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19/09/2006

Koizumi mudou o Japão, mas nem todos acreditam que foi para melhor

The New York Times
Norimitsu Onishi

em Tóquio
Junichiro Koizumi subiu ao poder em 2001 prometendo "destruir" seu Partido Liberal Democrata e, por extensão, a ordem do pós-guerra no Japão. A um ponto impressionante, ele conseguiu -apesar de nada tão radical quanto esperava. Quando Koizumi, 64, aposentar-se no dia 26 de setembro, ele deixará um Japão com novos comportamentos: um governo central menor, mais fé nos mercados livres e uma nova assertividade nas questões do mundo.

Mas sua visão de um novo Japão produziu uma reação entre japoneses que acreditam que ele destruiu, junto com o mau, muito do bom do velho Japão.

Ainda assim, apesar de suas políticas terem freqüentemente sido impopulares, ele consistentemente atraiu grande aprovação de eleitores, sedentos por um líder carismático e forte. Enquanto o primeiro-ministro Tony Blair, do Reino Unido, e outros políticos sofreram por seu endosso à guerra ao Iraque, Koizumi -que até hoje expressou somente o mais firme apoio à guerra- manteve-se intocado.

Ele se aposenta com um índice de aprovação em torno de 50%, o mais alto de qualquer primeiro-ministro que serviu longamente no pós-guerra, talvez porque os eleitores acreditam que cumpriu sua promessa de sacudir o velho Japão e que caberá aos seus sucessores levá-los a um novo.

Claramente, porém, não há volta aos velhos tempos, independentemente de quem for eleito líder dos Democratas Liberais na quarta-feira (20/9) e depois escolhido como primeiro-ministro, na próxima terça-feira.

"Ele mudou dramaticamente todo o funcionamento da política japonesa", disse Park Cheol-hee, especialista em política japonesa da Universidade Nacional de Seul, na Coréia do Sul. "Futuros primeiros-ministros terão que seguir seu caminho. Não acho que podem voltar aos velhos e bons tempos de contar com grupos de interesse e burocratas. O público esperará iniciativas políticas verdadeiras de seus primeiros-ministros. As coisas mudaram fundamentalmente."

Quanto dessa mudança é atribuível às políticas de Koizumi é um debate constante entre especialistas.

O distanciamento da política dos democratas liberais dedicada aos interesses privados e clientes foi inevitável, porque o Japão simplesmente não tem o dinheiro que tinha antes do colapso de sua "economia da bolha", inflada pelo setor imobiliário no final dos anos 80, e dos anos subseqüentes de pouco ou nenhum crescimento.

Além disso, as reformas eleitorais amplas promovidas por uma coalizão de partidos menores, durante a saída de 10 meses do poder dos democratas liberais em 1993, estabeleceram a fundação para as mudanças de Koizumi.

Ele promoveu reformas econômicas dolorosas, apesar da oposição de dentro de seu partido. Essas mudanças incluíram desregulamentação de indústrias, limpeza dos empréstimos inadimplentes dos bancos e corte de gastos públicos enormes e freqüentemente desperdiçados que conquistaram votos para seu partido por décadas.

Mas a reanimação da economia do Japão deve tanto, se não mais, à reestruturação de companhias privadas e à expansão do comércio com a economia explosiva da China, dizem muitos especialistas.

Independentemente do crédito dado a ele, Koizumi articulou mais do que qualquer um a necessidade de mudança do Japão. Na década anterior à sua eleição, o país passou por uma sucessão de líderes fracos, perdidos, sem saber guiar a nação para fora de seu mal estar.

Koizumi foi direto. Ele disse aos japoneses, em um de seus lemas famosos, que "a dor acompanha reformas estruturais" e disse que ia desenvolver "reformas estruturais sem exceções".

Para a surpresa de quase todos, suas ações e discurso franco conquistaram-lhe amplo apoio.

"Segundo se sabia, os primeiros-ministros japoneses eram inerentemente incapazes de exercer liderança. Mas Koizumi o fez com grande tenacidade e tentou muitas coisas novas -coisas que primeiros-ministros não tinham dito ou feito até agora", disse Takeshi Sasaki, cientista político da Universidade de Gakushuin e ex-presidente da Universidade de Tóquio.

Diferentemente de seus predecessores, Koizumi evitou os compromissos que levavam à paralisia. Em uma sociedade que valoriza o consenso, ele era famoso por tomar decisões sozinho e parecia ser mestre em fazer inimigos políticos. Ele era -nas palavras de seu ministro de relações exteriores, Makiko Tanaka- um "maluco".

E o povo o adorava. Cada vez que tinha uma chance de escolher entre ele e os burocratas e políticos antigos do Japão, apoiava Koizumi.

No ano passado, por exemplo, o primeiro-ministro poderia ter se frustrado depois que os membros de seu próprio partido votaram contra uma reforma do sistema de poupança postal do país -efetivamente um banco de poupança que pagava juros muito baixos em depósitos e tinha por muito tempo lubrificado a máquina política do Partido Liberal democrata. Mas Koizumi respondeu convocando eleições imediatas.

Depois de vencer com grande margem, ele facilmente conseguiu aprovar a privatização dos correios, potencialmente liberando suas enormes reservas para servirem à economia, em vez de aos políticos.

Ele estendeu sua visão para a política externa, cimentando a aliança com os EUA depois de uma década na qual o valor da aliança tinha sido questionado. Ele promoveu uma lei especial para enviar tropas humanitárias ao Iraque, em uma medida que muitos japoneses consideraram ser contra o espírito, se não a letra, da Constituição pacifista do país. Ele associou as Forças de Autodefesa Japonesas aos militares americanos participando em operações de defesa de mísseis.

"Quanto melhor nossa relação com os EUA, mais fácil será para nós construirmos boas relações com a China, Coréia do Sul, países asiáticos e outros. Essa é minha crença básica", disse Koizumi durante uma visita do presidente Bush ao Japão em novembro.

Koizumi nutriu um relacionamento tão firme com o presidente Bush que foi premiado com uma visita de despedida a Graceland. Mas ele trouxe as relações com a China para seu ponto mais baixo em décadas e presidiu o renascimento do nacionalismo em casa e o isolamento diplomático do Japão na região.

Ele fez visitas anuais ao templo de Yasukuni, memorial shinto onde os mortos e criminosos de guerra do Japão são reverenciados. A maior parte de seus predecessores evitou o templo, tido como símbolo do militarismo japonês na região.

Por causa das visitas, a China e a Coréia do Sul recusaram-se a manter reuniões de cúpula com o Japão.

Águias japonesas, entretanto, dizem que Koizumi agiu bem.

"Dou a ele nota 10", disse Hisahiko Okazaki, ex-diplomata e atual comentador conservador.

A tática de longo prazo da China é enfraquecer a aliança Japão-EUA. "Se este é o caso, a grande estratégia diplomática do Japão com a China é óbvia", disse ele. "O que Koizumi fez foi correto."

Os críticos, entretanto, dizem que Koizumi usou a oposição estrangeira às visitas ao templo para gerar sentimentos nacionalistas entre japoneses que tinham perdido sua autoconfiança por causa do longa baixa econômica e estavam temerosos de um levante chinês.

Sob Koizumi, políticos e acadêmicos nacionalistas que gostariam de encobrir o passado militarista do Japão encontraram solo fértil e tornaram-se dominantes. Livros-texto sancionados pelo governo cada vez mais omitem fatos da história da guerra do Japão, como o uso de trabalho escravo e "mulheres para conforto", durante os anos que ocupou a Coréia e a Manchúria, ou o massacre de 100.000 a 300.000 chineses em Nanjing.

Os problemas do Japão com seus vizinhos, especialmente a China, eventualmente ficaram tão severos que políticos e acadêmicos em Washington no último ano começaram a expressar preocupação que a política de Koizumi estivesse prejudicando os interesses japoneses -e americanos- na Ásia. Mas os apelos abertos de Koizumi a símbolos nacionais como Yasukuni conquistaram votos ao seu partido -uma lição que foi absorvida por seu provável sucessor, Shinzo Abe, secretário do gabinete.

Em casa, Koizumi diminuiu o papel do governo central e a burocracia e deu aos governos municipais maior autoridade. Ele desregulamentou indústrias, abriu oportunidades para empresários e liberou grandes empresas para que contratassem uma percentagem maior de trabalhadores temporários.

A economia do Japão recobrou-se, apesar da recuperação de longo prazo ser incerta. Em um golpe contra as políticas pró-mercado de Koizumi, um número crescente de críticos diz que as mudanças favoreceram os ricos e corporações e que contribuíram para a ampliação das diferenças e desgaste do louvado igualitarismo do Japão.

Koizumi mostrou pouco interesse em tratar dessas preocupações. Depois de aprovar a lei para mudar o sistema de poupança postal no último outono, que ele por muito tempo viu como a cola que mantinha junto o velho Japão, pareceu perder a paixão por seu trabalho. Em junho, recusou-se a estender a sessão parlamentar, apesar de negócios legislativos não terminados. Ele não conseguia esperar para deixar o prédio, disseram, para ir aos EUA e viajar com Bush para Graceland. Deborah Weinberg

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