UOL Notícias Internacional
 

24/09/2006

Agências de espionagem dizem que guerra no Iraque piorou ameaça de terrorismo

The New York Times
Mark Mazzetti

em Washington
Uma dura avaliação das tendências de terrorismo pelas agências de
inteligência americanas revelou que a invasão e ocupação americanas no
Iraque ajudaram a criar uma nova geração de radicalismo islâmico e que a ameaça geral de terrorismo cresceu desde os ataques de 11 de Setembro.

A Estimativa Nacional de Inteligência confidencial atribui um papel mais direto à guerra no Iraque na alimentação do radicalismo do que o que foi apresentado em recentes documentos da Casa Branca ou no relatório divulgado pelo Comitê de Inteligência da Câmara, na quarta-feira, segundo vários funcionários em Washington envolvidos na preparação da estimativa ou que leram o documento final.

A estimativa de inteligência, concluída em abril, é o primeiro levantamento formal do terrorismo global pelas agências de inteligência americanas desde o início da guerra no Iraque, e representa uma visão de consenso de 16 serviços de espionagem do governo.

Intitulada "Tendências no Terrorismo Global: Implicações para os Estados Unidos", ela afirma que o radicalismo islâmico, em vez de estar recuando, está sofrendo metástase e se espalhando pelo globo.

Uma seção inicial do relatório, "Indicadores da Disseminação Global do
Movimento Jihadista", cita a guerra no Iraque como motivo para a difusão da ideologia da jihad.

O relatório "diz que a guerra no Iraque agravou ainda mais o problema geral do terrorismo", disse um funcionário da inteligência americana.

Mais de uma dezena de funcionários do governo americano e especialistas de fora do governo foram entrevistados para este artigo e todos falaram sob a condição de anonimato, porque estavam discutindo um documento confidencial de inteligência.

Entre os funcionários estavam membros de várias agências do governo e tanto simpatizantes quanto críticos do governo Bush. Todos os entrevistados viram a versão final do documento ou participaram da criação de esboços anteriores. Estes funcionários discutiram parte das conclusões gerais do documento mas não os detalhes, que permanecem altamente confidenciais.

Funcionários com conhecimento da inteligência estimam que ela evita
conclusões específicos sobre a probabilidade de terroristas atacarem
novamente em solo americano.

O relacionamento entre a guerra no Iraque e o terrorismo, assim como a
pergunta sobre se os Estados Unidos estão mais seguros, foram motivo de
debate persistente desde que a guerra teve início, em 2003.

Estimativas Nacionais de Inteligência são os documentos de maior autoridade que a comunidade de inteligência produz sobre uma questão específica de segurança nacional, e são aprovadas por John D. Negroponte, diretor nacional de inteligência. Suas conclusões são baseadas em análise de inteligência bruta coletada por todas as agências de espionagem.

Analistas deram início à estimativa em 2004, que não se tornou pública
anteriormente e foi concluída apenas neste ano. Parte do motivo é que
algumas autoridades do governo estavam descontentes com a estrutura e foco de versões anteriores do documento, segundo funcionários envolvidos na discussão.

Esboços anteriores descreviam ações do governo americano que foram
consideradas como um incitamento ao movimento jihadista, como a detenção por tempo indeterminado de prisioneiros em Guantánamo e o escândalo de abuso na prisão de Abu Ghraib, e alguns autores de política argumentaram que a estimativa de inteligência devia ser mais concentrada em passos específicos para reduzir a ameaça de terror. Não se sabe se o esboço final da estimativa de inteligência critica as políticas individuais dos Estados Unidos, mas funcionários de inteligência envolvidos na preparação do documento disseram
que suas conclusões não foram atenuadas ou ajustadas para fins políticos.

Frederick Jones, um porta-voz da Casa Branca, disse que esta "não teve papel no esboço ou revisão dos julgamentos manifestados na Estimativa Nacional de Inteligência sobre terrorismo".

As conclusões da estimativa confirmam algumas previsões do relatório do
Conselho Nacional de Inteligência, concluído em janeiro de 2003, dois meses antes da invasão ao Iraque. Tal relatório declarava que a proximidade da guerra tinha o potencial de aumentar o apoio ao Islã político em todo o mundo e poderia aumentar o apoio a alguns objetivos terroristas.

Documentos divulgados pela Casa Branca a tempo de coincidir com o quinto aniversário dos ataques de 11 de Setembro enfatizaram os sucessos obtidos pelos Estados Unidos no desmonte da alta cúpula da Al Qaeda.

"Desde os ataques de 11 de Setembro, a América e seus aliados estão mais seguros, mas ainda não estamos totalmente seguros", concluiu um deles, um relatório intitulado "11 de Setembro Cinco Anos Depois: Sucessos e Desafios". "Nós fizemos muito para degradar a Al Qaeda e suas afiliadas e para minar a percepção de legitimidade do terrorismo."

Tal documento fez apenas menção passageira ao impacto que a guerra no Iraque teve sobre o movimento jihadista global. "A luta em andamento pela liberdade no Iraque foi distorcida pela propaganda terrorista como um grito de mobilização", ele declara.

O relatório menciona a possibilidade dos militantes islâmicos que lutaram no Iraque poderem voltar aos seus países de origem, "exacerbando os conflitos domésticos ou fomentando ideologias radicais".

Na quarta-feira, o Comitê de Inteligência da Câmara, controlado pelos
republicanos, divulgou um relatório pessimista sobre a ameaça de terrorismo. Tal levantamento, baseado totalmente em documentos não confidenciais, detalha o crescente movimento jihadista e diz que "os líderes da Al Qaeda aguardam pacientemente pela oportunidade certa para atacar".

A nova Estimativa Nacional de Inteligência foi supervisionada por David B. Low, o diretor nacional de inteligência para ameaças transnacionais, que a encomendou em 2004 após assumir seu posto no Conselho Nacional de
Inteligência. Low se recusou a ser entrevistado para este artigo.

A estimativa conclui que o movimento radical islâmico se expandiu de um
núcleo de agentes da Al Qaeda e grupos afiliados para a inclusão de uma nova classe de células que "se geram sozinhas", inspiradas pela liderança da Al Qaeda mas sem qualquer conexão direta com Osama Bin Laden ou seus principais tenentes.

Ela também examina como a Internet ajudou a divulgar a ideologia jihadista e como o ciberespaço se tornou um paraíso para agentes terroristas que não possuem refúgios geográficos em países como o Afeganistão.

No início de 2005, o Conselho Nacional de Inteligência divulgou um estudo concluindo que o Iraque se tornou o local principal de treinamento para a próxima geração de terroristas, e que veteranos da guerra no Iraque poderão no final tomar o lugar da atual liderança da Al Qaeda no comando global da jihad.

Mas a nova estimativa de inteligência é o primeiro relatório desde que a guerra teve início a exibir um quadro abrangente das tendências no
terrorismo global.

Nos últimos meses, alguns altos funcionários da inteligência americana
ofereceram vislumbres das conclusões da estimativa em discursos públicos.

"Há uma probabilidade cada vez maior de despontarem novas redes e células de jihadistas, às vezes unidas por pouco mais do que suas agendas anti-Ocidente", disse o general Michael V. Hayden, durante um discurso em San Antonio em abril, no mês em que a nova estimativa foi concluída.

"Se esta tendência continuar, ameaças aos Estados Unidos em casa e no
exterior se tornarão mais diversificadas e poderão levar a ataques
crescentes em todo o mundo", disse o general, que era na época o vice de Negroponte e atualmente é diretor da CIA.

Por mais de dois anos, há tensão entre o governo Bush e as agências de
espionagem americanas em torno da violência no Iraque e as perspectivas de uma democracia estável no país. Alguns funcionários de inteligência disseram que a Casa Branca apresenta consistentemente um quadro mais otimista da situação no Iraque do que o justificado pelos relatórios de campo de inteligência.

As conclusões da nova estimativa de inteligência são consistentes com as conclusões de aliados americanos e especialistas em terrorismo independentes sobre as ameaças globais de terrorismo.

A comissão que investiga os atentados terroristas em Londres de julho de 2005 relatou, em maio, que os líderes dos serviços de inteligência doméstico e internacional do Reino Unido, o MI5 e o MI6, "enfatizaram ao comitê a escala crescente da ameaça terrorista islâmica".

Mais recentemente, o Conselho sobre Terrorismo Global, um grupo de pesquisa independente de renomados especialistas em terrorismo, deu nota "D+" para os esforços americanos dos últimos cinco anos para combater o extremismo islâmico. O conselho concluiu que "há todo sinais de que a radicalização no mundo muçulmano está se propagando em vez de encolhendo". George El Khouri Andolfato

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