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20/09/2006

Capacidade de premiê de manter o Iraque unido é questionada

The New York Times
Edward Wong*

em Bagdá, Iraque
Altos funcionários americanos e autoridades iraquianas estão começando a questionar se o primeiro-ministro do Iraque, Nouri Kamal al Maliki, dispõe de força política e determinação para manter o Iraque unido à medida que o país se aproxima de uma guerra civil plena.

Passados quatro meses de seu mandato, Al Maliki fracassou em adotar medidas agressivas para deter o conflito sectário no país, porque alienariam os líderes xiitas fundamentalistas em seu governo dividido, que possuem um grande número de seguidores e exércitos particulares. Ele também é restringido pela necessidade de cortejar os árabes sunitas militantes, disseram políticos iraquianos e autoridades ocidentais.

A paciência entre os iraquianos comuns está se esgotando. Muitos se queixam de não verem melhora na segurança e na economia, incluindo o fornecimento de serviços básicos como eletricidade -e alguns bairros árabes sunitas parecem particularmente destituídos, alimentado a desconfiança do governo liderado pelos xiitas.

Al Maliki, um xiita conservador, assumiu em maio. Um alto diplomata americano disse aqui que a Casa Branca ainda confia em Al Maliki, principalmente porque "ele articulou metas para o Iraque que fazem sentido para nós".

Funcionários do governo Bush alertaram repetidas vezes que Al Maliki precisa de mais tempo. "Este é um governo de unidade nacional de muitas, muitas partes móveis", disse o diplomata, que falou sob a condição de anonimato. "Ele precisa negociar à medida que avança." Mas diplomatas que lidam com o governo Bush em questões ligadas ao Iraque, assim como funcionários que partiram recentemente mas que mantêm contato com seus colegas no governo, disseram que os principais assessores do presidente têm um posição bem mais pessimista.

"O que você mais escuta é que ele não toma nenhuma decisão", disse um ex-alto funcionário do governo que concordou em falar apenas sob a condição de anonimato, por não estar autorizado a discutir deliberações internas. "E isto deixa Bush maluco. Ele não aceita bem pessoas que falam em fazer algo, mas se recusam a dar o primeiro passo."

Funcionários americanos daqui disseram que não pretendem deixar que Al Maliki fracasse e o estão ajudando de várias formas. Por exemplo, para aumentar a confiança dos iraquianos comuns, os generais americanos estão gastando em rápidos projetos de reconstrução, como coleta de lixo, enquanto as forças armadas ocupam bairros problemáticos de Bagdá.

A embaixada tem conselheiros que trabalham estreitamente com os ministros do governo e enviou centenas de americanos para sete províncias, para ajudarem as autoridades iraquianas a desenvolverem capacidades políticas e econômicas. Um alto emissário disse que o maior esforço é simplesmente "diplomacia básica" -insistindo junto aos líderes iraquianos para que resolvam suas diferenças.

Mas autoridades iraquianas e ocidentais dizem cada vez mais que o governo de unidade só existe em nome -os partidos políticos que representam seitas e etnias diferentes, constantemente em confronto, minam a habilidade de Al Maliki de formar um consenso.

Apesar dos Estados Unidos terem poderio militar e influência política, eles dependem do governo iraquiano para chegar aos líderes políticos e religiosos do Iraque. Aplacar todos têm impedido Al Maliki de oferecer anistia aos rebeldes sunitas ou desarmar à força as milícias xiitas, disseram em entrevistas vários diplomatas ocidentais e autoridades iraquianas de todo o espectro político.

O principal bloco xiita está profundamente dividido, privando Al Maliki de apoio crucial. Assim, Al Maliki depende do apoio político de Muqtada Al Sadr, o clérigo xiita que comanda o poderoso Exército Mahdi. Esta milícia é acusada por muitos sunitas de assassinatos sectários.

Para assegurar que a minoria de árabes sunitas permaneça envolvida no governo, Al Maliki se vê obrigado a aceitar compromissos em questões como nomeações para cargos no governo de membros de partidos sunitas conservadores, que possuem contato ocasional com guerrilheiros nacionalistas.

"Eu acho que ele disse coisas boas, mas na prática não houve mudança", disse Mahmoud Othman, um legislador curdo independente. "A situação da segurança está deteriorando e a violência está ficando pior. Ele não fez nada contra as milícias. Ao mesmo tempo, o diálogo de reconciliação não está avançando. As perspectivas do governo não parecem boas."

"Eu achei que ele seria mais forte, mas parece fraco", disse Othman. "Ele se sente frustrado porque ninguém está cooperando com ele."

O mesmo sentimento é ouvido nas ruas da capital.

"Não há segurança, nenhuma oportunidade de emprego, nenhum serviço, nada", disse Muhammad Jabar Abdul Ridha, um operário de construção de 18 anos que caminhava pelo centro de Bagdá, na tarde de terça-feira. "Este governo não fez nada melhor do que o anterior."

Apesar de alguns funcionários em Washington dizerem que o presidente Bush e a secretária de Estado, Condoleezza Rice, ainda insistem em reuniões internas que Al Maliki precisa de mais tempo e apoio, há um crescente senso de que Al Maliki não mudará seu modo de agir. Alguns ex-funcionários disseram que um grande teste será se Al Maliki conseguirá enfrentar Al Sadr. "Se não fizer isto, não sei como poderá ter sucesso", acrescentou o ex-funcionário.

Os assessores do primeiro-ministro recusaram os repetidos pedidos para entrevistar Al Maliki, que despontou como uma opção de compromisso para ocupar o cargo de primeiro-ministro durante a luta pelo poder no primeiro semestre, na qual a Casa Branca e Al Sadr apoiaram diferentes candidatos.

Defensores de Al Maliki disseram que é cedo demais para julgar seu mandato. Eles argumentam que qualquer governo de unidade exige compromissos por parte dos líderes. "Ele está há pouco tempo no cargo e o número e tamanho dos problemas do antigo regime e gabinetes são imensos", disse o xeque Khalid al Attiya, vice-presidente do Parlamento.

Al Maliki fez esforços para conter a insurreição liderada pelos sunitas, incluindo dialogar com alguns grupos guerrilheiros árabes sunitas, disseram autoridades iraquianas. Isto pode ter ajudado a aumentar o racha na insurreição entre os nacionalistas iraquianos e os guerrilheiros estrangeiros. Os xeques na província rebelde de Anbar anunciaram no domingo passado que 25 das 31 tribos na província estavam prontas para combater a Al Qaeda na Mesopotâmia.

Funcionários americanos e autoridades iraquianas que lidaram com Al Maliki disseram que ele é mais direto e expressivo nas reuniões do que Ibrahim al Jaafari, o muito criticado ex-primeiro-ministro que lidera o grupo político de Al Maliki, o Partido Islâmico Dawa. Al Maliki não é dado a formalidades diplomáticas e gosta de expressar suas opiniões, eles disseram. Ao mesmo tempo, ele gosta de escutar várias opiniões -freqüentemente às custas da tomada de decisão, eles disseram.

Al Maliki age atualmente como se estivesse acuado em um canto, disse um legislador moderado que passou recentemente duas horas e meia em uma reunião privada com o primeiro-ministro.

"Você era um dos falcões, agora é uma das pombas", o legislador lembrou de ter dito a Al Maliki.

"Não, eu ainda sou um dos falcões", disse o primeiro-ministro. "Eu apenas preciso de tempo."

O plano de segurança de Al Maliki para Bagdá, atualmente o principal esforço de guerra das forças armadas americanas, evita intencionalmente o confronto direto com a milícia de Al Sadr, apesar da aparente disposição dos generais do exército iraquiano de atacar a milícia e a crescente violência por elementos desgarrados desta. O plano, que teve início no mês passado, após um esforço inicial fracassado em junho, envolve varreduras militares nos bairros violentos, geralmente após os combatentes já terem fugido.

O índice de assassinatos caiu em alguns bairros. Mas a eficácia do plano foi questionada na semana passada, quando mais de 165 corpos foram descobertos do outro lado de Bagdá em um período de quatro dias. Milicianos xiitas são os principais suspeitos. O necrotério de Bagdá disse que mais de 1.500 civis foram mortos em agosto, uma queda de 17% em comparação a julho, mas virtualmente mais do que em todos os outros meses da guerra.

O general Dana J.H. Pittard, designado para ajudar a treinar as unidades da polícia e do exército iraquianos, disse que os comandantes do exército iraquiano, que geralmente possuem menos lealdades sectárias do que a polícia, estão prontos para enfrentar as milícias, mas não receberam aprovação do governo.

"Há esta pergunta óbvia feita pelo pessoal do exército, que é: 'Quando vamos nos livrar das milícias?'" ele disse em uma entrevista enquanto se reunia com consultores militares americanos em uma base em Taji. "Se você conversar com os líderes do exército iraquiano, eles dirão: 'Nós precisamos receber a ordem para desarmar as milícias'."

No mês passado, após soldados americanos e iraquianos terem atacado o abrigo de uma milícia no bairro de Sadr City, em Bagdá, Al Maliki condenou a ação e prometeu indenizar as famílias de iraquianos mortos ou feridos no ataque.

O general de exército Peter W. Chiarelli, o segundo em comando no Iraque, disse que os generais americanos e iraquianos estão aguardando para que Al Maliki encontre uma solução política para as milícias.

"Quanto tempo levará este processo?" ele disse. "Eu não sei."

Al Maliki tem pouca influência óbvia sobre Al Sadr, que controla pelo menos 30 cadeiras no Parlamento e seis ministros, o tornando uma das figuras mais importantes no governo. Um alto legislador de Sadr, Bahaa al Aaraji, disse que Al Sadr não tem intenção de debandar o Exército Mahdi, já que ele agora faz parte do governo. "Eles são apenas voluntários defendendo seu país", ele disse.

O primeiro-ministro também está sendo cauteloso em relação a outros líderes xiitas poderosos com milícias. Abdul Aziz al Hakim, o chefe do bloco xiita no Parlamento, provocou uma tempestade política ao pedir ao Legislativo que aprovasse um mecanismo para criação de regiões autônomas. Muitos são contrários e a medida ameaça rachar o governo. Mas em vez de refrear Al Hakim, Al Maliki se manteve quieto.

Como peça central de seu projeto de reconciliação para acabar com a insurreição sunita, Al Maliki quer elaborar uma política de anistia que atrairia para a política alguns militantes árabes sunitas e dirigentes do antigo Partido Baath do governo, disseram políticos iraquianos.

Mas a proposta foi atacada tanto por xiitas linhas-duras como Al Hakim, que é contrário à leniência para com os assassinos de iraquianos, quanto por políticos americanos, ultrajados com a idéia de anistia àqueles que atacaram as tropas americanas.

Isto poderá condenar o plano de Al Maliki, disse Ayad Jamaladin, um legislador xiita moderado do comitê de reconciliação do governo. "Pessoas inocentes não precisam de anistia", ele disse. "Pessoas culpadas precisam de anistia."

Alguns líderes sunitas conservadores também estão resistindo aos esforços de Al Maliki. Políticos em Bagdá e xeques tribais em áreas rebeldes do Iraque insistem que antes que um diálogo sério possa começar, Al Maliki precisa atender a uma longa lista de exigências, que incluem a libertação de todo os detidos e o estabelecimento de um prazo para a retirada das tropas americanas. Muitos sunitas também temem que Al Maliki seja seguidor do Irã, governado por persas xiitas, e sua viagem para lá na semana passada incitou ainda mais preocupações.

"Com quem devemos nos reconciliar?" disse o xeque Muhammad Saleh al Bajari, um porta-voz das tribos em Fallujah, a fortaleza árabe sunita. "Com aqueles que trouxeram a ocupação e mataram e destruíram o futuro deste país?"

*David Sanger, em Washington; Abdul Razzaq al Saiedi e Khalid al Ansary, em Bagdá; Paul von Zielbauer, em Taji; e um funcionário iraquiano, em Fallujah, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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