UOL Notícias Internacional
 

15/09/2006

"A Dália Negra": em uma Los Angeles noir, um assassinato lúrido

The New York Times
Manohla Dargis
A união de Brian de Palma com o assassinato da "Dália Negra" deveria resultar em um casamento feito nos céus para o cinema, ou talvez, no inferno. Mestre do horror moderno, Palma leva jeito para a loucura da violência, especificamente quando esta atinge o corpo feminino, o que o torna um diretor aparentemente perfeito para este crime espetacularmente cruel.

Seus melhores filmes são maravilhas do virtuosismo, dando vida aos prazeres contraditórios do cinema. Corre sangue por seu trabalho, mas também vida suculenta. Em "A Dália Negra", porém, essa vida escorreu como o sangue que saiu do corpo da vítima.

No dia 15 de janeiro de 1947, uma mulher empurrando um carrinho de bebê viu o que pensou ser um manequim caído em um terreno baldio no Sul de Los Angeles. Aquela figura branca como cera era o corpo cuidadosamente cortado de uma mulher de 22 anos, Elizabeth Short. Betty, como era chamada, tinha se mudado de Massachusetts para a Califórnia em busca de trabalho e do pai ausente. O que ela encontrou foi um clima agradável e muitos homens que esperavam mais do que sorrisos em troca de uma refeição quente. Ela ficou sem dinheiro e irrequieta e passou a vestir roupas pretas, por isso o apelido que mais tarde ficou marcado nas manchetes de jornal.

Betty Short (Mia Kirshner), ou ao menos uma idéia dela, aparece brevemente em "A Dália Negra". Como no romance de James Ellroy no qual se baseia, o filme na maior parte gira em torno dos altos e baixos violentos de dois detetives do caso, Bucky Bleichert (Josh Hartnett) e Lee Blanchard (Aaron Eckhart). No ringue de boxe eles são chamados de Sr. Gelo e Sr. Fogo, respectivamente, por seus temperamentos totalmente distintos. (Se fossemos tomar como base suas interpretações, Murcho e Exagerado seria mais adequado). Quando não caçam pistas, Bucky e Lee parecem brincar de casinha com a amiga de Lee, Kay (Scarlett Johansson), uma loura rica com uma risada rouca e cicatrizes de batalha.

"A Dália Negra" é o primeiro romance da série "L.A. Quartet", de Ellroy, que começa no início dos anos 40 e termina quase uma década mais tarde. Ele o dedica a sua mãe, Geneva. O autor tinha apenas 10 anos quando ela foi assassinada, e seu corpo jogado, como o de Betty Short, no acostamento de uma estrada como se fosse lixo. O caso do assassinato não resolvido de sua mãe o perseguiu, e gerou um interesse obsessivo por Betty Short.

Como os outros livros do quarteto -incluindo "L.A. Confidential", filmado em 1997 por Curtis Hanson- "A Dália Negra" é enérgico, levado por sua obsessão e ira. Há loucura neste livro: dá a sensação de que foi escrito por um homem possuído.

Palma pode ser um diretor de loucura criativa impressionante, mas há pouca insanidade neste filme contido e estranho.

Com a exceção de Hilary Swank, que faz o papel de uma degenerada esquiva chamada Madeleine Linscott, os principais atores são desastrosos. Johansson e Eckhart precisam muito da ajuda de seus diretores, o tipo de ajuda que Brian de Palma, como indicam os desempenhos desiguais em seus filmes, não pode dar. Eckhart exagera nos movimentos, confundindo paixão com volume, e convida a uma comparação lastimável com Russell Crowe ensandecido em "L.A. Confidential". Johansson tenta dar personalidade ao personagem com um cigarro; Hartnett, que faz a narrativa, afunda na superficialidade de sua interpretação.

Somente Swank, que coloca um pouco de Katharine Hepburn em sua voz e igual convicção no resto de seu desempenho, cumpre o serviço. Sua personagem, uma riquinha de Raymond Chandler ao estilo de Ellroy, mora com sua família maluca em uma daquelas mansões que serve de tumba para seus moradores e é um monumento as suas ambições. Há um cachorro empalhado na entrada (resultado do entusiasmo infeliz de papai), levas de serviçais silenciosos na sala e um odor permanente de podridão. Palma obviamente gosta de passar tempo com sua raça decadente, cujos demônios parecem tão sintomáticos da cidade que chama de lar e cujas patologias se provam loucamente divertidas.

Apesar de estar à vontade entre os Linscott, o diretor fica inconfortável com os outros. Seu melhor trabalho aqui, que notavelmente não envolve os atores principais, é uma cena fantástica que começa no nível da rua e passa pelo telhado de um prédio onde alguns corvos estão piando assustadoramente.

Atrás do prédio, na próxima quadra, uma mulher com um carro de bebê pára para olhar algo em um terreno baldio, antes de sair correndo gritando. Isso é bravura no cinema, que faz lembrar alguns outros grandes floreios do diretor, em que você percebe a artificialidade consciente da imagem (você quase sente o diretor por perto) e ao mesmo tempo fica refém de seu impacto emocional.

A capacidade de atrair você para a história enquanto ao mesmo tempo lhe faz ter consciência de que está vendo um filme é um importante elemento de alguns de seus trabalhos mais bem sucedidos. Isso ajuda a explicar porque ele é melhor quando lida com os limites estritos do gênero do que quando está testando a realidade dura, como fez no drama lúgubre do Vietnã "Pecados de Guerra". A realidade também pesa em "A Dália Negra".

Betty Short era uma mulher de verdade, que foi lenta e brutalmente torturada até a morte, e cujo assassino tentou desumanizá-la fazendo dela um objeto. Sua história talvez tenha as características de uma grande ficção sensacionalista, mas não há nada de cinematograficamente divertido ou vulgar.

A mulher assassinada simplesmente não inspirou a criatividade sem limites de Brian de Palma como fez a Ellroy. Isso dito, há vislumbres de outro filme nas cenas curtas com Betty Short. Durante a investigação, surgem algumas gravações de testes para atores. Ela aparece como Kirshner, vestindo meias rasgadas e maquiagem borrada e faz a leitura do papel olhando para a câmera com seus olhos claros e assombrados. Você vê necessidade e desespero e entende porque uma jovem assustada sem recursos, a não ser sua beleza, teria confiado em um corpo cuja vulnerabilidade a trairia. De vez em quando, uma voz masculina faz uma pergunta a Betty, provocando-a até ela engatinhar para a câmera como em um sacrifício.

E o homem por trás da voz? Brian de Palma, é claro.

Ficha técnica:

"A Dália Negra"


Dirigido por Brian de Palma; escrito por Josh Friedman, baseado no romance de James Ellroy; diretor de fotografia, Vilmos Zsigmond; editado por Bill Pankow; música de Mark Isham; direção de arte, Dante Ferretti; produzido por Art Linson, Avi Lerner, Moshe Diamant e Rudy Cohen. Estúdio Universal Pictures. Duração: 119 minutos

Com: Josh Hartnett (Bucky Bleichert), Scarlett Johansson (Kay Lake), Aaron Eckhart (Lee Blanchard), Hilary Swank (Madeleine Linscott), Mia Kirshner (Elizabeth Short), Mike Starr (Russ Millard) e Fiona Shaw (Ramona Linscott) Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host