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17/09/2006

Nas propagandas de campanha democratas, Bush é o astro

The New York Times
Adam Nagourney
Em Washington
De Rhode Island ao Novo México, de Connecticut ao Tennessee, o presidente Bush está despontando como o nome de destaque destas eleições de novembro ao Congresso -- cortesia não de seu Partido Republicano, mas do Democrata.

Uma análise de dezenas de propagandas de campanha revela que Bush se tornou o astro da guerra de propaganda dos democratas nesta eleição. Ele é mostrado ao lado de senadores republicanos e membros do Congresso, seu nome é entoado por locutores com vozes sinistras. Candidatos republicanos são condenados nas propagandas pelo número de vezes que votaram com Bush no Congresso.

Sem causar surpresa, dado que o índice de aprovação de Bush continua oscilando em torno de 40%, é difícil encontrar o presidente em qualquer uma das propagandas republicanas analisadas. Mas no que pode ser considerado um indicador importante de mudança no gosto republicano, o senador John McCain do Arizona está aparecendo em toda parte.

Bush está presente nas telas de TV do Colorado, se inclinando para dar um beijo na testa da deputada republicana Marilyn Musgrave, em uma propaganda pela eleição da democrata Angie Paccione.

Lá está Bush novamente nas telas de TV do Novo México, em um palanque ao lado da deputada Heather A. Wilson, uma republicana que está tendo dificuldades para manter sua cadeira. "Heather Wilson apóia George Bush na guerra no Iraque sem questionar", diz o locutor, em uma propaganda de Patricia Madrid, a concorrente democrata.

A Casa Branca entrou neste período eleitoral buscando assumir o controle do diálogo político, afastando o debate de questões como o Iraque e a conduzindo ao papel de Bush na campanha contra o terrorismo. A decisão dos democratas de investir em propagandas que atacam diretamente a guerra no Iraque, a condução pelo governo da guerra contra o terrorismo e um presidente antes popular representa uma mudança acentuada na forma como lidaram com estes assuntos em 2002 e 2004, sendo um dos desdobramentos temáticos mais significativos da campanha.

A ascensão deste tema recorrente na campanha democrata, refletida nas propagandas assim como nos comitês do partido, não é um esforço coordenado pelas legiões de consultores, líderes do partido, diretores de campanha e candidatos que, por meio de seus esforços díspares procuram temas que possam criar uma linha democrata em resposta aos republicanos. Os democratas disseram que as propagandas envolvendo Bush se tornaram quase que uma coisa óbvia a fazer, dada sua falta de popularidade, e reflete o esforço de muitos no partido para transformar a eleição em um referendo nacional a Bush.

"Em certos distritos ele é exatamente de quem desejamos nos afastar", disse o deputado Rahm Emanuel, o democrata de Illinois que está liderando o esforço para conquista da Câmara. "Eu digo a todos os candidatos: ele e a agenda dele estão na cédula neste ano."

Kenneth M. Goldstein, professor associado de ciência política da Universidade de Wisconsin que estuda propagandas de campanha, disse que o foco dos democratas no Iraque e na segurança representa uma mudança acentuada em relação ao que observou nos dois últimos ciclos eleitorais. Naquela época, Bush era bem mais popular e a opinião pública em relação à guerra não tinha mudado, mas Goldstein argumenta que os democratas ainda assim podem ter cometido o erro de não terem tentado ao menos contestar os republicanos em relação à guerra.

"Se você está conduzindo uma campanha, você tenta entrar em um assunto ou mudar o assunto", disse Goldstein. "A estratégia democrata em 2002 e 2004 foi basicamente mudar o assunto. Eles tentavam ignorá-lo e mudá-lo. Eu acho que eles perceberam que não podiam fazer aquilo."

A estratégia apresenta riscos. Em parte, a meta das propagandas dos democratas é mobilizar sua base. Mas Glen Bolger, um pesquisador republicano, disse que os ataques constantes contra Bush parecem estar promovendo algo que os republicanos não estavam conseguindo fazer por conta própria: mobilizar a base eleitoral republicana.

"Uma coisa que estamos vendo em nossas pesquisas é que a campanha democrata está ajudando a estimular os eleitores republicanos", disse Bolger. "Há duas preocupações entre os republicanos: será que nossa base vai comparecer e como vamos obter o voto dos eleitores indefinidos. Os democratas estão cuidando de nossa primeira preocupação."

Muitos republicanos, e alguns democratas, dizem que será difícil para os democratas vencerem a menos que façam algo além de atacar os republicanos, oferecendo um programa próprio. E Ken Mehlman, o presidente nacional republicano, disse que a própria experiência republicana na política sugere que concorrer contra alguém que não está na cédula é difícil. "A última vez em que este tipo de estratégia foi tentada foi em 98, quando tentamos nacionalizar as disputas contra Clinton, mas não funcionou", ele disse. "Eu acho que se os democratas estão falando sobre Bush em vez de seus adversários, eles estão perdendo algo importante."

Seja qual for o caso, Bush pode ser encontrado em propagandas democratas na Pensilvânia, Rhode Island, Arizona, Tennessee, Nova Jersey e outros Estados.

Em Nova Jersey, o senador Robert Menendez, um democrata que enfrenta uma dura batalha eleitoral, caminhava ao longo do cais de Nova Jersey atacando o presidente -em vez de seu adversário republicano na eleição, Thomas H. Kean Jr.- como tendo fracassado em melhorar a segurança nos portos do país.

"Cinco anos após 11 de Setembro e o presidente ainda não entendeu: a segurança interna começa aqui", disse Menendez.

Em Rhode Island, Sheldon Whitehouse, o adversário democrata do senador Lincoln Chafee, se voltou a uma sala cheia de eleitores e disse: "Eu quero deixar absolutamente claro que precisamos promover uma retirada responsável de nossas tropas no Iraque". No sul da Flórida, o deputado E. Clay Shaw Jr. é mostrado entre fotos de Bush e do vice-presidente Dick Cheney, sob as palavras: "Shaw vota a favor da agenda de Bush/Cheney em 90% das vezes". O locutor diz que Shaw, que está enfrentando uma dura disputa com Ron Klein, "se recusa a questionar a condução deles da guerra no Iraque".

Bush é mostrado sentado com o senador Rick Santorum da Pensilvânia, enquanto a legenda nota que Santorum "vota com George Bush em 98% das vezes, mesmo na privatização do Seguro Social".

Os republicanos têm respondido com propagandas atacando os democratas como favoráveis a aumentos de impostos e como sendo fracos em segurança nacional. E invocam seus próprios totens políticos. Em Indiana, os republicanos usam uma foto da deputada Nancy Pelosi da Califórnia, a líder democrata que provavelmente se tornaria a próxima presidente da Câmara em caso da tomada desta pelos democratas, em uma propaganda atacando Brad Ellsworth, um xerife democrata cuja campanha está ameaçando a reeleição do deputado John Hostettler.

"Pelosi e outros democratas querem aumentar seus impostos, fugir correndo do Iraque e dar anistia aos imigrantes ilegais", diz o locutor.

Mas em puro estrelato, nada se iguala a um presidente, como os republicanos certamente demonstraram em 2002 e 2004, quando Bush era uma presença constante em quase todas as campanhas republicanas. Em comparação, a imagem de Bush nestas eleições está sendo invocada por democratas como símbolo para os americanos que querem uma mudança em Washington; ou para aqueles que se opõem à guerra no Iraque; ou para aqueles que pensam que Bush não fez o suficiente para proteger o país de futuros ataques terroristas; ou para aqueles que estão irritados com os altos preços da gasolina; ou que estão furiosos com as mudanças tentadas por Bush no Medicare ou no Seguro Social.

"Não são apenas fotos", disse John Lapp, que dirige o programa de propaganda independente do comitê de campanha democrata. "São declarações, ações e votos que mostram um padrão das pessoas apoiarem Bush."

Os estrategistas democratas argumentam que Bush é uma figura poderosa nas propagandas, particularmente quando associado à impopular guerra no Iraque.

"A guerra é o tema dominante", disse Steve Murphy, um consultor cuja firma fez a propaganda do Iraque para Madrid, assim como outras que apontam para o Iraque. "Para todos estes candidatos republicanos que não estão medindo esforços para se distanciarem de Bush -bem, se apóiam Bush na guerra, não há nada mais ilustrativo do fato de estarem na cama com Bush."

O senador Charles E. Schumer, o democrata de Nova York que está liderando a campanha do partido para retomada do Senado, disse: "Em 2004 as pessoas ainda estavam contentes com a condução de Bush no Iraque. Agora não estão".

Isto também aparece no terrorismo. O deputado Harold E. Ford Jr., um candidato democrata ao Senado pelo Tennessee, caminhava por um avião enquanto criticava os esforços do governo para proteger a nação do terrorismo, zombando de qualquer sugestão de que a Casa Branca merece crédito pelas prisões no Reino Unido de suspeitos de terrorismo, que planejavam explodir aviões com destino aos Estados Unidos.

"Graças a Deus os britânicos os detiveram", disse Ford, acrescentando: "Hoje, nossos portos e fronteiras continuam vulneráveis aos terroristas".

Ainda é cedo na temporada de propagandas de campanha e ambos os partidos estão poupando dinheiro para as semanas finais. Os republicanos em particular dizem que produziram propagandas atacando os candidatos democratas por suas posições e votos, ou negócios pessoais questionáveis, que serão mais eficazes se apresentadas mais à frente, quando for mais difícil responder.

Dirigentes do partido disseram que os gastos em propaganda estão acompanhando os de anos anteriores. Mas há duas diferenças importantes. Uma delas é que os estrategistas políticos consideram a televisão -nesta era de cabo, TiVo e Internet- um meio menos eficaz do que antes para propaganda de campanha, estando muito mais dispostos a investir quantias significativas de dinheiro em operações para estimular o comparecimento do eleitor para votar. Além disso, estrategistas de campanha dizem acreditar que as propagandas podem ser mais vistas se postadas em seus próprios sites, ou no YouTube, um site popular de compartilhamento de vídeo. George El Khouri Andolfato

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