UOL Notícias Internacional
 

19/09/2006

Briga acentua divisão racial no Brasil

The New York Times
Larry Rohter

em São Paulo
Em todos seus anos como jogador de futebol e árbitro, disse José de Andrade, ele nunca sentiu que ser negro o deixava sujeito à discriminação. Mas isto foi antes do fatídico jogo de um campeonato de futebol da polícia que ele arbitrou aqui, em dezembro passado, quando, segundo ele e testemunhas, um coronel reformado da polícia, irado ao ver um companheiro de equipe ser punido, chamou Andrade de "macaco" e disse que sua pele tinha cor de excremento.

O que se seguiu foi uma lição para Andrade, 36 anos, sobre a complexidade da política racial do Brasil. Ele prestou queixa contra o policial, o coronel Antônio Chiari, o acusando de difamação, injúria e "incitação ao racismo".

Mas o clube dos policiais que empregava Andrade o pressionou a retirar a queixa ou a aceitar um acordo em dinheiro fora do tribunal, ele disse. Quando não aceitou, passou a ser intimidado pela polícia.

"Eu nunca imaginei que passaria por algo assim", ele disse em uma recente entrevista em sua casa, em um bairro operário desta cidade de 10 milhões de habitantes, a maior e mais cosmopolita do Brasil. "Claro que como árbitro você se acostuma aos torcedores dizerem muitas coisas pesadas e aos jogadores ficarem nervosos com o que você apita. Mas isto foi diferente e me fez chorar."

O caso de Andrade repercutiu em todo o Brasil -que possui a maior população negra fora da África- em parte devido ao crescente debate nacional sobre raça. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs um Estatuto da Igualdade Racial que instituiria cotas raciais nas universidades e empregos, mas os oponentes argumentam que tal legislação provocaria tensões raciais e ressentimentos.

Apesar de haver uma forte correlação entre pele branca e status econômico e social, os brasileiros são ensinados a pensar em seu país como uma democracia racial. A visão tradicional, declarada em "Não Somos Racistas", um novo livro best seller que critica as cotas, é que diferente de "uma sociedade segregada como os Estados Unidos", as instituições brasileiras são "completamente abertas a pessoas de todas as cores, nossa estrutura judicial e institucional é completamente cega a cores".

O Brasil tem um estatuto antidiscriminação abrangente, aprovado há mais de uma década. Mas um crescente número de grupos que defende direitos iguais para os negros aponta que ninguém jamais cumpriu pena de prisão por violar os artigos raciais da lei.

"Nós somos um país no qual a maioria não é branca e merece ter seus direitos reconhecidos", disse a advogada de Andrade, Telma Beatriz Villas-Boas, que é branca. "José se sentiu compelido a se levantar e buscar justiça, porque tem filhos e espera estabelecer um precedente que lhes permita evitar este tipo de humilhação. Ele não quer dinheiro, ele apenas quer respeito."

A queixa de Andrade, agora na Justiça, também atraiu atenção por envolver o futebol, a paixão nacional. Esportes e entretenimento são duas das poucas áreas na qual negros e brasileiros mestiços, mais da metade dos 185 milhões de habitantes do país, têm sucesso, supostamente porque ambos são campos onde o talento é só o que conta.

Chiari não respondeu aos pedidos de entrevista. Seu advogado, Nilson Amâncio Jr., um associado do clube que esteve no jogo e disse não ter ouvido a discussão, considera a queixa de Andrade uma "fantasia" "sem credibilidade", que no final será arquivada pela Justiça.

"Tudo o que ocorreu foi uma discussão comum entre jogador e árbitro", ele disse. "Nada foi dito que poderia ser categorizado como racista, e nada foi dito que difamasse o árbitro. Ele acrescentou: "Eu sou amigo de ambos, mas fiquei do lado do coronel porque ele está sendo injustiçado em um caso que simplesmente não aconteceu da forma como está sendo apresentado."

Mas Chiari não é apenas um oficial reformado comum da polícia. Ele foi comandante da ROTA, uma notória força-tarefa especial ao estilo SWAT que grupos de direitos humanos dizem ter sido responsável pela maioria das mortes no infame "Massacre do Carandiru" de 1992, no qual 111 presos foram mortos durante uma rebelião. Após uma investigação inicial, Chiari foi acusado de "lesão corporal grave" e temporariamente afastado de suas funções. Ele foi posteriormente absolvido de responsabilidade e promovido.

"As coisas estão melhores agora, mas no passado, esta era uma unidade fortemente identificada com comportamento arbitrário, truculento e abusivo", disse Hédio Silva, um advogado que está concorrendo ao Congresso e que foi o primeiro negro a atuar como secretário da Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo. "Sem dúvida, havia um elemento racial naquele padrão de arbitrariedade."

Andrade disse que logo após o incidente original ele concordou, a pedido de seus chefes no clube atlético da polícia que o emprega como treinador, em se encontrar com Chiari na esperança de ouvir um pedido de desculpas. Em vez disso, o coronel fez questão de mencionar sua ligação com a ROTA.

Ao ser perguntado sobre como interpretou tal referência, Andrade respondeu: "Eu a considerei uma tentativa de intimidação. Todos sabem o que significa ser parte da ROTA".

De fato, logo após Andrade ter prestado queixa, uma patrulha da ROTA o parou certa noite perto de sua casa, sem explicação. Ele disse ter sido "chutado umas duas vezes", ordenado a tirar a camisa, ordenado a "sair da rua, para um canto escuro" e mantido sob mira de arma por cerca de 15 minutos, antes de ser bruscamente instruído a ir para casa. Ele disse que chegou a temer pelo pior.

"Eles tinham meus documentos de identidade na mão, então certamente sabiam quem eu era", ele disse. "Uma grande reportagem sobre o caso tinha acabado de sair no jornal de domingo e aquilo ocorreu na quinta-feira, de forma que temi estarem me emboscando."

Andrade também começou a experimentar dificuldades no trabalho. Em março, ele foi suspenso das aulas de futebol no clube, onde o jovem filho de Chiari era um de seus alunos, com base em não estar devidamente licenciado.

Diretores do clube não responderam aos pedidos de comentário. Mas em agosto, após publicidade adicional sobre suas dificuldades, a situação de Andrade foi normalizada no clube, onde ele cruza regularmente com Chiari.

"Tudo o que eu queria era um pedido de desculpas", disse Andrade. "Eu sempre o tratei de acordo com seu posto, sempre o tratei respeitosamente, e ele devia fazer o mesmo comigo. Agora espero que toda a raça negra tenha a coragem de denunciar o preconceito, para que nossos filhos não tenham que aceitar estas ofensas." George El Khouri Andolfato

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