UOL Notícias Internacional
 

19/09/2006

Muçulmanos americanos caminham por um campo minado pré-marital

The New York Times
Neil MacFarquhar

em Chicago
Muitos muçulmanos americanos -ou ao menos os que querem manter certas tradições conservadoras- igualam qualquer coisa chamada de "encontro romântico" com o fogo do inferno, independentemente do tempo envolvido. Por isso que o popular evento para encontros entre solteiros na maior conferência anual muçulmana na América do Norte recebeu um nome muito mais respeitável - "Banquete Matrimonial".

"Se chamássemos de encontros rápidos, ia se tornar namoro de verdade", disse Shamshad Hussain, um dos organizadores, sorrindo.

O banquete no início do mês e vários seminários relacionados ao assunto evidenciaram a dificuldade que algumas famílias muçulmanas americanas enfrentam para lidar com uma questão que muitas preferem não assimilar da cultura local. Um seminário, chamado "Dating" (namoro), prometeu aos participantes dicas para "famílias muçulmanas lutando para salvar seus filhos disso".

As duas centenas de pessoas que participaram do seminário caíram na risada quando o imame Muhamed Magid, do Centro Adams, uma união de sete mesquitas na Virgínia, resumiu as instruções básicas que os pais muçulmanos dão aos filhos adolescentes nos EUA, particularmente os homens: "Não converse jamais com garotas muçulmanas, mas você vai se casar com uma delas. Quanto às garotas não muçulmanas, converse com elas, mas nunca traga uma para casa."

"Esses meninos cresceram nos EUA, onde a norma social é que não há problema em namorar, nem em fazer sexo antes do casamento. Então os meninos ficam entre o ideal dos pais e a abertura da cultura nesta questão", disse Magid em entrevista.

As perguntas no seminário refletiram quanto sofrimento nasce dessa questão para muitos muçulmanos americanos. Um homem de meia idade perguntou se havia alguma coisa que poderia fazer agora que seu filho de 32 anos tinha declarado sua intenção de casar-se com uma (suspiro) católica romana. Um jovem perguntou o que seria considerado ir longe demais ao cortejar uma mulher muçulmana.

Os consultores advertiram que mesmo trocas de e-mail aparentemente inócuas ou namoros on-line podem abalar o caminho islâmico de vigilância. "Todas essas são armadilhas do Diabo para nos puxar, e não temos nem idéia que estamos indo nesse sentido", disse Ameena Jandali, moderadora do seminário de namoro.

Daí a necessidade de criar alternativas aceitáveis nos EUA, particularmente para famílias do Paquistão, Índia e Bangladesh, onde há uma antiga tradição de casamentos arranjados.

Uma das consultoras, Yasmeen Qadri, sugeriu que mães muçulmanas em torno do continente se unissem em uma organização chamada "Mães Contra o Namoro", baseada no modelo das Mães Contra Dirigir Bêbado. Se o termo "casamento arranjado" for muito desagradável para a próxima geração, disse ela, então talvez a prática possa ser americanizada, simplesmente mudando o nome para "casamento assistido".

"Nos EUA, podemos brincar com as palavras da forma que quisermos, mas não estamos tentando deixar de lado nossos valores culturais", disse Qadri, professora de educação. Basicamente, para muçulmanos conservadores, namorar é um eufemismo para sexo antes do casamento. Qualquer um que o faça, será considerado moralmente dúbio, com suas perspectivas de casamento diminuindo proporcionalmente, particularmente no caso das mulheres.

Qadri e outros consultores vêem uma espécie de versão híbrida surgindo nos EUA, onde os jovens escolhem seus próprios companheiros, mas os pais envolvem-se ao menos parcialmente no processo em aproximadamente metade dos casos.

O envolvimento das famílias pode ajudar a reduzir o índice de divórcio, disse Magid, citando recente estudo feito pela comunidade que indicou que um terço dos casamentos muçulmanos terminam em divórcio. Ainda era um índice muito alto, observou, porém mais baixo que a média total americana. Casamentos fora do islã ocorrem, mas continuam relativamente raros, disse ele.

Muitos pais apareceram no banquete de casamento para acompanhar os filhos adultos. Uma boa parte vinha de casamentos arranjados -conhecendo a noiva ou o noivo escolhido pelos pais, algumas vezes no próprio dia do casamento. Eles reconhecem que a tradição é insustentável nos EUA, mas ainda querem influenciar o processo.

O banquete, o último do tipo, é considerado uma alternativa preferível à Internet, apesar de isso também estar se tornando mais comum. O evento foi inquestionavelmente um dos grandes atrativos da convenção anual da Sociedade Islâmica da América do Norte, que uniu milhares de muçulmanos em Chicago no final de semana do Dia do Trabalho. Muitos participantes lamentaram o tamanho reduzido de candidatos até mesmo em cidades grandes.

Houve um banquete em cada um dos dois principais dias da conferência, com um máximo de 150 homens e 150 mulheres em cada dia, por US$ 55 (em torno de R$ 120) por pessoa. Eles se sentaram em mesas para 10 pessoas, e os homens trocavam de lugar a cada sete minutos.

No final, eles tiveram uma hora social, que permitiu que coletassem endereços de e-mail e números de telefone, saboreando um jantar de macarrão e refrigerante. (Como os muçulmanos proíbem o álcool, ninguém podia acalmar os nervos com uma bebida). Os organizadores disseram que muitas mulheres ainda pediram aos homens que falassem com suas famílias antes de iniciarem qualquer coisa. Algumas famílias aceitam que o casal possa se encontrar em público, outras não.

Há poucos anos, os organizadores foram forçados a estabelecer um limite de um pai por participante e proibir as famílias de irem às mesas até que a hora social começasse, porque tantos interferiam. Os pais hoje ficam restritos a um limite do hall de recepção, onde se alternam entre tentar ver com quem seus filhos estão conversando e trocar histórias, fotografias e números de telefone entre eles.

Conversar com as mães -que são em geral quem acompanham os filhos- é como fazer uma pesquisa com um time titular subitamente confinado ao banco dos reservas.

"Para conhecer alguém, sete minutos não é o suficiente", disse Awila Siddique, 46, convencida que estava fazendo contatos melhores com as outras mães. Siddique disse que sua filha de 20 anos, tímida, chorou antes do banquete dizendo que seu pai a estava forçando a fazer algo estranho. "Lá no Paquistão, as famílias se encontram primeiro", disse ela. "Você não está se casando com um homem somente, mas com toda sua família."

Samia Abbas, 59, de Alexandria, Egito, correu para as mesas assim que a hora social foi anunciada, para ver com quem sua filha, Alia, 29, estava conversando. "Sou mãe dela e é claro que estou procurando um marido", disse ela, listando as qualidades que estava buscando: um bom coração, atraente, tão altamente educado quanto sua filha e um bom muçulmano.

Tinha que ser egípcio?

"Ela está desesperada por qualquer um!" riu Alia, gerente de tecnologia vivaz de uma firma de Nova York, notando que o requisito "Fabricado no Egito" há muito tinha sido dispensado.

"A prima dela, que é mais jovem, já tem filhos!" exclamou a mãe, ligando para parentes no telefone celular para avaliar candidatos potenciais.

Para os mais reticentes, os organizadores expuseram uma história de sucesso, sobre médicos que se encontraram no banquete há dois anos. "Onde mais se pode encontrar 300 muçulmanas solteiras em dois dias?" disse Dr. Arif Shaikh, 30. Os organizadores vangloriam-se de terem promovido, nos últimos seis anos, cerca de 25 casamentos, talvez mais, pois os participantes não são obrigados a informar.

Fátima Alim, 50, ficou desapontada quando seu filho Suehaib, farmacêutico de 26 anos não encontrou ninguém especial no primeiro dia. Eles tinham vindo de Houston especialmente para o evento, e ela imaginava que ele teria de 50% de chance de encontrar uma esposa.

Quando ela chegou ao Texas, aos 23 anos em um casamento arranjado, Fátima Alim invejou as meninas a sua volta, excitada com as conversas sobre a diversão que tinham com seus namorados, disse ela, mas ficou chocada em saber como mudavam rapidamente para o próximo e como se divorciavam com facilidade. Ainda assim, queria que seus filhos escolhessem os próprios cônjuges.

"Queremos uma menina muçulmana boa, moderada, não muito, muito moderna", disse ela. "Os valores da família são a única coisa que gosto mais em minha terra. Os divórcios são altos aqui por causa da corrupção, da mistura com outros homens e mulheres."

De sua parte, Suehaib Alim estava resistindo à forte sugestão de seus pais para que mudasse de estratégia e começasse a buscar uma boa menina no Paquistão. Muitos dos participantes rejeitaram a idéia, alegando que eram americanizados demais -e além disso os vistos são muito mais difíceis de obter depois de 11 de setembro.

Suehaib Alim disse que ainda acreditava no que aprendeu quando criança, que o sexo fora do casamento é um dos piores pecados, mas quer se casar com uma muçulmana americana independentemente da dificuldade.

"Acho que posso esperar mais um ou dois anos", disse ele, em seu sotaque texano suave, com um sorriso de garoto. "Quanto antes melhor, mas acho que posso esperar. Aos 30, espero, mesmo que seja um pouco tarde." Deborah Weinberg

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