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14/09/2006

Quem é esse Dylan, emprestando frases do poeta confederado?

The New York Times
Motoko Rich
Talvez você nunca tenha ouvido falar de Henry Timrod, conhecido como poeta laureado da Confederação. Mas pode ter ouvido suas palavras, você se for uma das 320.000 pessoas até agora que compraram o mais recente disco de Bob Dylan "Modern Times", lançado na semana passada e que chegou ao primeiro lugar da Billboard.

Parece que muitas das letras do disco, o primeiro álbum de Dylan em 30 anos (que caiu para 3º lugar nesta semana) tem fortes ecos dos poemas de Timrod, nativo de Charleston, na Carolina do Sul, que escreveu poemas sobre a Guerra Civil e morreu em 1867, aos 39 anos.

"More frailer than the flowers, these precious hours" (Mais frágil que as flores, essas horas preciosas), canta Dylan de 65 anos em "When the Deal Goes Down", uma das canções de "Modern Times". Compare isso com as linhas de Timrod em "Rhapsody of a Southern Winter Night":

"Uma rodada de horas preciosas

Ó! Aqui, onde naquela tarde de verão eu me regozijei

E lutei, com uma lógica mais frágil que as flores."

"Sem dúvida, houve alguns empréstimos", disse quando viu as letras de Dylan Walter Brian Cisco, que escreveu uma biografia de Timrod em 2004. Cisco disse que ao menos seis outras frases da poesia de Timrod aparecem nas canções de Dylan. Mas Cisco não pareceu particularmente chateado com isso. "Fico feliz que Timrod esteja recebendo algum reconhecimento", disse ele.

Henry Timrod nasceu em 1828 e foi tutor privado em fazendas antes da Guerra Civil. Ele tentou se alistar no exército Confederado, mas não pode servir no campo porque sofria de tuberculose. Então, trabalhou como editor de um jornal em Columbia, Carolina do Sul, e começou a escrever poemas sobre a guerra e como ela afetou os habitantes do Sul. Ele também escreveu poemas de amor e ruminações sobre a natureza.

Durante sua vida, Timrod publicou apenas um volume de poesia. Entre seus mais famosos poemas havia "Ode Sung on the Occasion of Decorating the Graves of the Confederate Dead at Magnolia Cemetery, Charleston, South Carolina 1866" e "Ethnogenesis". Cisco disse que não encontrou frases desses poemas nas letras de Dylan.

Dylan não admite dever nada a Timrod em "Modern Times". Os créditos simplesmente dizem "Todas as músicas de Bob Dylan" (apesar de alguns fãs observarem on-line que o título do disco contém letras do último nome de Timrod).

Ele também não dá crédito às canções tradicionais de blues das quais ele tomou os títulos, as melodias e algumas letras para "Rollin' and Tumblin'" e "Nettie Moore".

Esta não é a primeira vez que os fãs encontram similaridades impressionantes entre as letras de Dylan e as palavras de outros autores. Em seu último disco, "Love and Theft", um fã percebeu uma dúzia de passagens similares a frases de "Confessions of a Yakuza", um romance de gangster escrito por Junichi Saga, autor japonês obscuro. Outros fãs chamaram atenção para várias referências a frases de diálogos de filmes e dramas que aparecem na obra de Dylan. Exemplo: "Love Is Just a Four-Letter Word" é semelhante a uma frase de "Gato em teto de Zinco Quente".

Scott Warmuth, DJ em Albuquerque, Novo México, e ex-diretor de música da estação de rádio Wusb em Stony Brook, N.Y., descobriu as similaridades entre as letras de Dylan e a poesia de Timrod fazendo buscas cuidadosas no Google. Warmuth disse que não ficou surpreso em descobrir que Dylan tinha usado uma forte influência para escrever suas letras.

"Acho que ele sempre escreveu assim", disse ele. "Faz parte do processo folk, mesmo olhando de seu primeiro disco até hoje."

Warmuth observou que Dylan pode ter usado uma frase de Timrod em "Cross the Green Mountain" uma canção que escreveu para a trilha do filme "Gods and Generals" que estreou há três anos. Warmuth disse que também parecia haver passagens de Timrod em "Tweedle Dee and Tweedle Dum", uma música de "Love and Theft".

Dylan há muito se interessa pela Guerra Civil: em "Chronicles: Vol. 1", autobiografia de Dylan publicada pela Simon & Schuster em 2004, ele conta como passava seu tempo na Biblioteca Pública de Nova York lendo microfilmes de jornais publicados de 1855 a 1865. "Enchi minha cabeça o máximo que pude com essas coisas e tranquei-as na minha mente, fora da vista, em paz", escreveu Dylan.

Para Warmuth, que encontrou 10 frases ecoando a poesia de Timrod em "Modern Times", o trabalho de Dylan ainda é original. "Você pode dar as obras completas de Henry Timrod a um monte de pessoas, mas nenhuma vai criar as músicas de Bob Dylan", disse ele.

Dylan não foi encontrado para comentários. A porta-voz da Columbia Records, selo de Dylan e divisão da Sony BMG Music Entertainment, não retornou chamadas para comentários.

Como Timrod morreu há muito tempo, e seu trabalho não tem direitos reservados -seus poemas completos estão disponíveis na Internet- não haveria possibilidade de acusações legais contra Dylan.

Mas alguns fãs se incomodam com a ética nos empréstimos de Dylan. "Bob realmente é um ladrãozinho", escreveu um membro da Dylan Pool, sala de bate papo onde Warmuth divulgou suas descobertas. "Se fosse qualquer outro, estaria pendurado pelo pescoço, mas não, é Bobby Dee, e o 'processo folk'".

Autores pegos copiando de outros foram acusados de plágio. No início deste ano, Kaavya Viswanathan, alunoa de Harvard que escreveu seu primeiro romance, "How Opal Mehta Got Kissed, Got Wild and Got a Life", foi atacada quando leitores descobriram que muitas passagens no livro eram copiadas quase exatamente de "Sloppy Firsts" e "Second Helpings", romances de Megan McCafferty. O editor de Viswanathan, Little, Brown, retirou o livro das prateleiras e o autor foi desgraçado pela imprensa.

Críticos e fãs de Dylan há muito descrevem suas tendências colecionadoras, vendo-as como manifestação de seu gênio, nada diferente de outros grandes autores e poetas como T.S. Eliot ou James Joyce, que usaram trabalhos passados como referência.

Christopher Ricks, professor de ciências humanas da Universidade de Boston que escreveu "Dylan's Visions of Sin", um estudo enaltecedor do músico, disse: "Talvez eu seja parcial, mas acho que é característico de grandes artistas e músicos usarem seus predecessores". Ele acrescentou que era incomum músicos populares admitirem suas influências.

Ricks disse que um fator importante para distinguir entre o plágio e a citação, comum entre poetas e compositores, é que o "plágio não quer que o público conheça o original, enquanto a alusão quer".

"Quando Eliot diz: 'No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be' (não! Eu não sou o príncipe Hamlet e nem deveria ser), com o final terminando em 'to be', quando a frase mais famosa de Hamlet é 'to be or not to be', é intenção e graça do poema a pessoa reconhecer" a citação, disse ele. Mas acrescentou: "Não sei se Dylan está fazendo alusão a Timrod. Não acho que as pessoas podem dizer que devemos saber que aquilo é Timrod."

É exatamente isso que incomoda Chris Dineen, professor de espanhol e fã casual de Dylan em Albuquerque. "Parece haver duplicidade", disse ele. "Até mesmo os fãs casuais sabem que Dylan costuma fazer isso, e que é parte do que o torna grande, mas desta vez é diferente. Este poeta é usado várias vezes."

Dineen disse que ficaria contente se Dylan tivesse ao menos dado crédito a Timrod pelas frases. "Talvez por eu ser professor. Se ele fizesse isso em um projeto de pesquisa acadêmica, ele estaria enrascado."

Mas James Kibler, professor de inglês da Universidade de Geórgia que ensina poesia de Timrod no curso de literatura do Sul, ficou deliciado em saber do uso dos versos por Dylan. "Se eu fosse Timrod, adoraria", disse ele. "Eu diria que está prestando grande homenagem a Timrod, e vamos celebrar isso."

Kibler disse que planejava compartilhar as referências de Dylan com suas turmas porque seus alunos "provavelmente saberão mais sobre Bob Dylan do que sobre Timrod". Deborah Weinberg

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