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16/09/2006

Segredos e mentiras cobrem origens de suástica gigante

The New York Times
C.J. Chivers

em Tash-Basht, Quirguistão
As altas coníferas no ar poeirento da montanha formam um desenho denso na lateral do morro. Elas foram plantadas por turmas de trabalhadores há décadas.

Joseph Sywenkyj/The New York Times 
Visão do conjunto de árvores que alguns acreditam ter a forma de suástica em Tash-Bashat

Seus ângulos retos são duros e claros, formando uma cruz quadrada com um braço levantado de um lado e um braço abaixado do outro. Vista desta vila remota, o efeito sugere fortemente uma suástica viva, um símbolo enorme e assustador, fora de lugar e de época.

Esta é a chamada suástica de Eki Naryn, um arranjo de árvores perto do Himalaia. De acordo com o serviço florestal da região, tem ao menos 60 anos e mede cerca de 180m.

Segundo a lenda, prisioneiros de guerra alemães, forçados a trabalhar na floresta depois da Segunda Guerra, enganaram os guardas soviéticos e plantaram fileiras de brotos no formato do emblema escolhido por Hitler.

Mais de 20 anos depois, as árvores cresceram o suficiente para serem vistas da aldeia abaixo. Somente então a suástica apareceu, um ato adiado de desacato pelos soldados vencidos, abandonados em um canto da União Soviética de Stalin.

Apesar de fazer sentido, a lenda não é bem verdade. A origem dessas árvores é um mistério mais complicado do que um subterfúgio silencioso de um campo de prisioneiros esquecido. A teoria dos prisioneiros de guerra sobreviveu por anos, em parte porque 1,4 milhão de soldados alemães sumiram na ex-União Soviética desde a guerra, de acordo com a Cruz Vermelha alemã. Muitos foram forçados a trabalhar. Eles mineraram urânio e carvão, trabalharam em fazendas, ergueram prédios e construíram estradas, linhas férreas e canais.

Até 30.000 deles foram enviados à Ásia Central, segundo a Cruz Vermelha alemã. A simetria das fileiras de árvores, evidência de seu desacato nesta história, pode ser a única brincadeira do Terceiro Reich.

No entanto, descobrir as origens da possível insubordinação dos nazistas perdidos é uma tarefa prejudicada pelo tempo. A história tornou-se maleável, um conto por vezes sinistro, irônico, inteligente e soviético. Também foi distorcido por erros, acobertamentos, teorias e mentiras.

O professor Yedil Musayev diz que as árvores foram plantadas nos anos 40, por trabalhadores quirguizes da Fazenda Coletiva de Lênin, que cuidavam do planalto. Os gerentes da fazenda eram russos e europeus, disse ele, enviados a postos distantes para combater o analfabetismo e aumentar a eficiência.

Sem o conhecimento dos trabalhadores quirguizes, o supervisor era um alemão que se exilara no leste, como muitos outros durante a guerra, e simpatizante nazista, disse Musayev. A floresta foi projeto seu.

Sultanbek Kandibayev, diretor do serviço florestal regional, deu uma versão diferente: que as árvores foram plantadas em 1953, depois da morte de Stalin, sob supervisão de uma mulher nacionalista alemã.

Ulambek Sheripov, vice-diretor, acrescentou detalhes, dizendo que a mulher escondeu o desenho final plantando em setores. Mas ele discordou de seu diretor sobre a data da plantação, dizendo que uma pesquisa em 1991 estimou que as árvores tivessem 50 anos na época, ou seja que teriam sido plantadas antes de 1953.

Beksbosun Uskumbayev, outro agente florestal, disse que a verdade era difícil de saber porque os arquivos do serviço estão em desordem. (Os arquivos só tinham registros a partir de 1960).

Além disso, mitos e enganos recentes continuam a confundir a lenda.

Uskumbayev lembrou-se de um artigo no final dos anos 90 no jornal quirguiz Vecherniy Bishkek. A história dizia que um homem chamado "o professor" plantara as árvores nos anos 60 e depois desaparecera com um guarda florestal -sugerindo que tinha sido preso pela KGB.

O artigo era acompanhado de uma fotografia claramente adulterada, mostrando um braço na figura que não existe. "A versão não era verdadeira", disse Uskumbayev, suspirando.

Nessa história confusa, Vladimir Yashchuk, guia local, ofereceu outro
relato: quando era pequeno, seus professores contaram que as árvores haviam sido plantadas no final dos anos 30, quando Stalin e Hitler estavam aprovando o pacto de não agressão Molotov-Ribbentrop.

"Era a amizade entre os povos", disse ele. "Stalin fez este acordo com a Alemanha e essa suástica foi plantada no contexto desse acordo."

Ou assim diziam as lições nas escolas soviéticas, acrescentou Yashchuk.
Ninguém tem muita certeza. "Todo guia florestal tem sua própria variação", disse ele.

A persistência do mistério é surpreendente, já que o símbolo é uma suástica nazista imperfeita, talvez pela irregularidade do terreno, talvez pelo projeto. A suástica de Hitler era dobrada 45 graus à esquerda; a formação aqui é quase no mesmo nível. Além disso, os braços não imitam o símbolo do Terceiro Reich, mas sua imagem espelho -uma suástica revertida.

Independentemente das falhas, as árvores de Tash Bashat há muito atraem o interesse do Conselho do Povo Alemão em Quirguizia, uma organização privada em Bishkek, capital do Quirguistão. Como parte de uma caça aos alemães desaparecidos e seus túmulos, o conselho pesquisou se turmas de prisioneiros haviam plantado o bosque, disse Valery Dill, diretor do conselho.

Foi uma busca frustrada. "O poder soviético fez tudo para esconder todas as evidências, toda a verdade", disse Dill.

Eventualmente, a SNB, sucessora quirguiz da KGB, disse ao conselho que prisioneiros alemães trabalharam em dois campos: um perto de Bishkek e outro perto da cidade de Och, no Sul. Maiores buscas levaram Dill a episódios de brutalidade e dureza

Ele encontrou um prisioneiro de guerra idoso perto de Och, um dos mais de 100 alemães forçados a trabalhar em minas de urânio em Maili-Suu. Um dia, correu um boato que Stalin ia permitir que prisioneiros alemães que não tivessem se casado na União Soviética fossem repatriados, disse o homem.

Pouco depois, a KGB trouxe fileiras de mulheres quirguizes à mina e disse aos alemães para escolherem uma esposa ou seriam mortos.

Quando foi mais fundo na busca pelo destino dos alemães e a origem das árvores, a pesquisa de Dill sugeriu que um prisioneiro com formação em hidrologia foi enviado a Tash-Bashat, na época chamada de Kalinin.

Ele recebeu ordens de chefiar a plantação para proteger a bacia hidrográfica. O hidrologista teria supervisionado a plantação, disse Dill, com uma advertência: "É difícil saber se é lenda ou não", disse ele.

Em um ponto quase todos no vale concordam: nenhuma turma de prisioneiros trabalhou aqui. Quatro idosos da aldeia disseram que apenas plantadores quirguizes trabalharam nos morros. Três deles, inclusive Baken Kizekbayev, 69, e Asmbek Sulambekov, 71, disseram ter plantado eles mesmos as árvores. Seu supervisor, lembram-se, era uma guarda florestal branca.

"Minha mãe trabalhou para a guarda florestal e eu ajudava", disse Sulambekov. "Eles nos deram um projeto: quantos hectares tinham que ser preparados, plantados, etc. Em um ano nós preparamos. No outro, plantamos. Depois a floresta cresceu."

Sulambekov disse que entrou para o exército e voltou anos depois. A suástica surpreendeu-o, disse ele. Quanto aos contos de turmas de prisioneiros, eledisse: "Nunca aconteceu. Não havia prisioneiros alemães ou mesmo russos. Somente o povo do lugar."

Sulmabekov e Kizekbayev não se lembravam exatamente quando ajudaram a plantar as árvores, mas concordaram que era nos anos 40 ou 50.

Mais de meio século depois, eles eram um exemplo da divisão em torno do significado do bosque. Sulambekov disse que é uma curiosidade. Kizekbayev disse que é uma ofensa. "Não gosto, é um símbolo fascista", disse ele. "Deveria ser cortado."

Depois sorriu travesso. Quem projetou isso deve ter assumido um risco perigoso. "Você não pensa que sou culpado, pensa?" perguntou, piscando.
"Será que vão me prender?" Deborah Weinberg

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