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22/09/2006

Budapeste está roubando um pouco da cena de Praga

The New York Times
Por Rick Lyman
Somente alguns murmúrios ocorreram na chegada no badalado Café Vian de mais ou menos uma dúzia de escoceses vestindo saiotes kilt, rapazes entre seus 18 e vinte e poucos anos, junto com o que parecia ser o treinador deles, também usando traje em tecido quadriculado tartã. Pediram uma rodada de doses de vodka e irromperam em gritos de guerra típicos da Highland escocesa, atraindo olhares preocupados vindos de clientes que sorviam doces coquetéis multicoloridos nas mesas por perto. Até que o jovem e magrelo garçom que atendia os escoceses pediu para que eles se acalmassem. "Esse aqui não é um bar de torcedores de futebol", disse.

Andrew Testa/The New York Times 
Nagyvasarcsarnok, Mercado Central na margem Peste, é hoje um lugar luminoso e dinâmico

Diferentes culturas vêm se chocando em Budapeste já há muitos séculos, e em condições normais isso não beneficia a Hungria. Mas depois de tantas ondas de ocupação, de tirania e revoltas heróicas, o país se tornou um dos poucos lugares na terra que aprendeu o truque de transformar esses conflitos em música. Antiga capital real incrivelmente bela e vividamente subversiva, Budapeste já há uns dez anos vinha sofrendo por estar à sombra de Praga, que emergiu mais rapidamente como um destino turístico após a era comunista. Por exemplo, no romance best-seller de 2002 "Prague", de Arthur Phillips, a história é sobre exilados em Budapeste que sonham ter uma vida melhor além da fronteira com a República Tcheca.

Mas os investimentos externos que apenas respingaram em Budapeste nos anos oitenta agora resultam em hotéis vibrantes, novíssimos e ostensivos, em butiques de marcas luxuosas como Salvatore Ferragamo e Louis Vuitton e em borbulhantes bairros com vida noturna e ruas para pedestres e bares enfumaçados, cheios de grafites satíricos e políticos. Budapeste parece pronta para o sucesso.

Por mais de uma década - desde que circunstâncias de trabalho me levaram até lá - Budapeste tem sido um dos meus lugares favoritos na Europa. Quando eu a conheci pela primeira vez, a cidade tinha acabado de sair do colapso soviético, e era um lugar ansioso cheio de prédios tristes, mercados escuros, boates improvisadas, violinistas ciganos e vários restaurantes servindo pouco mais que goulash. Em Buda, a antiga capital aristocrática no lado ocidental, bicicletas navegavam por ruas quase desertas, pavimentadas por pedras arredondadas. Caviar russo e foie gras húngaro podiam ser adquiridos por um preço irrisório.

Quando um jornal local anunciou a chegada de um filme de Hollywood já velho de seis meses ("Sneakers," com Robert Redford), eu resolvi pegar um bonde meio caindo aos pedaços até o sopé das montanhas de Buda Hills e descobri uma velha garagem com um lençol branco dependurado de uma parede de tijolos, com poucas e felizes famílias sentadas em bancos de madeira, desempacotando seus jantares. O projetor fazia um barulho terrível. Todos estavam se divertindo muito, rindo e comendo, e depois dessa eu voltei andando para o meu hotel a beira do Danúbio pelas ruas escuras de Buda.

Quando eu voltei lá, nesse ultimo verão, descobri uma cidade muito modificada, e não apenas pelas cadeias multiplex de cinemas. Budapeste, com uma população de mais de 1,7 milhão de habitantes, ainda tem uns bairros na periferia sujos e em condições precárias. Em compensação, o Nagyvasarcsarnok, Mercado Central na margem Peste da cidade, é um lugar luminoso, dinâmico, cheio de estandes bem aromáticos, onde se vende páprica e vinhos Tokaji suaves. Os cafés nas calçadas estão bem animados, com fashionistas em busca de pechinchas, casais se acariciando e um alegre tagarelar em vários idiomas. No lado Buda, ônibus turísticos aportam em bandos, desembarcando caçadores de paisagens do mundo inteiro.

Sim, o goulash - aquele antigo refogado camponês com carne cozida, legumes e páprica - ainda está em praticamente todos os cardápios, mas eu também encontrei pratos da cozinha internacional com bons preços. Só que onde antes podia se comprar um pote de foie gras por US$ 5, bom para empanzinar quatro adultos, agora umas poucas provinhas de aperitivo valem o triplo desse valor.

Um verdadeiro embate de forças está transformando Budapeste numa das capitais mais alegres, bonitas e animadas da Europa. Preços convidativos, especialmente no que diz respeito à habitação, provocaram uma mini-invasão de estrangeiros, que constroem seus segundos lares fazendo reformas em elegantes prédios de apartamentos do século 19 no centro de Peste. Cadeias varejistas do mundo inteiro também foram atrás, junto com hoteliers e outros empresários do comércio.

O afluxo de capital externo e a elevação do padrão de vida dos moradores de Budapeste, que tiveram a sorte de ainda pegar essa onda, ajudaram a cidade a reformar vários prédios magníficos que estavam em ruínas, do espetacular Gresham Palace, construído ao estilo da Guerra da Secessão - agora é um Hotel Four Seasons - a pérolas menos conhecidas, como a Egyetemi Konyvtar (Biblioteca Universitária), que parece um pálido bolo de casamento em redemoinho, e os impressionantes prédios espelhados Klotild-Palotak, cujas imponentes torres barrocas se elevam feito sentinelas aos pés da Ponte Elizabeth."Há dez anos, você vinha a Budapeste e era tudo barato, um tanto precário e tudo o que se pagava era em dinheiro vivo", diz Colin Burns, que visitava a cidade pela quarta vez com seu coro de música do país de Gales. "Agora está tudo moderno, com cartões de crédito e restaurantes sofisticados. A comida italiana daqui é melhor do que lá em Gales."

Mas também ocorreram equívocos. O New York Café, já há algum tempo um centro da vida intelectual da Hungria, era um salão absurdamente grande e enfumaçado onde os clientes pareciam saídos de um romance policial de Eric Ambler. Agora se transformou numa confeitaria berrante anexa a um hotel presunçoso. O imenso e imensamente popular shopping Westend Center é um arco insípido de vidro-e-aço cheio de lojas que se estende por trás da altiva estação ferroviária de Nyugati, criada por Gustav Eiffel.

Ainda que exóticos, elementos distintos contribuem para a atmosfera de dinâmica rebeldia. Um mercado subterrâneo de roupas baratas e de maus CDs se estende indefinidamente pelo shopping no andar de cima, como um registro de uma cultura oriental mais antiga que se recusa a ser absorvida totalmente pela brandura do estilo americano. Grandes e chamativos cassinos a beira das calçadas ficam à vontade ao lado de butiques e livrarias.

País-membro da União Européia desde 2004, a Hungria ainda usa sua velha moeda, o forint, e somente seus economistas mais otimistas se atrevem a acreditar numa conversão para o euro até 2010. Os déficits orçamentários estão contundentes, depois de anos de gastos excessivos efetuados pelo governo socialista húngaro, que foi reeleito em abril. Ao mesmo tempo, os salários subiram e a qualidade de vida melhorou consideravelmente, pelo menos para alguns.

Essas novas butiques sofisticadas e os cafés elegantes não servem apenas para os estrangeiros. Minha mulher, Barbara, e eu dividimos essa viagem em duas partes: primeiro com duas noites em Buda, com seus palácios do período Habsburgo com abóbadas e fortificações cheias de muralhas se espalhando pelas ásperas encostas ao oeste do Danúbio, e duas noites em Peste, o mais populoso entreposto comercial do século 19, com grandes avenidas ao leste do rio.

Andrew Testa/The New York Times 
Os cafés de Budapeste estão cada vez mais sofisticados e não servem somente aos turistas

O turismo está em alta na Hungria, tendo aumentado cerca de 7 por cento em 2005 em relação a 2004, de acordo com o Escritório Húngaro de Turismo. Mas fugir das multidões ainda é bem simples. Em Buda, enquanto os turistas se concentravam na área do Morro do Castelo de Budapeste (Castle Hill), nós encontramos a vida cotidiana no grande shopping e mercado perto da praça Moscou.

Mães vestindo jeans azuis muito bem penteadas empurravam carrinhos de bebê por entre estreitos corredores de barracas de pimentas e repolhos, enquanto homens mais velhos e cansados, usando camisas cinzas e lenços, bebericavam vinho tinto em copos sem haste em balcões ali por perto. Uma mulher mais velha empurrando um carrinho de metal parou para gritar com um jovem casal que havia estacionado sua Mercedes conversível ilegalmente. Eles sorriram para ela de maneira cínica e se afastaram a passos largos.

Até mesmo em plena badalação da região de Castle Hill, as multidões ficam menores quando você se afasta da igreja Matthias, que tem seus elementos arquitetônicos originais do século 16, quando era uma mesquita. A igreja tem também elementos do século 17, quando nela foi construída uma fachada barroca, e do século 19, quando a concepção gótica celebrou a supremacia dos Habsburgo.

Há dez anos, eu tive uma refeição memorável aos pés de Castle Hill, com ciganos errantes executando Brahms num local chamado Kacsa Vendeglo, que parecia não ter alterado seu cardápio nem sua decoração desde a Primeira Guerra Mundial. Nessa visita, encontramos um violinista mais moderno, ainda tocando Brahms, embora ele tenha acrescentado Billy Joel e estivesse vendendo seus CDs.

As toalhas de mesa eram brancas e o cardápio ainda apresentava um antiquado panorama pelos pratos típicos da Hungria, com ênfase na carne de pato (kacsa em húngaro) numa imensa variedade de formas. Esse lugar decididamente está em descompasso com o lado mais moderno de Budapeste, onde há toda uma tendência à fusão, em lugares com nomes como Baraka,Kepiro e Voro es Feher Borbar (Wine Bar Vermelho e Branco).

Do outro lado do rio, em Peste, uma rua central de pedestres chamada Vaci utca abrigava os estrangeiros mais viajados, que andavam entre cantores de rua tentando lembrar onde os ônibus turísticos estavam estacionados. Duas amplas avenidas semicirculares, o Anel Interior e o Anel Exterior, terminam nas pontes do Danúbio e definem o que é a região central de Peste.

Os habitantes locais podem ser encontrados todos os dias em shoppings ao estilo americano, ao longo do Anel Exterior, ou então numa das novas regiões comerciais apenas para pedestres, lembrando Vaci Utca, que agora estão espalhadas pela cidade e que funcionam como pólos da vida urbana nas ruas em Budapeste. Um dos maiores pólos, Raday utca, um pouco ao leste do Grande Mercado Central, é composto de cinco quarteirões com mesas na calçada, restaurantes multiétnicos e bares com música vibrante.

"Nós viemos de Viena de barco, passeamos o dia inteiro e adoramos o que encontramos aqui", diz Carlos Hererra, que administra uma loja de design perto de Los Angeles e que bebia um copo comprido de cerveja de trigo num café de Raday Utca. "Só de ficar sentado aqui por uma hora já ouvi mais línguas estrangeiras do que em três dias na Áustria ou em toda minha vida em Orange County." Turistas e nativos se misturam no Grande Mercado Central, onde os compristas devem se preparar para pechinchar. O preço de uma lata de 400 gramas de foie gras variava de US$ 37 a US$ 45, dependendo da barraca.

No segundo piso do mercado fica uma série de mini-cafés bem econômicos, oferecendo cerveja alemã, vinho húngaro e uma variedade de lingüiças, tortas, sanduíches e cozidos a base de páprica. Nas minhas primeiras visitas a Budapeste, sempre encontrava com outros visitantes que tinham acabado de chegar de Praga ou que então estavam indo para a capital tcheca. Já dessa última vez, a maior parte dos turistas que encontramos estavam visitando apenas Budapeste ou então haviam chegado de Viena num dos cruzeiros pelo Danúbio que agora conectam as duas velhas capitais do Império Austro-Húngaro.

Uma novidade dos últimos anos, os barcos fluviais pareciam bem emblemáticos - como se demonstrassem uma indiferença pelo passado de meados do século passado, onde as ligações principais eram com lugares como Praga e Cracóvia, para refletir uma relação mais antiga e durável. Um casal que encontramos, viajantes vindos de San Diego e recém-saídos de um barco fluvial, disseram estar maravilhados com o movimento nas ruas de Budapeste e com a comida - e também com os seus preços, significativamente mais baixos do que os que eles encontraram em Viena.

A maior parte das cidades tem personalidades distintas para o dia e para a noite. Mas o contraste em Budapeste parece especialmente acentuado, quase como se uma geografia e personagens totalmente diferentes se revezassem por lá. O Danúbio pulsa como uma espécie de smorgasbord flutuante com vários barcos ancorados - num deles serve-se jantares com jazz, outro é uma vibrante discoteca, e outro é um tranqüilo restaurante de frutos do mar. Lugares como Raday Utca e a Praça Liszt, bem perto da elegante Avenida Andrassy, atraem multidões de mais jovens, chics e estridentes. Muitas vezes um club que atrai jovens ansiosos da turma dos vinte e poucos anos surge do nada, de uma rua escura do lado Peste, e uma tímida luz na porta principal sinaliza para um escondido emaranhado de salões e jardins iluminados por lanternas.

Para eleger um símbolo da quantidade de mudanças ocorridas em Budapeste, uma primeira escolha óbvia seria a Praça Roosevelt, aos pés da Ponte da Cadeia. Anteriormente dominada por enormes prédios antigos e pelo estatizado Forum Hotel (que agora é um Inter-Continental), ela agora é dominada pelo Gresham Palace e por um cassino de mau gosto, cheio de limusines na porta.

Hoje em dia, se você for procurar pelo coração da cidade eu diria que é provável que ele esteja na Praça Lizst Ferenc. É aonde nós encontramos o Cafe Vian, onde o choque de culturas em Budapeste tem um som especialmente doce. A jovem multidão no local, inebriada pelos coquetéis doces e gritando para ser ouvida, era salpicada por algumas fisionomias mais antigas, a maioria acabando de ouvir Stravinsky e Gulda na venerável Zeneakademia, a poucos passos dali.

O Teatro de Ópera estatal tinha um concerto de Wagner naquela noite, "Die Meistersinger von Nürnberg", e era difícil saber quando mais uma multidão iria chegar e em que estado mental eles estariam. Talvez um generoso prato de galinha com páprica, por US$ 9, ou uma porção de tagliatelle, por US$ 7,25, os ajudasse a remover da cabeça o clima wagneriano e os transportasse de volta para Liszt, para onde eles pertencem. Quem sabe até eles não poderiam dividir uma rodada de bebidas com o time escocês de futebol, partindo do princípio que todos poderiam jogar bem juntos.

COMO CHEGAR LÁ

A companhia aérea Malev Hungarian Airlines (www.malev.hu) e a Delta Airlines têm vôos sem escalas entre Nova York e o aeroporto Ferihegy. Uma pesquisa pela Internet indicou, para o final de setembro, viagens de ida e volta nesse percurso a partir de US$ 840. Uma corrida de táxi do aeroporto até o centro de Peste, onde a maioria dos hotéis está localizada, custa aproximadamente 4,000 forints, incluindo uma pequena gorjeta, valendo tudo US$ 18, a 220 forints o dólar, cerca de R$ 40. Mas alguns motoristas podem cobrar cerca de 6.000 forints se você não barganhar.

PELA CIDADE
Um passe metropolitano válido por três dias (por 2,500 forints) dá livre acesso a todas linhas do metrô e aos bondes. Por 6,500 forints, um Cartão Budapeste válido por três dias dá descontos para museus, atrações e restaurantes. Veja em www.budapestinfo.hu/en/budapest_card.

ONDE FICAR
No Corinthia Grand Hotel Royal (Erzsebet korut 43-49; 36-1-479-4000;www.corinthiahotels.com), telhados de vidro pontiagudos encobrem pátios em luxuosas instalações internas. O preço dos 414 quartos começa a partir de 40.680 forints. Nas imediações está o Boscolo New York Palace Hotel (Erzsebet korut 9-11; 36-1-886-6111; www.boscolohotels.com), ainda mais resplandecente e dourado que o Corinthia. Esse hotel tem 107 quartos, com preços a partir de 50.000 forints. O mitológico NewYork Café está lá por perto. O principal hotel da cidade, o Four Seasons Gresham Palace, com 179 quartos na praça Roosevelt (36-1-268-3000; www.fourseasons.com/budapest), é puro luxo e sofisticação. O preço dos quartos começa em 87.000 forints. Na margem Buda do Danúbio, o totalmente moderno Art'otel (na Bem rakpart16-19; 36-1-487-9487, www.artotel.hu ), apresenta vistas deslumbrantes da Ponte da Cadeia e do ornado prédio do Parlamento, ficando bem perto do Moro do Castelo. O preço dos 164 quartos começa a partir de US$ 184, e a partir de US$ 242 encontra-se quartos com vista para o rio. Marcelo Godoy

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