UOL Notícias Internacional
 

13/09/2006

Em cidade russa remota, uma onda de violência étnica

The New York Times
Steven Lee Myers

Kondopoga, Rússia
A animosidade étnica está tão à flor da pele na sociedade russa que quase qualquer coisa pode fazê-la ferver. Aqui nesta cidade silenciosa, na beira do lago Onego, 960 km ao norte de Moscou, a gota d'água foi uma grande briga na frente de uma boate chamada Seagull.

Dois russos haviam morrido quando a briga terminou, mas a violência acabava de começar. Suas mortes -nas mãos de homens do Azerbaijão e Tchetchênia- provocaram protestos irados e, na noite de 2 setembro, uma onda de violência na cidade, seguida de atos esporádicos de vandalismo desde então.

Multidões de jovens -movidos pelo ódio e, segundo as autoridades, pelo
álcool- queimaram a boate Seagull, de um empresário do Azerbaijão. Depois eles atacaram uma série de alvos cuidadosamente escolhidos: casas e lojas de migrantes do Cáucaso, na maior parte da Tchetchênia.

As turbas destruíram barracas do mercado a céu aberto da cidade, jogaram pedras em janelas de apartamentos, derrubaram e queimaram carros e quiosques, saquearam duas lojas e queimaram uma terceira ainda em construção.

Dezenas dos moradores da cidade, na maioria tchetchenos, mas também azerbaijanos e georgianos fugiram naquela noite. Um grupo de 49 agora estão em um acampamento turístico perto da capital regional, Petrozavodsk. Eles escaparam do que tem sido chamado de pogrom, uma perseguição endossada por muitos aqui.

"Eles precisam partir. Eles chegam de outro país e agem como reis", disse Denis Doronin, 19, que tomou parte nos protestos que levaram à violência.

A Rússia vivenciou um aumento na violência racista nos últimos anos, desde ataques e assassinatos isolados até o atentado a bomba no mercado de Moscou no mês passado, que matou 12 pessoas, na maior parte da Ásia Central; três estudantes universitários foram acusados.

Os eventos em Kondopoga, no entanto, expuseram uma espécie de conflito étnico que se estende para além de atos de neo-nazistas e skinheads, infectando a sociedade como um todo, 15 anos após o colapso da União Soviética desacreditar a harmonia forçada das muitas nacionalidades russas.

"O que aconteceu foi uma mudança de uma luta de classes para uma luta de etnias. E isso é muito perigoso", disse Viktor A. Shnirelman, antropólogo da Academia Russa de Ciências, que está escrevendo um livro sobre o racismo na Rússia.

As tensões étnicas na Rússia foram alimentadas pelo racismo latente comum entre muitos russos, que usam livremente o termo pejorativo "pretos" quando descrevem as pessoas do Cáucaso, até em conversas casuais. Também refletem uma crescente oposição política a trabalhadores migrantes, similar a movimentos na Europa e nos EUA, e as respostas indiferentes e às vezes hostis de políticos eleitos quando a violência irrompe.

A polícia em Kondopoga prendeu mais de 100 pessoas, inclusive os três acusados de assassinato na luta do bar. Mas Sergei L. Katanandov, governador de Karelia, região perto da Finlândia que inclui Kondopoga, não culpou as turbas pela violência, mas sim as pessoas atacadas.

"O comportamento de certos jovens que se mudaram do Cáucaso e outros territórios para cá nos últimos anos -não tantos, mas são visíveis- tem passado dos limites", disse ele em uma entrevista à Izvestia, na quinta-feira.

Não está claro exatamente quantas pessoas fugiram de Kondopoga com a violência, mas além dos 49 tchetchenos que estão acampados perto de Petrozavodsk acredita-se que muitos estejam com amigos e parentes.

Eles descreveram o dia 2 de setembro como um dia e uma noite de terror.
Muitos contrataram táxis e partiram depois que oradores no primeiro grande protesto na rua central de Kondopoga pediram que todos migrantes partissem nas próximas 24 horas. "A polícia não podia nos proteger", disse um deles, Adlan Taikhinneki, em entrevista no acampamento.

Os tchetchenos vieram a Kondopoga em busca de trabalho e segurança. Hamzat Magadmadov disse que se uniu à sua irmã, Tayissa, que se casara com um russo e morava na cidade, depois do início da primeira guerra na Tchetchênia, em 1994. Ele mora na cidade desde então, em geral em paz, disse ele, apesar de haver tensões sob a superfície.

"Eles mantinham todas essas tensões represadas", disse ele. "Depois de duas guerras, talvez eles não dissessem tudo, mas tudo aparecia."

Como muitos migrantes do Sul da Rússia e das ex-repúblicas soviéticas, eles encontraram trabalho no comércio, aproveitando a nova economia de mercado russa. Vários comerciantes tinham reunido seus recursos para montar uma nova loja, que agora virou carvão.

O sucesso econômico de migrantes é a raiz de muitas declarações xenofóbicas, mesmo de autoridades proeminentes. O principal político nacionalista do país, Vladimir V. Zhirnovsky, disse que os migrantes devem ser impedidos de ter mercados, lojas, hotéis, restaurantes e bares.

"As lojas e restaurantes devem estar nas mãos de moradores locais, em primeiro lugar", disse ele em entrevista na rádio depois da violência em Kondopoga. "De outra forma, confrontos com os moradores serão inevitáveis."

Opiniões desse tipo encontram ouvidos em Kondopoga, cidade de 37.000 pessoas com uma grande fábrica de polpa e papel. A cidade e seu distrito são de maioria russa, com alguns poucos finlandeses e pessoas da região de Karelia. De acordo com o último censo, em 2002, migrantes do Cáucaso são menos de 1% da população, mas se tornaram o foco das reclamações sobre crime e especialmente desigualdade econômica.

Na frente do apartamento de uma família tchetchena -que teve as janelas destruídas por pedras- uma senhora idosa, Valentina Ivanova, disse que a briga foi uma catalisadora que liberou uma raiva ampla e contida contra os recém chegados.

"Eles controlam completamente os preços do mercado", disse ela dos tchetchenos. "Eles compram todas as batatas da Karelia. As batatas são como nosso seguindo pão. Eles compram por 7 rublos e vendem por 15. Eles nem trabalham. Só especulam."

Enquanto isso, "os nossos estão desempregados", acrescentou.

Kondopoga continua tensa. Pouco danos foram reparados. As barracas do mercado estão semi-ocupadas. As famílias que fugiram continuam com medo de voltar. "Fomos refugiados de uma guerra e somos refugiados novamente", disse Taikhinnerki. "Somos culpados simplesmente por sermos tchetchenos."

E a violência continua. Na quarta-feira, um incêndio proposital danificou um centro esportivo freqüentado por crianças tchetchenas e dirigido por um técnico tchetcheno. No dia seguinte, surgiram panfletos instando os moradores a continuarem seus protestos. A mesma mensagem foi enviada para telefones celulares por membros de um grupo chamado Movimento Contra a Migração Ilegal, que participou dos protestos após a briga.

Várias centenas de pessoas se reuniram novamente em Kondopoga, na sexta-feira, mas não houve atos de violência.

Oksana N. Boganova é russa e trabalha em uma das lojas muito danificadas pela turba, Flamingo, de um proprietário azerbaijano. A loja reabriu uma semana após o ataque, agora com um segurança contratado. Ela lamenta o que aconteceu e expressou temor com o que pode vir.

"Não sei de quem temos medo", disse ela, "dos não russos ou dos russos". Deborah Weinberg

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