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25/09/2006

Loucos por Londres: jovens estilistas ganham destaque

The New York Times
Cathy Horyn

em Londres
É uma velha história: a chegada de uma nova era de moda inglesa. Dez anos atrás os gênios eram Alexander McQueen e Hussein Chalayan, cujos desfiles provocavam sensações intensas e por si sós faziam valer a pena a viagem até a cidade. Em 2000, ano da marcante exposição de jovens artistas britânicos na Royal Academy, McQueen fez um desfile num cubo de vidro que parecia um asilo e Chalayan projetou um vídeo de bonecas que profetizava a cultura das celebridades.

"Tínhamos fogo nas entranhas", Chalayan lembrou outro dia em seu ateliê no leste de Londres, onde terminava a coleção que apresentará em 4 de outubro em Paris, um desfile que dará um passo sério em direção ao uso da tecnologia de microchips para influenciar como ele vê as roupas e o corpo.

Hoje existe expectativa por um novo grupo de estilistas britânicos, quase todos na faixa dos 20 anos e elogiados na mídia mesmo antes de seu primeiro desfile profissional. Entre eles estão Christopher Kane, Richard Nicoll, Gareth Pugh, Marios Schwab, Danielle Scutt e Roksanda Ilincic. Todd Lynn, 38, que fez sua primeira apresentação na semana passada, foi durante sete anos assistente de Roland Mouret e separadamente fazia roupas para astros do rock como Bono e Marilyn Manson.

Atraído em parte por um mega-desfile de Giorgio Armani na quinta-feira em Earl's Court, Patrick McCarthy, diretor editorial de "W" e "Women's Wear Daily", disse que era sua primeira viagem para ver as coleções londrinas em dez anos. "Estou ansioso para ver os jovens estilistas, especialmente Giles Deacon, ele explicou enquanto esperava o início do desfile de Kane. Por causa de seu talento polido, assim como de sua natureza genial, Deacon, 36, aparentemente conquistou o direito, pelo menos no mundo acolhedor da moda e da mídia londrinas, a ter seu nome reduzido a Giles.

"Acho que foi McQueen quem disse que os refletores se voltam para Londres a cada dez anos", disse Deacon em seu ateliê da era vitoriana, com muitas janelas e teto alto. Uma modelo que provava um minivestido de seda preta e um capacete de Darth Vader de penas pretas, passou andando firme. Deacon disse achar que Londres está tendo um desses momentos, em parte por causa do interesse causado por jovens formados nas escolas de moda e suas roupas elegantes e sensuais. "Tem a ver com design, qualidade e idéias", ele disse.

Mas apesar de coleções muito boas para a primavera 2007 de Deacon, Pugh e Lynn, e das estréias promissoras de Kane, Schwab e Scutt, muito aconteceu nos últimos dez anos para nos fazer pensar se o renascimento de Londres não é apenas excesso de otimismo. "Existe expectativa, mas não tenho certeza se vai compensar", disse Michael Fink, diretor de moda da Saks Fifth Avenue.

Jane Shepherdson, diretora de marcas da Topshop, que patrocina muitos desfiles dos jovens estilistas - e se beneficia enormemente dessa associação -, concorda. "Existe muita badalação e muita decepção, na verdade", ela disse. Parte do problema, como Shepherdson rapidamente concorda, é que as celebridades superaram os estilistas como formadores de gosto.

Na semana passada a Topshop anunciou que Kate Moss - que é apresentada nas campanhas publicitárias para o outono de Dior, Burberry e outras - criaria uma linha própria para a rede, eternamente apreciada pelas jovens.

Isso não é apenas mais um caso de adoração de celebridadess. "Nenhuma garota deste país se mexe enquanto não vir o que Kate Moss usava quando saiu de casa", disse Sarah Mower, redatora em Londres para a "Vogue" americana e Style.com. "Ela é diferente. Ela põe um colete masculino e todo mundo usa."

Consciente de sua influência, embora pareça indiferente, Moss propôs a linha à Topshop, segundo Shepherdson, e estará disponível a partir de abril. (A rede pretende abrir sua primeira filial americana em Nova York no ano que vem.)

Outra mudança cultural é o poder da tecnologia digital de transformar virtualmente qualquer pessoa em formadora de gosto, através de blogs e sites como MySpace.com. Uma reportagem no número atual da revista "Pop" sugere a velocidade viciosa e a pequena profundidade desta era.

Descrevendo a cena de clubes londrinos, Paul Flynn diz: "Tudo tem a ver com empregos no sábado e calças apertadas e ficar onde você puder encontrar um travesseiro. Tudo tem a ver com estudantes colegiais, saltos altos e canções descartáveis que nunca farão sucesso de bandas das quais você provavelmente nunca ouvirá falar. A coisa funciona além da indústria de música e das assessorias de imprensa."

E além da moda estabelecida. Enquanto esperava pelo desfile de Deacon, Natalie Massenet, executiva-chefe da butique online Net-a-Porter, tentou sugerir a McCarthy, seu ex-patrão, que os jornalistas de primeira fila como ele teriam cada vez menos influência no futuro, enquanto os consumidores exercem o direito ao voto. McCarthy não aceitou seu argumento, pelo menos não totalmente. "Todo mundo pode ter sua própria opinião", ele disse.

É claro que isso apenas dificulta para Londres, uma cidade com uma longa e deliciosa história de anarquia na moda, conquistar algum sentido de autoridade. "Sinto-me tremendamente desleal por dizer isto", disse Camilla Morton, uma jornalista de moda britânica, "mas somos bons nas roupas de festa para depois do show, e não na passarela."

A melhor das coleções dos jovens designers identificou alguns padrões que podem valer a pena observar. Kane, que cresceu na Escócia com duas irmãs mais velhas que adoram moda, mostrou minivestidos de stretch com panos enrolados como bandagens e inserções de renda, muitas vezes em rosas e laranjas fosforescentes. "Adoro cores", disse Kane. "Então por que não?"

Recentemente contratado por Versace como consultor free-lance, Kane disse que quer ir além dos enfeites banais, mas mantendo suas roupas sexy. "Quero coragem, o que acho perfeitamente alcançável na costura estruturada", ele disse.

Lynn e Schwab já estão muito concentrados na costura precisa, Lynn num veio minimalista pós-Helmut Lang com ternos masculinos em lã e cetim feitos em tamanhos femininos, e Schwab com vestidos que mostram entendimento de volume justo. Scutt, que é festeira e adorável, não poderia ter escolhido dois melhores mentores que Claire McCardell e Rudi Gernreich, que inspiraram seu fabuloso maiô preto semi-topless com um cinto largo de couro. Scutt também gosta da brejeirice anos 80.

Por isso, ao contrário de seus colegas americanos, esta geração de estilistas britânicos está francamente interessada em roupas maliciosas e sexy. Kane, por sua parte, disse que foi um pouco influenciado pelo estilo exagerado das celebridadess. E por que não?

Ilincic não sugeriu uma nova direção, mas o modo como ela trabalhou com formas e tecidos históricos como brocado e tweed foi novo. As saias redondas de tule cremoso sob jaquetas de bainhas curvas também eram muito sexy.

Se Pugh se qualifica ou não como um maluco de boa fé, ele parece pensar como um artista, criando esculturas e instalações em vez de roupas. Sua coleção de 12 trajes incluía vestidos e casacos xadrez-arlequim feitos com quadrados de couro de sapato e tecido impermeável. Ele usou fita adesiva dupla-face para montar algumas roupas, mas isso não se percebia pela qualidade do resultado, e um cárdigã preto de tamanho exagerado foi tricotado com tiras de saco de lixo.

Pugh, que tem 25 anos, nunca produziu uma roupa para venda, e até agora não se importou. Mas ele disse na quinta-feira que está trabalhando com o ateliê do estilista Rick Owens em Paris para reproduzir a atual coleção, além de modelos de suas três coleções anteriores.

O que Deacon - Giles - traz para a moda é único entre a nova geração de estilistas britânicos: uma leveza de mão e espírito que, embora totalmente sofisticada, parece aterrada na vida contemporânea. Como disse Deacon, com certo orgulho, ele e seus amigos se deslocam de bicicleta e metrô. Eles não vêem o mundo através das vidraças escuras de limusines.

Em sua coleção havia adoráveis vestidos de seda branca com estampa grande de correntes, incluindo um inspirado num cáftã; uma capa de noite curta preta e esvoaçante com gola alta; e minivestidos com bainha rígida e subversiva de plástico preto sinuoso. Seu número principal, que mostrou habilidade no corte e molde perfeito, foi um vestido preto longo com um laço de plástico preto e muitas camadas de seda preta pregueada. Você não sabia se devia agradecer a Mainbocher ou Scarlett O'Hara. Uma beleza. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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