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14/09/2006

Movimento para permitir que gays sirvam no Exército abertamente é renovado

The New York Times
Lizette Alvarez

Madison, Wisconsin
Três rapazes que tentaram se alistar pareciam material militar de primeira categoria. Dois eram alunos universitários, e o terceiro tinha terceiro grau completo. Não tinham histórico criminal; estavam em boa forma física e dispostos a servir. Isso tudo enquanto guerras em duas frentes sobrecarregam as tropas americanas e a necessidade de recrutas qualificados é grande.

Mas o recrutador foi forçado a enviá-los de volta, por uma razão: eram homossexuais e não estavam dispostos a esconder isso.

"Não me julgue por minha sexualidade", disse um dos três, Justin Hager, 20, que se diz republicano de uma família militar que tem um "desejo de servir" as forças armadas. "Julgue-me pela minha personalidade e empolgação."

Enquanto a busca por recrutas pelo Pentágono se torna mais urgente, grupos de direitos de gays estão fazendo a maior pressão em quase uma década para anular a medida chamada de "não pergunte, não diga", tornada lei em 1993, que impede homossexuais declarados de servirem o Exército. A política, baseada em uma crença que a homossexualidade aberta danifica a moral e a coesão da unidade, estipula que os homossexuais devem servir em silêncio e evitar atividade homossexual, e que recrutadores e comandantes não devem perguntar a orientação sexual de seus homens na ausência de evidências convincentes de atos homossexuais.

A pressão pela revogação segue anos de fracassos legais e de discórdia entre grupos de direitos de gays sobre como abordar a questão. Agora, em vez de contar com a justiça, os defensores da idéia estão se concentrando em angariar apoio em cidades do país, chamando atenção para histórias pessoais de ex-membros gays das forças armadas e promovendo um projeto de lei democrata na Câmara que acabaria com a política excludente.

Em agosto, o grupo de direitos gays Soulforce inaugurou uma campanha nacional recrutando pessoas declaradamente homossexuais, como os três jovens em Madison, que teriam se alistado se não fosse pela medida "não pergunte, não diga".

Como parte dessa campanha, dois jovens que foram rejeitados na terça-feira (12/9) em um centro de recrutamento em Chicago voltaram lá na quarta-feira e fizeram um protesto. Eles foram presos e depois liberados sem acusações.

O movimento para mudar a política enfrenta dura resistência do Pentágono e de republicanos no Congresso que, em um duro ano de eleições durante uma guerra, não desejam mais um debate contencioso sobre soldados gays. A medida da Câmara, introduzida no ano passado pelo deputado Martin T. Meehan, democrata de Massachusetts, conquistou 119 defensores, mas apenas cinco deles republicanos.

"No curto prazo, tem zero de chance. É difícil imaginar como uma pessoa ia querer dar aos possíveis opositores qualquer munição para derrubá-los", disse Daniel Goure, vice-presidente do Lexington Institute, de centro.

Um relatório de 2004 do Urban Institute concluiu que ao menos 60.000 homossexuais estavam nas forças armadas, incluindo reservas e Guarda Nacional. Mas desde 1993, ao menos 11.000 membros foram dispensados por serem abertamente homossexuais, entre eles 800 que faziam serviços cruciais, de acordo com um braço investigativo do Congresso.

Por tudo isso, grupos de direitos de homossexuais, veteranos e alguns analistas dizem que muito mudou desde que a política foi adotada. Uma pesquisa do Gallup de 2004 revelou que 63% dos entrevistados defendiam permitir gays declarados no serviço militar; outra pesquisa similar neste ano, do Pew Research Center, encontrou 60%. Essas maiorias não existiam em 1993. Hoje, os jovens em particular têm opiniões mais tolerantes sobre a homossexualidade.

Além disso, 24 exércitos no exterior, incluindo Reino Unido e Israel, integraram gays declarados em suas fileiras sem grande impacto na eficácia ou no recrutamento. No Reino Unido, onde os militares foram inicialmente forçados a aceitar recrutas gays pela Corte Européia de Direitos Humanos, parceiros gays atualmente têm benefícios plenos e a Marinha Real procurou um grupo de direitos de gays para ajudar a recrutar marinheiros.

O novo debate sobre a política de "não pergunte, não diga" também coincide com a grande necessidade de recrutas nas forças armadas, que levou à redução dos padrões e permitiu a entrada de jovens que largaram o colégio e alguns criminosos.

"Você prefere ter um soldado criminoso a um gay? Eu não", disse o capitão Scott Stanford, comandante heterossexual da Guarda Nacional que dirige uma companhia que voltou do Iraque em junho.

O general Dainel W. Christman, aposentado, ex-superintendente de West Point e assistente do diretor das Forças Armadas, disse que a experiência britânica e a mudança de atitude em casa causarão mudanças nas forças armadas americanas, mas que serão lentas.

"Está claro que a postura nacional em relação a essa questão evoluiu consideravelmente na última década", disse Christman, hoje vice-presidente da Câmara de Comércio dos EUA. "Há uma nova geração em serviço que tem uma opinião mais relaxada e tolerante em relação à homossexualidade. Isso não significa que vamos passar tão cedo a uma política ao estilo britânica de 'não pergunte, comporte-se'. Mas acho que é inevitável que eventualmente a política assuma as linhas atualmente utilizadas pelos militares britânicos."

De fato, um número crescente de gays nas forças armadas diz que menos soldados heterossexuais estão criando problema com a homossexualidade. Em alguns casos, dizem, os comandantes fazem vista grossa quando alguém é suspeito de ser gay, especialmente se esse membro é valioso. Depois do início da guerra no Afeganistão, em 2001, a dispensa de membros gays caiu 40%.

"As pessoas realmente estão acostumadas com a questão", disse Tim Smith, ex-Marine que foi dispensado no ano passado, depois que um capelão civil alertou seu comandante sobre a homossexualidade de Smith.

Smith, que era casado quando entrou para o Marine Corps em 2001, disse que espera acabar com o estereótipo de homem gay "promíscuo, da noite, que dança nas ruas", contando sua história e compartilhando a reação que a revelação de sua orientação gerou. Essa reação foi em grande parte favorável. No final, disse ele, seu comandante até enviou uma carta ao comandante geral dizendo que seria impossível substituí-lo.

Do outro lado da linha divisória, Elaine Donnelly, presidente do grupo conservador Centro de Preparação Militar, disse que permitir que gays e lésbicas declarados prestassem serviço ia causar uma queda nos índices de recrutamento e romper a coesão das unidades, um fator que pesou na decisão de permitir que soldados homossexuais servissem apenas em silêncio.

"Os militares vivem em condições de pouca ou nenhuma privacidade", disse Donnelly, que defende total proibição de gays nas tropas. "Em condições de intimidade forçada, as pessoas não deveriam ter que se expor a outras pessoas sexualmente atraídas a elas."

Além disso, a medida dá a soldados infelizes, hetero ou homo, uma porta de saída de seu compromisso com o serviço militar. Cerca de 85% dos dispensados sob a medida declararam sua orientação sexual, de acordo com a Rede de Defesa Legal aos Membros do Serviço, um grupo vigilante de direitos dos gays. Quase metade deles tinham exposto a informação para serem dispensados.

"A medida permite que as pessoas saiam sem prejuízo", disse Aaron Belkin, diretor do Centro de Estudos de Minorias Sexuais nas Forças Armadas, um grupo de pesquisa da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, que se alinhou com o esforço de anular a política de "não pergunte, não diga".

Hager, o jovem rejeitado pelo centro de recrutamento em agosto junto com John Alaniz, 25 e Derek House, 19, tinha esperado esse resultado. Ele entrou para a campanha da Soulforce, disse ele, para marcar posição.

Ele tinha tentando se alistar na Marinha quando ainda estava no colégio e sua orientação sexual ainda estava escondida e tirara notas altas em seu teste de aptidão. Seu pai serviu no Vietnã e seu avô, sobrevivente de campo de concentração, tinha instilado nele uma vontade de proteger os EUA. Mas um tornozelo quebrado destruiu seus planos na época.

Agora, foram suas palavras que o excluíram.

"Sou abertamente homossexual", disse ele, "e essa oportunidade não existirá para mim". Deborah Weinberg

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