UOL Notícias Internacional
 

20/09/2006

Presidentes divergem sobre o poder americano e objetivos do Irã

The New York Times
Jim Rutenburg e Helene Cooper

na Organização das Nações Unidas
O presidente Bush e o presidente Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, separados algumas horas mas oceanos de perspectivas, confrontaram-se na ONU na terça-feira (19/9) sobre as ambições nucleares e o papel do outro no mundo.

Os dois líderes fizeram os discursos inicial e final da Assembléia Geral, mas pareceram ignorar o outro. Enquanto isso, diplomatas europeus e americanos continuaram o trabalho delicado de estabelecer termos para negociações com o Irã sobre seu programa de enriquecimento do urânio.

Falando perto da hora de maior público na televisão, Ahmadinejad, sem
gravata e vestindo seu paletó claro esportivo característico, acusou os
EUA -apesar de evitar dizer o nome diretamente- de hegemonia e hipocrisia e disse que não parecia haver vontade política ou habilidade para deter a violência no Iraque.

O presidente do Irã disse que sua nação estava buscando apenas um programa nuclear pacífico, e que os EUA sim estavam usando suas armas nucleares para intimidar o mundo. Ele disse, repetidamente, que o Conselho de Segurança da ONU estava endividado demais com os EUA para controlá-lo.

"Excelências, a questão precisa ser colocada: se os governos dos EUA ou do Reino Unido cometerem atrocidades ou violarem a lei internacional, qual das organizações das Nações Unidas poderá responsabilizá-los?" disse Ahmadinejad.

De manhã, Bush fez um apelo direto ao povo iraniano na ONU, dizendo-lhes que seus líderes estavam enganando-os sobre as intenções dos EUA enquanto usavam o tesouro nacional para patrocinar terroristas e construir uma bomba.

"Vocês merecem a oportunidade de determinar o próprio futuro", disse Bush durante o discurso de quase 20 minutos que marcou a sessão inaugural da Assembléia Geral. "O maior obstáculo para este futuro é que seus governantes escolheram negar a vocês a liberdade e (decidiram) usar os recursos de sua nação para patrocinar o terrorismo, alimentar o terrorismo e tentar construir armas nucleares."

Foi um raro momento de teatro diplomático entre Bush e um de seus principais inimigos no Oriente Médio, um homem cuja nação está cada vez mais se afirmando na região central na política externa de Bush -e cujo programa nuclear é assunto de profunda preocupação para as autoridades americanas, européias, chinesas e russas, que estão tentando contê-lo.

Ahmadinejad manteve-se discreto durante o dia, gerando um clima de
antecipação para seu discurso que, por causa de atrasos na programação,
começou perto do pico de audiência.

O Irã está violando o prazo dado pela ONU para interromper sua produção de energia nuclear. A referência repetida de Ahmadinejad ao que ele chamou de falta de "legitimidade" do Conselho de Segurança pareceu estabelecer o cenário para o Irã argumentar que o conselho não tinha autoridade para impor sanções contra Teerã.

Ahmadinejad alternativamente referiu-se aos EUA como "os ocupadores" (quando falou do Iraque), "os grandes poderes" (quando se referiu ao Conselho de Segurança) e "mestres e governantes do mundo todo" (disse com menosprezo quando se referiu ao desequilíbrio entre poderes mundiais e outras comunidades).

Ele criticou os EUA por não pedirem um cessar-fogo durante o impasse entre Israel-Hezbollah no Líbano neste verão. "Aparentemente, o Conselho de Segurança só pode ser usado para garantir o direito dos grandes poderes", disse o presidente iraniano. "Quando os oprimidos" são alvo, disse ele, "o Conselho de Segurança deve permanecer distante e nem mesmo pedir um cessar-fogo."

Durante seu discurso, Bush reiterou o pedido que o Irã suspenda seu programa de enriquecimento do urânio, mas acrescentou: "Apesar do que o regime diz, não temos objeção ao Irã ter um programa de energia nuclear verdadeiramente pacífico."

Bush fez suas observações horas antes de Ahmadinejad dirigir-se à Assembléia Geral, criando uma expectativa de uma guerra de palavras no final do dia, enquanto diplomatas europeus e americanos continuavam buscando estratégias para deter as ambições nucleares iranianas.

Apesar de muitos imaginarem que Ahmadinejad e Bush talvez se encontrassem dentro do complexo da ONU, Ahmadinejad não estava no prédio para o discurso de Bush e não participou do almoço promovido pelo secretário-geral Kofi Anan.

Não ficou claro qual parcela do público iraniano teria condições de ouvir a mensagem de Bush, já que o Estado controla rigidamente a mídia no país.Muitos habitantes têm antenas parabólicas, mas o governo recentemente começou uma campanha para confiscá-las; muitos também têm acesso à Voz da América em persa.

Em um discurso redigido para consumo externo e interno, Bush defendeu sua política externa, exortando os líderes mundiais presentes a unirem-se a ele em seu objetivo de transformar o Oriente Médio promovendo a democracia.

"De Beirute a Bagdá, as pessoas estão escolhendo a liberdade", disse Bush. "E as nações reunidas nesta câmara também devem fazer uma escolha: vão apoiar os moderados e reformistas quê estão trabalhando por mudança no Oriente Médio, ou vão entregar o futuro para terroristas e extremistas?"

Assessores disseram que o discurso era em essência o "final" da série de
discursos de Bush deu nas últimas duas semanas, que pretendia voltar a
atenção dos americanos para as ameaças de terrorismo e os esforços do
governo de combatê-lo. Falando ao que chamou de "Oriente Médio mais amplo", Bush disse: "Extremistas em seu meio disseminam propaganda alegando que o Ocidente está em guerra contra o islã. Essa propaganda é falsa, e seu propósito é confundir você e justificar atos de terror."

O presidente Jacques Chirac, da França, reuniu-se com Bush na terça-feira e prometeu continuar trabalhando unido na questão do Irã. Chirac minimizou comentários feitos na segunda-feira, que foram interpretados como um claro rompimento com Bush, quando ele indicou que as negociações poderiam começar sem a suspensão do enriquecimento que os EUA exigem como condição para as negociações.

Ainda assim, em um sinal da difícil batalha que espera os EUA enquanto tenta manter unida sua coalizão para controlar as ambições nucleares do Irã, houve poucas referências a sanções contra o Irã. Membros do governo Bush tinham inicialmente previsto um avanço da resolução de sanções nesta semana. Chirac não emitiu a palavra "sanções" durante seu discurso à Assembléia Geral, repetidamente enfatizando a necessidade de diálogo, enquanto o Irã continua a resistir aos pedidos de suspensão do programa nuclear.

Autoridades americanas disseram estar dispostas a aceitar um
acordo no qual interroperiam o movimento pelas sanções no Conselho de
Segurança assim que os iranianos parassem seu programa de enriquecimento. Mas uma alta autoridade do governo Bush advertiu na terça-feira que não há garantias que o Irã concordará. Deborah Weinberg

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