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15/09/2006

Califórnia tenta colocar sonhos de energia limpa em prática

The New York Times
Felicity Barringer

em Sacramento, Califórnia
Nos Estados das Montanhas Rochosas e no deserto do Sudoeste que está crescendo rapidamente, mais de 20 usinas de força, projetadas para queimar carvão que é abundante e barato, estão nas pranchetas de desenho. Grande parte da energia, seus proprietários esperam, será destina à população da Califórnia.

Mas tais usinas também estariam entre as maiores produtoras de dióxido de carbono, o rei dos gases ligados ao aquecimento global. Assim, a Califórnia acabou de transmitir uma nova mensagens a estes fornecedores de energia: se não puderem produzir energia com a menor emissão possível destes gases responsáveis pelo efeito estufa, nós não estamos interessados.

"Quando seu maior cliente diz: 'Não vou comprar', você repensa", disse Hal Harvey, o diretor do programa ambiental da Fundação William e Flora Hewlett, em Menlo Park, Califórnia. "Quando você tem 38 milhões de consumidores aos quais não tem acesso, você repensa. Vender para Phoenix é bom. Las Vegas é bom. Mas não são a Califórnia."

A decisão da Califórnia de impor exigências severas a fornecedores mesmo além de sua divisa, ampliadas pelo Legislativo em 31 de agosto e aguardando serem sancionadas pelo governador, é apenas um exemplo do grande esforço do Estado para mudar seu futuro em energia.

O Legislativo controlado pelos democratas e o governador republicano também concordaram na época em uma legislação para reduzir as emissões industriais de dióxido de carbono em 25% até 2020, uma medida que afetará não apenas as usinas de força, mas também outros grandes produtores de dióxido de carbono, como as refinarias de petróleo e as fábricas de cimento.

A meta do Estado é reduzir as emissões dos gases responsáveis pela mudança climática, produzidos pela queima de carvão, petróleo e gás. Outros Estados, particularmente Nova York, estão seguindo em algumas das mesmas direções, mas nenhum Estado está atuando tão agressivamente em tantas frentes. Nenhum Estado faz isto há mais tempo. Nenhum Estado está colocando mais em risco.

Se tudo isto é visionário ou loucura depende do ponto de vista. Este é um Estado que no início dos anos 70 deu início à adoção mundial de catalisadores, os dispositivos que neutralizam grande parte dos produtos químicos emitidos pelos escapamentos e que formam as nuvens de poluição sobre as cidades. Este é o Estado cujo consumo per capita de energia tem se mantido quase estável por 30 anos, apesar do consumo per capita ter aumentado 50% nacionalmente.

Enfrentar o aquecimento global é um duro desafio. Apesar da Califórnia só perder no país para o Texas em emissões de dióxido de carbono em 2001, e estar em 12º lugar no mundo, o Estado produziu apenas 2,5% do total mundial. Na melhor das hipóteses, perguntaram líderes empresariais em uma audiência legislativa, que diferença fariam os cortes da Califórnia? E a que custo?

A Califórnia, na verdade, está fazendo uma alta aposta: a de que pode reduzir as emissões sem prejudicar sua economia, inspirando assim outros Estados -e países- a seguir seu exemplo na desaceleração da mudança climática.

Iniciativas voltadas à mudança do clima estão por toda a parte na Califórnia, promovidas por legisladores, reguladores, cidades, fundações, empresas e por investidores.

Há quatro anos, a Califórnia se tornou o primeiro Estado a regulamentar as emissões de dióxido de carbono dos escapamentos dos automóveis.
Concessionárias e montadoras estão contestando a lei na Justiça Federal.

No final de agosto, o governador Arnold Schwarzenegger sancionou uma medida que exige que as construtoras ofereçam casas com telhados com placas de energia solar. Proprietários de imóveis em algumas comunidades já optaram por elas para redução de suas contas de luz.

A Califórnia, que há décadas exige que refrigeradores, aparelhos de ar
condicionado, aquecedores de água e outros aparelhos sejam mais eficientes em energia, acaba de acrescentar itens à lista: primeiro, carregadores para celulares ou computadores; segundo, receptores de TV a cabo e outros aparelhos por controle remoto. Estas categorias consomem até 10% da energia de um lar.

No final do ano passado, os reguladores da Califórnia barraram grandes
empresas privadas de geração de energia de assinarem contratos de longo
prazo para compra de energia, a menos que as emissões de gases do efeito estufa pelo vendedor atendam a uma meta rígida.

"Nós estamos lidando com isto em todas as áreas", disse Michael R. Peevey, o presidente democrata da Comissões de Prestadoras de Serviços Públicos. Em comparação, o governo Bush tem aversão a qualquer medida legislativa voltada à mudança climática.

Os oponentes dizem que a Califórnia provavelmente prejudicará sua própria população com sua exigência de energia limpa. Scott Segal, um advogado da Bracewell & Giuliani que representa as empresas geradoras de energia, resumiu a política da Califórnia como sendo: "Todos os elétrons não são criados iguais. Nós vamos discriminar alguns deles e criar barreiras artificiais no mercado para a eletricidade". Os consumidores da Califórnia poderão acabar pagando bem mais caro por sua energia e às vezes tendo dificuldade para encontrar o suficiente, disse Segal.

Mas uma coisa é certa: a questão não desaparecerá. Neste ano, uma onda de calor brutal na Califórnia matou aproximadamente 140 pessoas. Um relatório de 2004 da Academia Nacional de Ciências previu que, na taxa atual de crescimento das emissões, haverá pelo menos cinco vezes mais ondas de calor em Los Angeles em 2100 em comparação à atual média histórica, e duas vezes mais mortes provocadas pelo calor.

O estudo previu que pelo menos metade das florestas alpinas do Estado
desaparecerá até o final do século, e que a cobertura de neve de
Sierra -crucial para o abastecimento de água da Califórnia- cairá entre um mínimo de 29% e um máximo de 70%.

Parece haver apoio político, tanto na Califórnia quanto nacionalmente, para uma ação voltada à mudança climática. No Estado, uma pesquisa de 26 de julho do Instituto de Política Pública da Califórnia mostrou que 79% das 2.051 pessoas entrevistadas disseram que o aquecimento global é uma ameaça "muito séria" ou "mais ou menos séria" à economia do Estado e à qualidade de vida. Os resultados espelham os de uma pesquisa nacional envolvendo 1.206 entrevistados, realizada em meados de agosto pelo The New York Times e CBS News.

Mas as organizações de pesquisa não têm perguntado sobre os sacrifícios
potencialmente dolorosos que poderão ser necessários.

Empresas e investidores da Califórnia, públicos e privados, estão entrando em ação. O enorme fundo de pensão do Estado, o Calpers, está destinando pouco menos de US$ 1 bilhão à investimentos em energia renovável. Entre os primeiros empreendimentos com incentivos em energia solar estão as casas em Carsten Crossings, uma subdivisão de Rocklin, um subúrbio de Sacramento. Em agosto, Schwarzenegger sancionou uma legislação que torna painéis solares uma opção padrão para os compradores de casas novas até 2012 e que garante que as companhias de luz reduzirão as contas dos proprietários com base na eletricidade que retornar à rede.

Alguns destes incentivos estavam disponíveis quando a construção teve
início. Agora, quatro famílias já se mudaram. Elas se consideram
pragmáticas, não cruzados. "Este é o próximo passo lógico" em construção, disse um dos proprietários, o tenente coronel Thomas Sebens, um especialista em aeronaves não-tripuladas da Base Beale da Força Aérea.

As placas acabaram nas casas construídas pelo Grupe Homes, com sede em
Stockton, porque os reguladores de serviços públicos do Estado estabeleceram um incentivo fiscal de US$ 5.500 bancado pelo Estado para as construtoras que instalassem sistemas semelhantes, que custam US$ 20 mil. A lei federal dá aos compradores de imóveis uma dedução de impostos de US$ 2 mil; a lei estadual garante contas de luz mais baixas à medida que as empresas recomprem a energia não utilizada pelos proprietários de imóveis.

As contas de julho, as primeiras dos novos moradores, foram o assunto da vizinhança.

Larry Brittain, um vendedor de materiais para escritório com um casa de 220 metros quadrados e quatro quartos, foi o vencedor com US$ 73,27 para o mês encerrado em 25 de julho -o julho mais quente já registrado. Pelos últimos 10 dias de junho que passou em uma casa semelhante, próxima dali, sua conta foi de US$ 103.

"Isto significa apostar com uma mão vitoriosa", disse Brittain. "Você não tem como perder."

A Califórnia também é o Estado onde a desregulamentação do setor elétrico fracassou em 2000; as contas aumentaram e uma crise econômica se seguiu. Mesmo sem uma crise, a tarifa paga pelos californianos é cerca de 40% mais alta do que a média nacional.

Robert McIlvaine, um consultor da indústria de carvão de Northfield,
Illinois, disse: "Se você vai gerar eletricidade a partir do gás, o custo de fazê-lo será consideravelmente maior do que a partir do carvão -50% ou 100% maior". Mas, disse Harvey, "as pessoas não pagam tarifas, elas pagam contas. Você pode ter uma tarifa duas vezes mais cara só que metade do consumo, de forma que ficará igualmente feliz".

Talvez a medida mais ambiciosa adotada pela Califórnia seja a
obrigatoriedade de redução de 25% nas emissões de dióxido de carbono. "Se fizermos isto direito", disse Schwarzenegger em uma coletiva de imprensa, "poderá ser um exemplo para o resto do mundo e para o resto do país". Caso contrário, o conceito poderá ficar desacreditado.

A lei dá para o Conselho de Recursos do Ar da Califórnia autoridade para estabelecer metas setoriais específicas para redução de emissões, a partir de 2012, e estabelecer mecanismos -incluindo a criação de permissões de emissões que as empresas poderiam negociar- para facilitar o cumprimento. Estas metas seriam ajustadas de 2012 a 2020 para atender a meta de 25%.

Aqueles que estudaram o assunto concordam que o novo sistema custará mais para os consumidores. "Um sistema de teto e troca elevará em algum grau o custo da eletricidade para os consumidores", disse Lawrence H. Goulder, um professor de economia ambiental e recursos da Universidade de Stanford.

Como a União Européia descobriu após o Protocolo de Kyoto de 1997, encontrar uma forma de transferir créditos de emissões não é fácil.

Independente de quais sejam as emissões, as chances são de que serão
contestadas na Justiça. Margo Thorning, a economista chefe do Conselho
Americano para a Formação de Capital, um grupo que apóia os interesses
empresariais, argumentou em um estudo que "cortes profundos no uso de
energia pela Califórnia seriam necessários para fechar a diferença de 41% em 2020 entre as emissões projetadas" e as reduções exigidas por lei. Thorning acrescentou em uma entrevista: "As tecnologias que nos permitirão abandonar de forma rápida e custo eficaz os combustíveis fósseis ainda não existem".

Allan Zaremberg, o presidente da Câmara de Comércio do Estado, previu que as empresas fugirão para áreas não reguladas e continuarão emitindo gases responsáveis pela mudança do clima.

O estudo de Thorning foi contestado em meados de agosto pelo estudo de David Roland-Holst, um professor adjunto de agricultura e economia de recursos da Universidade da Califórnia, em Berkeley. O professor Roland-Holst argumentou que a nova lei poderá adicionar US$ 60 bilhões e 17 mil empregos -em áreas como energia alternativa- à economia da Califórnia até 2020 ao atrair novos investimentos.

Roland-Holst, o chefe dos programas de aquecimento global do Estado para a Defesa Ambiental, o grupo de Nova York que ajudou a liderar a batalha a favor do novo teto de emissões de carbono da Califórnia, disse: "Daqui 10 anos nós olharemos para trás e diremos que este foi o avanço final e o consenso político final de que precisamos fazer algo significativo em relação ao aquecimento global". George El Khouri Andolfato

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