UOL Notícias Internacional
 

23/09/2006

Multidão em Beirute saúda chefe do Hizbollah

The New York Times
Michael Slack

em Beirute
Centenas de milhares de pessoas se levantaram na sexta-feira e cantaram "Deus, Deus, proteja Nasrallah". Era o momento pelo qual aguardavam: o líder do Hizbollah, Hassan Nasrallah, em pessoa, declarando que sua milícia estava mais forte do que nunca e que nenhum exército no mundo poderia forçá-la a se desarmar.

Esta foi a primeira aparição pública de Nasrallah desde o início da guerra com Israel, em julho, e estava cheia de desafio: a Israel, aos Estados Unidos, aos chefes de Estado árabes e às forças políticas libanesas que desejam reduzir o poderio político e militar do Hizbollah.

Se havia qualquer pensamento de que a guerra enfraqueceu o Hizbollah, Nasrallah tinha uma mensagem diferente: "Ele está mais forte". Mesmo após os 34 dias de bombardeio de Israel contra o Líbano, o Hizbollah, ele disse, ainda conta com mais de 20 mil mísseis em seu arsenal.

"Nenhum exército do mundo poderá sozinho desmontar nossa resistência", disse Nasrallah, enquanto permanecia sob uma grande faixa que dizia "O Comício da Vitória". "Nenhum exército no mundo poderá nos fazer largar nossas armas."

A multidão era gigantesca, lotando cada canto de uma praça de 150 mil metros quadrados em um bairro do sul de Beirute. Havia uma cadeira de plástico para quase todos e um boné para proteger do sol. Os homens do Hizbollah batiam no peito. A multidão acenava bandeiras, saudando agitadamente Nasrallah, que se tornou um herói popular para muitos aqui e por todo o mundo árabe. A público veio a pé, de carro e de ônibus do sul e do norte, e em todos os casos as pessoas diziam que vieram porque Nasrallah pediu que viessem.

"O que sayid Hassan quiser, sayid Hassan terá", disse Hossain Zebara, 29 anos, usando um título reservado aos descendentes do profeta Maomé. Zebara disse que levou 24 horas para caminhar de sua casa, no sul do Líbano, até o comício. "Nós viemos para mostrar ao governo americano, ao governo britânico, ao governo francês que a resistência está crescendo, não diminuindo."

Esta era exatamente a intenção de Nasrallah - uma demonstração de força tanto para aqueles que desejam desafiá-lo no exterior quanto em casa. Em um país de cerca de 4 milhões, o comparecimento de centenas de milhares de pessoas em um evento disciplinado, altamente organizado, é um sinal de força.

Mas o comício também serviu para acentuar algumas das divisões profundas e perigosas entre as diferentes facções políticas e religiosas do Líbano, quando a multidão às vezes cantava slogans chamando o líder druso, Walid Jumblatt, de "verme" e "judeu" e pedindo ao primeiro-ministro para renunciar ao cargo.

Nasrallah buscou superar parte disto pedindo por unidade em um discurso que tentava defini-lo como um líder que não é apenas uma força local, mas também uma força regional. Ele deu voz a um dos principais sentimentos que alimentam a revolta no mundo muçulmano: o senso de que os muçulmanos são vítimas em locais como o Iraque e Gaza, e que o mundo não se importa.

"Por quanto tempo o mundo permanecerá calado diante disto?" ele perguntou.

E ele atacou duramente os líderes árabes, os criticando por não se erguerem para enfrentar Israel. "Estes líderes árabes preferem proteger seus tronos em vez de protegerem a Palestina", ele disse, investindo contra líderes tradicionais, como o presidente do Egito, Hosni Mubarak.

Em Israel, o discurso de Nasrallah foi imediatamente condenado como um desafio à comunidade internacional devido à sua recusa em se desarmar.

Nasrallah tinha múltiplas mensagens para transmitir: ele disse que o Hizbollah não se desarmará porque o Estado é fraco demais para proteger a população dos ataques de Israel. Ele alertou a força internacional posicionada ao longo da fronteira com Israel a não espiar a "resistência" e a se concentrar na proteção do Líbano. Ele criticou os chefes de Estado árabes que pediram recentemente ajuda ao Conselho de Segurança da ONU para retomada do processo de paz com Israel. Ele alertou o povo libanês a não permitir que diferenças políticas entre líderes sectários se tornem diferenças sectárias que possam dividir o país. E criticou repetidas vezes o governo apoiado pelos Estados Unidos do primeiro-ministro Fouad Siniora, dizendo que é fraco demais e precisa ser substituído por um governo de unidade nacional -que por sua vez daria ainda mais poder ao Hizbollah.

Ninguém sabia se Nasrallah apareceria pessoalmente. Pessoas aqui falavam sobre seu assassinato por Israel como sendo apenas uma questão de tempo. O comício, rotulado como uma celebração da "vitória divina", apresentou a Nasrallah uma chance, talvez sem precedente para o líder do Hizbollah, de energizar seus simpatizantes, ampliar sua posição como líder pan-árabe e explorar a atuação de sua milícia para fortalecer a posição política doméstica do Hizbollah.

Quando ele entrou, ele permaneceu em uma plataforma e parecia quase régio em mantos religiosos bem talhados e turbante preto. Ele foi conduzido ao palco onde ficou protegido por um vidro à prova de balas. Ele disse que até 30 minutos antes do comício ainda havia discussões sobre se ele devia comparecer ou não.

"Eu não poderia falar com vocês de longe", ele disse. "Eu insisti em estar com vocês."

Israel iniciou sua guerra de 34 dias com o Líbano após o Hizbollah cruzar a fronteira e capturar dois soldados israelenses. A violenta investida israelense causou danos pesados às áreas de maioria xiita no sul e norte e custou mais de 1.000 vidas, a maioria de civis, incluindo muitas mulheres e crianças. Mas os combatentes do Hizbollah nunca pararam, disparando centenas de foguetes contra Israel, destruindo tanques israelenses, um navio e matando muitos soldados de Israel.

A julgar pelo tamanho do comício e pelos comentários dos participantes, a base do Hizbollah não culpa o grupo pela morte e destruição. Ela culpa Israel e os Estados Unidos.

"Isto é bom, bom", disse Fatima Saad, 50 anos, cujo filho, Kasem, morreu na guerra. Estranhamente, ele não exibia sinal de tristeza. "Eu estou muito orgulhosa", ela disse enquanto apertava uma foto de seu filho contra o peito. Ele tinha 20 anos quando morreu em uma explosão.

Ahmed Hussein, 78 anos, veio para Beirute de sua aldeia de Kafr Kila, no sul. Ele disse que sua casa e a da maioria de seus vizinhos foram
destruídas, mas que o Hizbollah lhes deu tendas e tanques de água para
ajudá-los a se virarem.

"Todos nós que tivemos casas destruídas viemos aqui por Nasrallah, para lhe dizer que não perdemos nada", disse Hussein.

Apesar do Hizbollah e Nasrallah serem saudados como heróis por todo o mundo árabe e por seus simpatizantes, a posição do grupo no cenário político libanês é mais complexa. Eles foram atacados por adversários políticos que temem que um Hizbollah mais fortalecido exercerá uma influência ainda maior sobre o país. O sistema político do Líbano é baseado em uma divisão de poder entre os grupos sectários - de forma que Nasrallah tentou em seu discurso convencer o público de que a disputa política não deve ser interpretada como tensão sectária. Isto, disseram analistas políticos, é uma tarefa quase impossível em um país onde o poder está institucionalmente dividido entre as religiões dominantes, xiita, sunita, cristã e drusa.

Alguns dos adversários políticos de Nasrallah disseram que, no final, o
comício poderia ajudar a minar sua chance de exercer influência além de sua base xiita, porque ele disse estar à vontade na aliança com a Síria e o Irã.

Por sua vez, Nasrallah pareceu tentar abraçar tanto seus benfeitores na
Síria e no Irã quanto se distanciar deles. Ele disse que ficou furioso
quando seus detratores o acusaram de enfrentar Israel a mando do Irã ou da Síria.

"Nós estamos com os iranianos, nós estamos com os sírios, mas esta guerra foi nossa", declarou Nasrallah, lançando sua mão direita ao ar, para ovação da platéia. George El Khouri Andolfato

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