eles passaram a hora anterior ao sino de abertura avaliando os pedidos de compra ou venda de certas ações, como de costume.

Corretores usando telefones headset e carregando pads eletrônicos de pedidos se agitavam com a solicitação de Sean M. McCooey de checagem do interesse nas ações da Viacom, o conglomerado de mídia, e da Sasol, a empresa de energia sul-africana. Enquanto ele monitorava os pedidos que piscavam na tela eletrônica, McCooey disse que a manhã estava "normalmente calma" para uma segunda-feira de fim de verão, sem achar que os sentimentos em relação ao aniversário tivessem algum peso.

"Eu acho que as pessoas já aprenderam a lidar com isto há algum tempo",
disse McCooey, que acrescentou que todo seu pessoal chegou no horário para trabalhar. "Não precisamos fazer uma palestra a respeito para ninguém."

A atividade no pregão foi crescendo levemente até a proximidade do sino de abertura. Então, como centenas de atores em um palco, os corretores,
funcionários e diretores, todos pararam precisamente às 9h29 da manhã, para observar um minuto de silêncio antes da abertura do mercado, interrompido apenas pelo ruído suave dos aparelhos eletrônicos. Após 60 segundos, um único sino leve marcou o retorno à atividade na cidadela do capitalismo.

"O que você tem da BN?" perguntou Kenneth J. Polcari, 45 anos, de Armonk, Nova York, um corretor e diretor administrativo da Polcari/Weicker. Ele abriu caminho até o local onde ações da Banta Corp. -que seu cliente não queria vender por menos de US$ 48- estava sendo negociada por US$ 47,05. Como muitos outros que trabalham no centro, Polcari estava em uma pausa fortuita em 11 de Setembro de 2001. Convidado por colegas para um café da manhã com eles, ele deixou seu escritório no 55º andar da torre sul por volta das 8h20, menos de uma hora antes do jato colidir nela.

Após cerca de meia hora de pregão na segunda-feira, Polcari percebeu um
sentimento mais contido do que o habitual. Então ele notou que o mercado tinha caído 21 pontos.

Na metade do dia, no pregão do Deutsche Bank no Nº 60 de Wall Street,
corretores estavam comendo sanduíches e saladas nos locais de costume,
debruçados sobre teclados que controlam um trio de telas eletrônicas.
Cercados por dezenas de telas de TV transmitindo imagens dos eventos daquele outro 11 de Setembro, os corretores não podiam esquecer daquele dia enquanto gritavam pedidos por toda a sala.

"Foi uma manhã típica de segunda-feira", disse Joseph L. Ferrarese, o
corretor-chefe. "Mas a parte difícil é que se trata de um dia pessoal" que exige sensibilidade adicional, ele acrescentou.

A sede da Verizon no Nº 140 da West Street, atravessando a Vesey Street do ponto zero, foi o mais danificado dos prédios comerciais sobreviventes ao redor do local do Trade Center. Na segunda-feira, os funcionários se reuniram em um saguão art déco suntuosamente reformado para observar um minuto de silêncio às 8h46 da manhã.

Mas Carmen Bermudez, 32 anos, uma gerente de recursos humanos de Great
Kills, Staten Island, já tinha observado um momento de silêncio pessoal no 25º andar, quando chegou por volta das 6h30.

"Antes de ligar meu computador e me enterrar em trabalho", ela disse, "eu sabia que precisava dar um momento para mim mesma. E então me enterrei em trabalho". Ela passou sua manhã lendo as mensagens acumuladas após uma semana de férias.

No andar de cima, Catherine Gasteyer, 51 anos, uma gerente de assuntos
externos que mora em Riverdale, Bronx, planejava passar seu tempo nas
cerimônias do 11 de Setembro. Mas ela logo percebeu que as exigências do planejamento do serviço de fibra óptica da empresa estavam sobrecarregando sua agenda, com uma teleconferência e muitas mensagens por e-mail.

Nas ruas, entregadores entravam como carrinhos de produtos em mercearias e os vendedores buscavam vender seus produtos para homens e mulheres em ternos e tailleurs.

Em uma banca de jornal na esquina da Broadway com a John Street, Perry
Patel, de Flushing, Queens, estava atrás do balcão vendendo bilhetes de
loteria para seus clientes habituais. Patel, 35 anos, disse que chegou à banca no horário habitual, às 6 da manhã. Como de costume, ele encontrou fardos contendo 350 jornais à espera.

Patel, cuja banca fica ao lado de uma construção, notou apenas uma diferença em relação à segunda-feira passada: "Quando cheguei aqui nesta manhã, não havia tanto barulho na rua", ele disse. "Os operários com britadeiras não estavam aqui."

Steven Harris, vestindo chapéu de feltro, camisa e sapatos todos púrpuras, disse que seu ponto de engraxate no lado oeste da Broadway, perto de Pine Street, nunca mais foi o mesmo desde 11 de Setembro. Onde antes ele ganhava US$ 100 por dia, agora ele ganha US$ 35 por 12 horas
de trabalho, ele disse.

Mas apesar da queda na renda, Harris, 46 anos, disse que ele e seus
irmãos -Travis, 50, e Linwood, 51- não têm intenção de deixar o ponto que ocupam desde 1977, ao lado da cerca de ferro que envolve a Igreja da Trindade.

"Isto é o que eu faço todo dia", ele disse. "Isto é o que faço há 29 anos. E isto é o que continuarei fazendo."

*Colin Moynihan contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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