UOL Notícias Internacional
 

22/09/2006

Elite chinesa busca dar um impulso em seus filhos na estrada para o sucesso

The New York Times
Howard W. French
em Xangai
Toda quarta-feira, neste verão, Rose Lei levou sua filha, Angelina, 5, a um complexo de golfe fora do centro de Xangai, para uma aula particular de duas horas por US$ 200 (em torno de R$ 440) com um profissional escocês.

Mas agora que começou o ano escolar, a pequena Angelina terá que cortar as aulas de golfe, limitando-se a sessões de finais de semana em uma pista local. Além de sua rotina escolar puxada, ela freqüentará a FasTracKids, uma academia para crianças a partir de 4 anos que se anuncia como um programa de MBA infantil.

 Ariana Lindquist/The New York Times 
Crianças chinesas em uma aula da FasTracKids, onde cursam uma espécie de MBA infantil

Lei, 35, ex-especialista de tecnologia da informação e mulher de um próspero executivo de propaganda em jornal, é parte de uma nova geração de pais afluentes que está buscando cuidadosamente formas de cimentar o lugar de seus filhos na elite em rápido crescimento.

Há uma geração, quando as pessoas ainda se vestiam de uma só cor e era geralmente ilegal adquirir grande riqueza privada, a rota ao sucesso era entrar para a organização jovem do Partido Comunista ou uma das melhores universidades.

Agora a competição começa cedo, e a ênfase não é em ideologia, mas nos talentos e experiências que as crianças vão precisar para vida de elite que se espera delas. Além do treinamento em golfe desde pequenos, que se tornou muito popular, pais afluentes estão inscrevendo seus filhos em toda espécie de cursos, desde balé e música até hipismo, patim no gelo, esqui e pólo.

O intenso interesse em cursos de estilo de vida fala não só da preocupação dos pais com o futuro dos filhos, mas também de uma sensação geral de insegurança social entre os novos ricos chineses.

"Essas pessoas são ricas financeiramente, mas não têm modos básicos e não gostam muito dessa fama", disse Wang Lianyi, especialista em estudos comparativos culturais da Academia Chinesa de Ciências Chinesas em Pequim. Dos 35 milhões de chineses que viajaram ao exterior no ano passado, disse ele, muitos ficaram chocados em descobrir que eram considerados mal educados.

Para tratar dessa questão, alguns dos novos ricos, como Lei, estão enviando seus filhos para longas estadias no exterior. Londres e Nova York são escolhas particularmente populares, porque as crianças têm a vantagem de aprender inglês com sotaque ocidental.

Outros estão se inscrevendo em escolas de boas maneiras que surgem aqui e ali na China com a promessa de treinar os jovens para se tornarem damas e cavalheiros na mais alta tradição ocidental.

O mais famoso desses programas é dirigido por uma mulher japonesa franca, June Yamada, que cobra cerca de US$ 900 (em torno de R$ 2.000) por um curso de duas semanas que inclui uma breve estadia em um hotel de cinco estrelas.

Os adolescentes têm que se banhar antes do jantar, tomar chá da tarde, usar roupa formal e reaprender a andar, comer, dançar e a lidar educadamente com membros do sexo oposto.

"Não ensino a eles o que fazer e o que não fazer, ensino as meninas a serem mulheres e os meninos a serem homens", disse Yamada, ex-colunista da moda que também publicou um livro sobre etiqueta. "Provavelmente somos a escola mais cara de Xangai, mas ninguém está reclamando, e os clientes continuam voltando, então devemos estar fazendo alguma coisa certa."

Yamada disse que insistia que ao menos um dos pais participasse das aulas com os filhos, "porque se o pai está cuspindo sementes de melancia ou ossos de galinha em casa, de que servem todas as coisas finas que estamos ensinando?"

É difícil dizer quantos chineses têm dinheiro para contratar tamanha atenção para os filhos, mas as poucas pesquisas e evidências indicam que o número está em expansão. Gao Ruxi, da Universidade Jiao Tong Xangai, conduziu uma pesquisa em 2003 que mostrou que 15,4% dos 17 milhões de habitantes da cidade -cerca de 2,6 milhões- eram ricos os suficiente para terem uma casa e um carro.

Outro relatório, de um pequeno grupo de pesquisa chinês chamado Horizon, estimou que em 2003 havia 569.000 famílias ou indivíduos em Xangai com bens de ao menos US$ 62.500 (aproximadamente R$ 138.000).

A FasTracKids começou em Xangai em 2004 e desde então abriu mais duas filiais na cidade e outra em Guangzhou e está planejando uma quinta em Hangzhou.

As sessões após o colégio são feitas em salas de aula vivamente decoradas, onde menos de uma dúzia de crianças, em geral de 4 ou 5 anos, aprendem com até três professores. O programa enfatiza o aprendizado científico, a resolução de problemas e, o que mais atrai muitos pais, a assertividade.

"Pais como eu estão preocupados com a China se tornando uma sociedade cada vez mais competitiva", disse Zhong Yu, 36, supervisor de manufatura cuja esposa é contadora em uma firma internacional e cujo filho de 7 anos, Yiming, foi inscrito nas aulas de MBA infantil. "Todos os dias vemos histórias nos jornais de graduados que não conseguem bons empregos. A educação na China já é boa nas principais matérias, mas quero que meu filho tenha mais criatividade, porque o conhecimento básico não é mais suficiente."

Yu disse que, apesar dos altos salários, ele e sua mulher tinham empregos muito exigentes, com pouco tempo de lazer, e que para eles o importante era que seu filho tivesse uma vida melhor que a deles.

Até certo ponto, a tendência é movida por uma conjunção de afluência crescente e a política de apenas um filho da China, que força os pais a concentrarem toda sua energia e recursos em uma única criança. Mas especialistas dizem que há mais por trás disso, que reflete um temor de uma nova espécie de selva, na qual toda a sociedade está correndo para progredir.

"No topo da pirâmide estarão os graduados excepcionalmente fortes das principais universidades americanas e européias, que se tornaram uma espécie de 'cidadãos internacionais'", disse Qiu Huadong, autor e editor da revista que escreveu sobre a nova elite. "Eles trabalham vários anos na China e depois vão ao exterior por um tempo, mudando de local a cada dois ou três anos. Na base da pirâmide estarão os que não conseguiram tal educação extraordinária, suando e sangrando para a China e a globalização."

Especialistas dizem que, para muitos, as escolas de boas maneiras, os intercâmbios para estudar idiomas no exterior e aulas de esportes como golfe e pólo são reflexos de uma sensação de insegurança social.

"Os americanos respeitam as pessoas que vieram do nada e fizeram alguma coisa, e eles também respeitam os ricos", disse Wang. "Na China, as pessoas em geral não respeitam os ricos, porque há uma sensação forte de que não têm ética. Esses novos ricos não querem só dinheiro, querem que as pessoas os respeitem no futuro."

De fato, alguns dos novos afluentes ampliaram sua busca pela respeitabilidade inscrevendo seus filhos também em atividades de caridade.

Shan Lei, dona-de-casa de 31 anos e ex-especialista em investimento cujo marido é executivo de fretes, disse que a família havia investido US$ 100.000 (em torno de R$ 220.000) em um título de clube de golfe e que a filha tinha começado a estudar o esporte, junto com piano e patinação artística. Eles também conseguiram inserir em sua agenda o trabalho voluntário com órfãos de Aids.

"Golfe é o esporte classes mais altas, mas quero que ela reconheça que existe diversidade social", disse Lei, que não é parente de Rose Lei. "Quero que ela se preocupe com os outros na sociedade."

Não há dúvidas que a força motora para a maior parte dos pais é pensar no desafio que seus filhos enfrentarão para terem sucesso em uma sociedade cada vez mais competitiva.

"Minha infância foi completamente diferente da que minha filha está passando", disse Rose Lei. "Não tínhamos coisas como FasTracKids ou golfe, e por isso queremos que ela tenha essas oportunidades." Perguntada se tinha outros motivos, como garantir a entrada da filha para as fileiras da classe afluente da China, ela não titubeou. "Sim, isso é muito importante", disse ela. Deborah Weinberg

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