UOL Notícias Internacional
 

14/09/2006

Com recursos cortados, Gaza luta contra o colapso econômico

The New York Times
Steven Erlanger

em Khan Yunis, Faixa de Gaza
Desde a última semana, Zidan Abu Reziq está dormindo do lado de fora, ao lado de suas plantações em um pequeno terreno que ocupou.

Os Abu Reziqs, como muitas das grandes e destituídas famílias de refugiados neste bairro pobre caindo aos pedaços, metralhado, precisam plantar para comer. Eles pegaram o terreno e plantaram verduras e legumes, um investimento de cerca de US$ 50, grande parte do dinheiro que a Agência das Nações Unidas de Ajuda aos Refugiados palestinos (Unrwa) lhes deu para comprar uniformes escolares para os filhos.

A esposa de Zidan, Tamam, admite que seu marido de 51 anos dorme com suas plantas porque precisa proteger seu investimento do caos sem lei de Gaza, onde seu próprio pequeno roubo de terreno, 16 metros quadrados que pertencem ao governo, é minúsculo diante das enormes ocupações promovidas por gangues, famílias e milícias, que ocuparam grande parte das melhores terras que ficaram para trás quando os israelenses retiraram seus assentamentos há um ano.

É difícil exagerar o colapso econômico de Gaza, com o corte de fundos à
Autoridade Palestina por parte de Israel, Estados Unidos e União Européia após o Hamas ter vencido as eleições legislativas em 25 de janeiro.

De lá para cá, a autoridade pagou para grande parte de seus 73 mil
funcionários aqui, quase 40% da força de trabalho de Gaza, apenas 1 mês e meio de salário, resultando em uma severa depressão econômica e crescentes sinais de desnutrição, especialmente entre as crianças mais pobres.

Poucos aqui estão usando a ajuda da ONU para a escola. Mais de US$ 20 vai direto para a mercearia local, disse Tamam, para abater o crédito concedido à família, que ainda deve mais de US$ 200. Cerca de US$ 11 foram para compra de ingredientes, incluindo dois frangos, para o cuscuz que Tamam e sua filha, Fatma, 29 anos, estavam preparando pela manhã, despejando a farinha da agência de ajuda em uma grande tigela de alumínio, despejando o óleo da agência de ajuda, esfregando a farinha em uma peneira para obter a consistência certa.

O resultado alimentará 15 pessoas, disse Tamam. "Nós queremos alimentar as pessoas que nos ajudaram com o terreno", ela disse, e alguns de seus
vizinhos, que estão em situação ainda pior que a deles.

A situação em Gaza piorou ainda mais desde que militantes palestinos,
incluindo os do Hamas, mataram dois soldados israelenses e capturaram um terceiro em 25 de junho. Israel invadiu novamente Gaza e desde então matou mais de 240 palestinos, muitos deles em combates armados.

Um ataque aéreo israelense contra a única usina de força de Gaza fez com que a maioria dos habitantes da região só tenham entre sete e 12 horas de fornecimento de eletricidade por dia, em horas imprevisíveis, com o abastecimento de água em grande parte dependente de bombas elétricas.

Pescadores, impedidos de se afastarem mais que poucas centenas de metros da costa pela marinha israelense, estão lançando redes da praia para pegar sardinhas e espadilhas.

Jan Egeland, o subsecretário da ONU para assuntos humanitários, disse que Gaza é "uma bomba-relógio tiquetaqueando". A Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento alertou na terça-feira que a economia poderá encolher no próximo ano para o nível de 15 anos atrás e o desemprego poderá aumentar para mais de 50%. O Banco Mundial espera que o produto interno bruto caia em 27% neste ano.

Estas pressões forçaram o Hamas a concordar com uma proposta do presidente palestino, Mahmoud Abbas do Fatah, de um governo de unidade nacional, para permitir que Israel e o Ocidente retomem a transferência de fundos e ajuda.

Os Abu Reziqs estão esperançosos, como muitos palestinos, de que este novo governo será melhor, mas relutam em culpar o Hamas, que, segundo Zidan, "nunca teve uma chance para atuar". Ainda assim, não se sabe se este novo governo, quando houver um, será considerado como um que atende as exigências ocidentais de reconhecimento de Israel, repúdio da violência e aceitação dos acordos anteriores entre Israel e os palestinos.

O Hamas prometeu segurança em sua campanha eleitoral vitoriosa. Mas ele
fracassou nisto, disse Hamdi Shaqqura, do Centro Palestino para os Direitos Humanos. "Há caos na segurança e nenhum respeito pela lei", ele disse, e um dos principais motivos é o envolvimento da polícia e das forças de segurança, muitas delas do Fatah, na falta de lei, assim como os constantes confrontos com a milicianos e homens armados afiliados ao Hamas.

"Pessoas que supostamente deveriam proteger a lei são as pessoas que a
violam", ele disse, "e ninguém é levado à Justiça". Por este caos, ele
disse, "eu devo culpar a Autoridade Palestina", não Israel.

Tamam, 49 anos, lembra de um quase tumulto quando o gás de cozinha estava escasso e havia uma entrega de botijões. A polícia foi chamada, ela disse. "Eles pegaram os botijões para si mesmos e partiram", ela disse, dando de ombros.

Zidan, 51 anos, costumava trabalhar no assentamento israelense de Neve
Dekalim. Mas após o estouro da segunda intifada em 2000, ele não foi mais autorizado a entrar no assentamento. Agora, Zidan tem sorte em conseguir três dias por mês de trabalho em construções.

Seu filho, Muhammad, é um policial da Autoridade Palestina que deveria
receber US$ 340 por mês, mas que recebeu apenas US$ 500 desde 1º de
fevereiro. Agora, disse Fatma, "ele passa pouco tempo em casa, porque não tem um shekel no bolso e tem vergonha".

O pequeno cheque do bem-estar social que Fatma, uma mãe divorciada,
costumava receber deixou de ser pago, e o grupo de mulheres para o qual
costumava bordar acabou com a morte de sua líder.

O filho de Tamam, Suleiman, 20 anos, assiste televisão até a eletricidade acabar de repente. "Eu gostaria de ter um emprego", ele disse. "Qualquer emprego."

A ONU está ajudando no momento a alimentar 830 mil pessoas em Gaza, um
aumento de 100 mil desde março, mas para receber ajuda da agência elas
precisam ser classificadas como refugiados, que correspondem a 70% da
população de 1,4 milhão de Gaza. O aumento corresponde em grande parte a refugiados que trabalham para o governo e antes não precisavam de
assistência.

O Programa Mundial de Alimentos ajuda a alimentar os mais pobres dos
não-refugiados e agora tem 220 mil beneficiários, um aumento de 25% desde março.

"Nós temos uma deterioração completa da situação econômica em Gaza", disse Kirstie Campbell, da agência. "As pessoas não conseguem comprar as coisas básicas." Atualmente, 70% da população de Gaza depende da ONU para se alimentar.

No norte de Gaza, em Beit Lahiya, onde soldados israelenses enfrentaram
palestinos armados em julho, Atemad Abu Leilah, 33 anos, mora em um barraco com seus 11 filhos e seu marido inválido. Ele costuma receber uma pensão de US$ 68 por mês do governo, mas não recebe nada há quatro meses, ela disse.

Ela não é uma refugiada, de forma que não pode receber a ajuda e, como
muitos aqui, sobrevive com trabalhos casuais e da caridade dos vizinhos. Ela fez um gato ilegal na rede elétrica da rua para ter eletricidade.

Ela alimenta seus filhos com verduras, ervas, lentilhas e berinjela, e às vezes consegue farinha junto ao Programa Mundial de Alimentos. "Pode
esquecer a carne", ela disse.

Sua parente, Ghalia Abu Leilah, 60 anos, lhe trouxe um pote de iogurte que comprou para seu marido, que está morrendo de câncer, com o dinheiro de um vizinho.

Há um ano, quando os israelenses partiram, "nós ficamos muito felizes",
disse Atemad Abu Leilah. "Eu votei no Hamas por reforma, mudança e melhoria. Mas agora olho para meus filhos e me arrependo do meu voto."

Perto dali, bancas vendem farinha e óleo de girassol distribuído pela ONU, a maioria marcado como doação e rotulado como "venda proibida". Iyad Baaker, que trabalha em uma banca, disse que as pessoas precisam de dinheiro, de forma que vendem a ajuda.

Em Khan Yunis, Fatma Abu Reziq parecia distraída e triste quando se esquivou de uma pergunta sobre sua filha, Aya, de 9 anos. Posteriormente, ela explicou.

Há uma semana, seu ex-marido levou Aya embora. Ele disse que era mais fácil alimentar Aya ele mesmo do que encontrar dinheiro para a pensão. George El Khouri Andolfato

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