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21/09/2006

O poder de uma imagem move o filme de Eastwood

The New York Times
David M. Halfbinger

em Los Angeles
A temporada do Oscar está apenas começando, mas só pelas credenciais já há um possível líder: "Flags of Our Fathers" de Clint Eastwood. Um épico da Segunda Guerra Mundial, o filme gira em torno dos homens que hastearam a bandeira em Iwo Jima e começou a ser apresentado para alguns jornalistas nesta semana em Nova York.

Os dois últimos filmes de Eastwood, afinal, foram "Sobre Meninos e Lobos", indicado ao prêmio de melhor filme e melhor direção em 2004, e "Menina de Ouro", que venceu as duas categorias em 2005. Paul Haggis, que escreveu o roteiro de "Flags of Our Fathers" também escreveu o de "Menina de Ouro" e foi co-autor do roteiro que venceu o Oscar pelo melhor filme do ano passado, "Crash". Ainda por cima, um dos produtores do filme é Steven Spielberg, cujas condecorações de batalha incluem Oscar por "O Resgate do Soldado Ryan" e Emmys para a minissérie "Band of Brothers".

Se "Flags of Our Fathers" vai ser um sucesso caberá ao público e aos votantes do Oscar. Mas já está surgindo como candidato para melhor história por trás das cenas.

"Flags of Our Fathers" não era uma empreitada simples. O filme, que estreará no dia 20 de outubro, é um grande espetáculo que atravessa oceanos e gerações. Como boa parte da história acompanha os sobreviventes do grupo que hasteou a bandeira enquanto cruzava o país na primavera e verão de 1945 promovendo laços de guerra para um governo em situação financeira desesperada, não é um filme puramente de guerra, nem, dadas suas amplas e atormentadoras seqüências de combate, meramente um drama. Ele examina o poder que tem uma única imagem de afetar não só a opinião pública, mas também o resultado de uma guerra -seja em 1945, no Vietnã ou mais recentemente.

Acima de tudo é um estudo sobre a forma dura pela qual heróis são criados para consumo do público, usados e descartados, tudo com a cooperação da mídia. E está imbuído de suficiente crítica de políticos e militares americanos para levantar suspeitas de que Hollywood esteja se apropriando da iconografia da Segunda Guerra para expor pontos políticos contemporâneos. Ainda assim, justo quando parece culpar as pessoas responsáveis pela exploração das tropas, o filme se volta para o ponto de vista delas.

E mais, em um feito raro e audacioso de produção e distribuição de cinema, "Flags of Our Fathers" foi produzido junto com um outro que o acompanha, "Letters From Iwo Jima", também dirigido por Eastwood e contado inteiramente da perspectiva japonesa, em japonês. Os dois filmes serão lançados com poucos meses de distância, por dois estúdios concorrentes e o que resta de um terceiro: A Paramount, que comprou a DreamWorks SKG no ano passado, está lançando "Flags" nos EUA enquanto a Warner Brothers deve lançar "Letters" nos EUA e os dois filmes no exterior.

Eastwood de fato queria fazer um filme de "Flags of Our Fathers" depois que o popular livro de James Bradley e Ron Powers foi publicado em maio de 2000.

Mas Spielberg adquiriu os direitos naquele verão e, no início de 2001, entregou sua adaptação ao roteirista William Broyles Jr., ex-Marine que também adaptou "Soldado Anônimo". Os dois passaram mais de dois anos colaborando em quatro versões, disse Broyles, mas Spielberg, ainda insatisfeito, colocou o projeto de lado em 2003.

Em fevereiro do ano seguinte, na noite de entrega do Oscar de 2004, Eastwood e Spielberg conversaram no Baile dos Governadores após a premiação, e Eastwood foi trabalhar na manhã seguinte dizendo que Spielberg o havia convidado a assumir o projeto, disse Rob Lorenz, produtor da Malpaso, produtora de Eastwood.

Eastwood estava fazendo a pré-produção de "Menina de Ouro" e pediu a Haggis que atacasse "Flags of Our Fathers" enquanto isso. Haggis disse que encontrou uma forma de contar três histórias: sobre os meses de treinamento anteriores à invasão e a batalha por Iwo Jima; do movimento para angariar recursos e seus efeitos nas vidas dos sobreviventes do grupo que hasteou a bandeira; e da descoberta por James Bradley sobre o passado de seu pai falecido como um dos três mais famosos heróis da Segunda Guerra.

"Queria falar do preço que custa para um homem, ou uma pessoa, ser rotulado como herói, e como isso pode destruí-lo", disse Haggis em recente entrevista. "Especialmente agora, quando parecemos ter uma necessidade de heróis e parece que estamos criando heróis e vilões."

Haggis entregou uma primeira versão no final de outubro de 2004 e, com poucas revisões, Eastwood filmou o roteiro. Mas depois de ler tudo o que pôde sobre a batalha, o diretor quis contar mais sobre Iwo Jima. "Ele queria mostrar os dois lados, portanto a perspectiva japonesa", disse Haggis.

Quando Eastwood soube da existência do general Tadamichi Kuribayashi, comandante japonês cujas cartas para casa revelavam um homem certo de que morreria antes de rever sua família, ele propôs fazer um segundo filme. Spielberg e executivos da Warner Brothers, estúdio de Eastwood, rapidamente deram seu apoio.

Eastwood, que se recusou a tecer comentários para esta matéria, queria gravar os dois filmes juntos, disse Lorenz, mas o tempo e outras preocupações práticas impediram-no. Ainda assim os produtores conseguiram certa economia de escala. "Flags of Our Fathers", que custou US$ 90 milhões (cerca de R$ 198 milhões), foi filmado em 2005, principalmente na Islândia, onde as praias de areia preta são substitutas adequadas para as de Iwo Jima.

E "Letters From Iwo Jima", um filme muito mais modesto, de US$ 20 milhões (aproximadamente R$ 44 milhões), incluirá algumas das cenas de invasão feitas para "Flags".

Apesar de grande parte de "Letters" ter sido filmada no Sul da Califórnia, Eastwood fez uma viagem para Iwo Jima em abril de 2005. A ilha era remota demais para enviar uma produção grande. Mas ele recebeu permissão para voltar em abril deste ano com uma pequena equipe e Ken Watanabe, ator que faz o papel de Kuribayashi em "Letters", para filmar no sopé do Monte Suribachi, disse Lorenz.

Haggis disse que ele e Eastwood tinham tomado cuidado ao fazer este filme, por causa da guerra no Iraque. "Temia que o filme fosse visto como uma forma de justificar esta guerra", disse Haggis.

Ele disse que Eastwood queria evitar romancear a Segunda Guerra, como fizeram tantos filmes antigos. Um resultado disso foi a decisão de escalar atores mais jovens. "O que Clint queria explorar era o fato que esses meninos tinham 18, 19 anos, e tinham que fazer decisões terríveis. E que mesmo em boas guerras, os horrores que a pessoa testemunhava e tinha que perpetrar ficariam com a pessoa para sempre."

Pela mesma razão, disse Haggis, o combate em "Flags of Our Fathers" é particularmente medonho, com muitos membros voando, intestinos vazando e soldados japoneses se explodindo para não se renderem e uma cabeça cortada caindo.

Essa brutalidade foi em grande parte escondida do público americano na época, como é agora, disse ele. "Não vemos corpos. Tudo é esterilizado."

Lorenz disse que não se deve assistir o filme por uma lente política, muito menos partidária. "Não estamos tentando fazer uma espécie de declaração política, nem tínhamos alguma pretensão", disse ele. "Acho, porém, que é um filme que pode servir ao país agora."

Broyles disse que via bastante ressonância entre a história e eventos atuais, até certo ponto. "Veja Jessica Lynch", disse ele, "O que realmente aconteceu com ela não se encaixou nas manchetes dos jornais. Há muitas histórias que não chegam à imprensa, mas os meninos lá são verdadeiros heróis." Ele acrescentou: "O importante é apresentar o que de fato aconteceu em 1945, sem fazer alusões sobre o que está acontecendo em 2006, e as pessoas podem tirar suas próprias conclusões sobre o paralelo."

Haggis disse que fez questão de subverter qualquer imagem unidimensional dos políticos e generais, como se estivessem explorando injustamente os Marines que voltavam. Então, em uma cena crucial, um político diz ao grupo sobrevivente que sua encenação grosseira do levantamento da bandeira, apesar de infiel às memórias de seus camaradas caídos, foi vital para unir a nação em um momento em que o governo estava quase quebrado.

O resto da história: O presidente Harry S. Truman desafiou-os a levantar US$ 14 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) em dois meses. Eles conseguiram quase o dobro. Deborah Weinberg

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