UOL Notícias Internacional
 

16/09/2006

Cessar-fogo se depara com miragem em fronteira que desaparece à medida que se aproxima

The New York Times
Craig S. Smith

em Hawsh Beit Ismail, Líbano
Não há cerca, nenhuma marcação, nenhum senso de fronteira em amplos trechos de terra aberta e montanhas escarpadas que ficam entre o Líbano e a Síria.

Um grande bloco de concreto impede os carros de atravessarem uma pequena ponte sobre um estreito canal de irrigação daqui, além da qual se encontra uma guarita de blocos vazados de concreto com uma bandeira da Síria. Mas quando são perguntados, alguns moradores locais dizem que a margem oeste do canal é o Líbano, outros insistem que é a Síria. A maioria concorda que não importa.

"Não é uma fronteira", disse Hussein Al Hajj Hassan. "Eu estou aqui, meu irmão está lá."

Entre as questões mais voláteis no frágil cessar-fogo entre Israel e o
Hizbollah está o da travessia de armas por esta fronteira indistinta. Israel teme que o Hizbollah, o grupo xiita cuja milícia deu início à guerra, continuará recebendo mísseis e outras armas sofisticadas do Irã pela longa e mal protegida fronteira de 330 quilômetros.

Os moradores locais dizem que seria uma simples questão de um mero conluio de ambos os lados para um trator ou caminhão transportar armas de um lado para o outro.

Israel quer que a força de paz ampliada da ONU, já disposta ao longo da
fronteira sul do Líbano com Israel, monitore a fronteira síria e mantenha as armas afastadas. Mas a Síria disse que considerará isto um "ato hostil" e os libaneses nesta região alertam que qualquer presença estrangeira enfrentará forte resistência.

"Nós consideraremos os soldados da ONU como tropas de ocupação e teremos o direito de resistir a elas", disse Abdul Nasser Asahili, um mukhtar, ou líder local, em Hermil, a capital do distrito. "Nós os aconselhamos a permanecerem ao sul do Rio Litani."

No distrito de Hermil, as estradas pavimentadas que cruzam a fronteira estão bloqueadas com barreiras de pedras ou concreto para impedir a travessia de veículos maiores que motocicletas. Carros, caminhões e ônibus devem usar uma das quatro travessias principais de fronteira entre os dois países. O Líbano colocou mais de 8 mil soldados ao longo da fronteira para monitorar o tráfego, mas poucas pessoas aqui acreditam que o Exército libanês é capaz de impedir o fluxo de armas.

"Sem observadores internacionais ao longo da fronteira sírio-libanesa não haverá solução", disse o líder druso libanês Walid Jumblatt em um comício aos seus simpatizantes, na segunda-feira. "Será impossível impedir caminhões carregados com armas, munição e explosivos de entrarem no Líbano."

Ele disse anteriormente em uma entrevista para a televisão que já ouviu
falar de túneis sob a fronteira no distrito de Akkar, ao norte, pelos quais as armas podem passar.

Asahili, a autoridade em Hermil, disse não acreditar que armas atravessaram em seu distrito, mas que atravessam em outras partes. Ele é a favor da idéia. "O Hizbollah tem o direito de trazer armas", ele disse. "Os israelenses estão trazendo muitas armas dos Estados Unidos e o Hizbollah tem o direito de defender o Líbano."

Ele disse de forma pouco convincente que a presença esparsa do exército
libanês ao longo da fronteira deveria ser suficiente para tranqüilizar
Israel e o Ocidente de que armas não chegarão ao Hizbollah. Mas em um novo posto de controle do exército na vizinha Al Qasr, um dos muitos construídos às pressas desde o cessar-fogo, meia dúzia de soldados passavam ociosamente o dia em um prédio recém-construído de blocos vazados de concreto, ao lado de uma placa de metal azul dizendo "Pare. Exército Libanês". Os carros e caminhões diminuíam a velocidade, mas raramente paravam.

Além disso, Asahili repetiu uma posição amplamente repetida no Líbano de que o Hizbollah nem precisa nem deseja importar armas, ao menos por ora. O vice-secretário-geral do grupo, Naim Qassem, disse em uma entrevista na semana passada para o jornal "Asharq Al Awsat", com sede em Londres, que o grupo usou menos de um quarto de seus foguetes durante os 34 dias de guerra. "Recuperar o arsenal do partido não é uma prioridade, já que ainda há armas suficientes", ele disse.

Elias Hanna, um general aposentado e especialista em segurança em Beirute, disse acreditar na afirmação devido à taxa diária sustentada de disparos de foguetes do Hizbollah até o cessar-fogo. "Quando você começa a ficar sem, você economiza", ele disse.

Mas Israel insiste que destruiu mais da metade do arsenal do Hizbollah e quer que o mundo assegure que ele não será restaurado.

Como tantas fronteiras no Oriente Médio, a linha que separa o Líbano da
Síria é arbitrária, traçada nos anos 20 pela França quando demarcou o Líbano em sua parcela do falecido império Otomano.

A fronteira deixou 15 aldeias libanesas na Síria e nove aldeias sírias no Líbano. Os moradores locais em geral ignoraram a linha imaginária mesmo após os dois países conquistarem a independência em 1943. Suas moedas eram aceitas indistintamente e propriedades penetravam no território vizinho.

"É como Nova York e Nova Jersey, não há diferença", disse Asahili.

A verdadeira divisão veio no início dos anos 50, quando os dois países
separaram seus regimes alfandegários e o valor de suas moedas começou a
divergir. Mas os libaneses que viviam na Síria continuavam a registrar
nascimentos e óbitos nos cartórios libaneses. Abdullah Sakr, por exemplo, nasceu em Zaita, uma aldeia libanesa vários quilômetros dentro da Síria, mas possui passaporte libanês porque seu nascimento, assim como o de seu pai e avô, foi registrado em Hermil.

A região da fronteira é dominada pelos xiitas, que tem forte fidelidade à Síria, creditando ao seu exército o fim da brutal guerra civil do país, de 1975 a 1990. Tal relacionamento se tornou ainda mais forte durante os anos que se seguiram, com tropas sírias estacionadas no Vale de Bekaa.

As cidades xiitas na área estão repletas de faixas incentivando o martírio dos combatentes do Hizbollah, de pôsteres dos aiatolás iranianos e até mesmo de Hafez Assad, o presidente sírio que morreu em 2000.

"Na guerra, os mártires são como filhos de Deus", dizia uma gravação em uma parede de concreto em Hawsh Beit Ismail, ao lado de uma imagem estilizada de um soldado fincando uma bandeira do Hizbollah. Uma parede vizinha estava pintada com uma caligrafia cuidada dizendo "A América é inimiga de Deus".

Apesar do exército libanês permanecer independente das tensões sectárias que dividem o governo, seus soldados também são em grande número xiitas e simpatizantes do Hizbollah.

"Nos últimos 30 anos esta fronteira esteve aberta para tudo -gasolina,
armas- é como se não houvesse fronteira", disse Hanna, o general aposentado. Ele acrescentou que durante os anos em que o exército sírio esteve no país, as armas atravessavam livremente de um país para o outro.

Mas após a Síria ter sido forçada a se retirar em 2005, os carregamentos de armas se tornaram clandestinos. Hanna disse que "uma enxurrada" de armas foi contrabandeada pela fronteira antes da incursão do Hizbollah que deu início à guerra, em 12 de julho, mas que o governo carecida de unidade e vontade política para impedi-la.

Asahili, a autoridade de Hermil, disse que o contrabando é um fato da vida, apontando para vários galões de plástico de gasolina que ele enche na Síria, porque custa metade do preço daqui. Os bloqueios na estrada diminuíram o contrabando comercial de maior volume, mas todos sabem que há um movimentado comércio ilícito na fronteira.

"Mesmo se colocarem soldados lado a lado por toda a fronteira, eles não
conseguirão impedi-lo", disse Asahili. "As pessoas nesta região não
acreditam na divisão em dois países. Para elas é um único país." George El Khouri Andolfato

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