UOL Notícias Internacional
 

23/09/2006

Alívio no posto, mas não nos estacionamentos das fábricas

The New York Times
Nick Bunkley

em Detroit
Justo quando a gasolina a US$ 3 por galão (em torno de R$ 1,7 por
litro) parecia que tinha chegado para ficar, ela foi embora.

Mas a alta do combustível durou tempo suficiente para devastar as fabricantes de automóveis de Detroit, convencendo muitos clientes de que menor é melhor.

Será que agora que o preço da gasolina caiu quase US$ 0,40 (em torno de R$ 0,85) no último mês, para menos de US$ 2 (ou R$ 1,15 por litro) por galão em alguns mercados, os consumidores voltarão a comprar SUVs e outros grandes veículos que têm alimentado Detroit na última década?

Por enquanto, isso é apenas pensamento positivo, de acordo com muitos revendedores e executivos do ramo.

"Estou surpreso. Achei que quando o preço da gasolina caísse para em torno de US$ 2, os negócios iam melhorar", disse Vic Bailey, 80, proprietário de um revendedor Ford em Spartanburg, Carolina do Sul, onde meia dúzia de postos de gasolina estavam cobrando em torno de US$ 1,96 na tarde de sexta-feira.

"Setembro tem sido um desapontamento desde o primeiro dia", quando a Ford ofereceu financiamento com 0% de juros em torno do dia do Trabalho, disse Bailey.

Ainda assim, um conceito simples de economia sugere que, com a queda do preço do combustível, os consumidores vão colocar menos ênfase na quilometragem por litro. Mas poucos, ou nenhum na indústria está apostando que esta última queda reparará o dano a Detroit.

"O preço teria que continuar caindo, e o declive teria que durar por ao menos três ou quatro meses antes de ter algum impacto", disse Sean McAlinden, economista do Centro de Pesquisa Automotiva em Ann Arbor, Michigan.

"Seria preciso uma queda de fato ao nível de US$ 1,50 (cerca de R$ 0,86 por litro) para começar a mudar as expectativas", explicou. "E há maior chance de ir para US$ 4 do que para US$ 1,50 no longo prazo."

O problema é que os consumidores podem ter concluído que os preços de gasolina mais altos são a regra e que qualquer queda que nos próximos meses ou anos são a exceção.

As fabricantes de carros de Detroit continuam a depender de carros grandes, a parte mais importante de sua linha. Esses produtos foram projetados anos atrás, quando US$ 3 o galão ainda era impensável.

Em agosto, uma pesquisa da revista Consumer Reports, revelou que a economia de combustível tinha se tornado a questão mais importante para os compradores, acima da confiabilidade, preço e segurança. Muitas das pessoas que pensam assim procuram marcas japonesas, Toyota e Honda, que passaram décadas aprimorando sua fama de produzir veículos de alta qualidade e economia.

Em 2002, o ano de maior venda de SUVs, somente 22,7% dos possíveis compradores disseram que a economia de combustível era importante ao considerarem qual carro comprar, de acordo com a CNW Marketing Research, em Oregon, que estuda os hábitos dos consumidores.

Em 2005, 61,3% dos compradores classificaram a economia de combustível como importante. E, no primeiro trimestre deste ano, depois do furacão Katrina, mas antes da alta de preços desde ano, esse número aumentou para 64%, segundo os dados da CNW.

As vendas de SUVs, um mercado há muito dominado por Detroit, mergulharam 18% neste ano até agosto, depois de queda de 15% no ano passado, segundo as estatísticas da indústria. Em 2003 e 2004, quando a gasolina custava menos de US$ 2 por galão, os declínios foram de apenas um dígito.

Nenhum dos 15 carros mais vendidos em agosto eram SUVs tradicionais. As vendas do Ford Explorer, a SUV mais popular durante anos, estão um terço mais baixas que em 2005.

No ano passado, depois do Katrina, foi a primeira vez que a maior parte do país pagou US$ 3 por galão, apesar de a Califórnia ter visto preços neste nível rotineiramente durante esta década.

Mas neste ano os preços pularam novamente, sem furacão para culpar, e Detroit compreendeu que seus dias de belos lucros com vendas de SUVs não devem voltar.

"Há uma nova realidade", disse o analista de vendas da Ford Motor Co., George Pipas, admitindo que a empresa não espera mais uma recuperação do mercado de SUVs. Nesta altura, pode-se apenas esperar que o preço da gasolina permaneça baixo o suficiente por tempo suficiente para impedir que a venda de caminhonetes pequenas caia tão rapidamente, disse Pipas.

"Se o preço da gasolina estabilizar-se nos níveis de hoje, acho que poderemos ver uma volta dos declínios mais lentos que experimentamos em 2003 e 2004", disse ele. "Ainda vemos esta categoria caindo mais, independentemente do que aconteça com o preço dos combustíveis. Acreditamos que o principal fator dessa mudança seja demográfico, que a geração do baby boom está reduzindo de tamanho, mas que os preços altos do petróleo apressaram a tendência."

Na sexta-feira (22/9), um galão de gasolina comum custava em média US$ 2,44, de acordo com a AAA. Isso é 47% menos que um mês atrás -ainda assim alto por padrões históricos.

O alívio no posto de gasolina acontece enquanto a General Motors prepara-se para começar a vender sua nova linha de picapes, considerada chave para levar a empresa de volta à lucratividade. A GM também reformulou suas grandes SUVs no início do ano e precisa continuar vendendo-as em ritmo sustentado para manter seus planos de recuperação nos trilhos.

A Ford está apresentando novas versões do Ford Explorer e Lincoln Navigator, que eram tão populares que a Ford não conseguia mantê-los em estoque e cujas vendas mergulharam neste ano. A Ford está colocando sua ênfase neste outono, entretanto, em seu novo utilitário crossover, o Edge.

A Chrysler Group, que depende mais das vendas de caminhonetes do que qualquer um de seus competidores, vivenciou uma queda súbita de vendas e deve perder US$ 1,5 bilhão (aproximadamente R$ 3,3 bilhões) neste trimestre, mais do que o dobro de suas projeções originais. A Chrysler tem uma série de novos carros, mas lutou para descarregar seus estoques excessivos de modelos de 2006 que estão lotando os estacionamentos das revendedoras.

Nenhuma das duas empresas está contando com grande impulso pela queda no preço da gasolina. Talvez a confiança do consumidor aumente ligeiramente, o que todas as indústrias apreciariam. Mas os economistas não esperam que muitas pessoas coloquem o dinheiro economizado no combustível na compra de um carro novo, se já não estiverem comprando um.

"Acho que ninguém prestou muita atenção", disse um porta-voz da GM, John M.McDonald.

"É cedo demais para saber", disse Kevin McCormick, porta-voz da Chrysler. "Não sabemos quanto tempo esses preços mais baixos se sustentarão".

O diretor executivo da Chrysler, Thomas W. LaSorda, disse no mês passado que a empresa está fazendo seus planos com preços de gasolina entre US$ 3 e US$ 4 para o resto da década. Em uma conferência telefônica nesta semana, LaSorda disse que não tinha havido aumento nas vendas como resultado dos preços de gasolina reduzidos.

McAlinden disse que os fabricantes são sábios em menosprezar a recente queda e se concentrarem em melhorar suas ofertas de carros menores e mais eficientes.

"Os executivos em Detroit -finalmente- não confiam de forma alguma nesta queda da gasolina", disse ele. "Qualquer evento estranho pode nos levar de volta a US$ 3 o galão, e acho que o público sente isso." Deborah Weinberg

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