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27/09/2006

Alemães revoltados com cancelamento de ópera

The New York Times
Judy Dempsey e Mark Landler

Em Berlim
Um importante teatro lírico alemão cancelou as apresentações de uma ópera de Mozart por temores de segurança devido a uma cena que mostra a cabeça decepada do profeta Maomé. A medida gerou uma tempestade de protestos sobre o que muitos vêem como uma entrega da liberdade artística.

O Deutsche Oper Berlin disse na terça-feira (26/9) que tinha tirado "Idomeneo" de sua programação de outono depois que a polícia advertira sobre um "risco incalculável" aos artistas e ao público.

A diretora da companhia, Kirsten Harms, disse que lamentava a decisão, mas achava que não tinha escolha. A polícia havia recebido uma ameaça anônima em agosto, mas a diretora tomou sua decisão apenas depois de longas deliberações.

Agentes políticos e culturais da Alemanha condenaram a medida. Alguns disseram que lembra a decisão dos jornais europeus de não imprimir os desenhos satíricos de Maomé, depois que sua publicação na Dinamarca gerou furor entre muçulmanos.

Wolfgang Boernsen, porta-voz de cultura do bloco conservador da chanceler Ângela Merkel no Parlamento, acusou o teatro de "cair de joelhos diante dos terroristas".

"É um sinal para outros palcos na Alemanha, ou até em outros pontos da Europa, para não apresentarem programas que critiquem o islã", disse ele.

A cena em questão não faz parte da ópera de Mozart, mas foi acrescentada como uma espécie de coda pelo diretor, Hans Neuenfels. Nela, o rei de Creta, Idomeneo, leva as cabeças de Maomé, Jesus, Buda e Poseidon para o palco, colocando cada uma sobre um banco.

"Idomeneo" foi apresentada pela primeira vez em 1781, e conta uma história mítica de Poseidon, ou Netuno, deus do mar, que brinca com as vidas dos homens e exige sacrifícios malévolos.

O cancelamento das apresentações gerou um debate na Europa em torno da questão se o Ocidente estaria comprometendo valores como a liberdade de expressão para evitar a ira do mundo muçulmano.

Já há na Alemanha uma sensação crescente que o papa Bento 16 pode ter exagerado sua contrição pelo recente discurso na Bavária, onde nasceu, no qual citou uma referência histórica ao islã como "diabólico e desumano". O discurso gerou ondas de protestos em países muçulmanos.

O ministro do interior, Wolfgang Schaeuble, que defendeu o papa e pediu maior diálogo com muçulmanos na Europa, disse que o cancelamento das apresentações era inaceitável e "loucura".

Michael Naumann, ex-ministro da cultura alemão, disse: "É um tapa na cara da liberdade artística, pelos próprios artistas". Naumann, atualmente editor do semanário Die Zeit, acrescentou: "O papa mostrou o caminho, sendo tão extraordinariamente apologético".

A reação pública sulfurosa levou algumas pessoas a especularem se a decisão não poderia ser revertida.

A própria Harms disse que a produção de "Idomeneo", apresentada pela Deutsche Oper em 2003, continuaria no programa do teatro. Poderia ser apresentada mais tarde, disse ela, apesar de ter que considerar os aspectos políticos e diplomáticos "desse assunto complexo".

A cena com as cabeças gerou controvérsia entre muçulmanos e cristãos quando a Deutsche Oper inseriu o espetáculo em seu calendário de novembro.

Em agosto, veio a ameaça anônima.

"Tudo isso aconteceu depois da controvérsia das charges", disse um porta-voz da polícia, Uwe Kozelnik. "Começamos a investigar e finalmente concluímos que não podíamos descartar a possibilidade de distúrbios."

Apesar de a polícia dizer que não fez pressão para a Deutsche Oper cancelar o espetáculo, ela apoiou a decisão.

O chefe de segurança de Berlim, Ehrhart Koerting, fez um paralelo entre este episódio e a decisão dos jornais alemães no início do ano de evitar publicar as charges de Maomé.

"Até mesmo a associação de jornalistas alemã criticou a publicação das charges, porque poderia ferir os sentimentos religiosos de um grupo de pessoas", disse Koerting em declaração.

Líderes muçulmanos na Alemanha reagiram com cuidado ao furor. Vários planejavam participar da conferência na quarta-feira organizada pelo governo para fomentar maior diálogo entre os 3,2 milhões de muçulmanos da Alemanha.

O líder do Conselho Islâmico, Ali Kizilkaya, disse a uma estação de rádio em Berlim que aprovou o cancelamento, dizendo que uma cena com Maomé decapitado "certamente ofenderia muçulmanos".

"Ainda assim, acho horrível as pessoas terem que ter medo", disse Kizilkaya, de acordo com a Associated Press. "Essa não é a forma correta de iniciar um diálogo."

O chefe do Conselho Central de Muçulmanos na Alemanha, Ayyub Axel Koehler, recusou-se a comentar a decisão do teatro, dizendo que queria saber mais sobre as circunstâncias.

Estas não estão claras.

Em uma conferência com a imprensa na terça-feira, Harms disse que ventilou com Neuenfels a possibilidade de remover a cena delicada. Como ele resistiu, ela abandonou a questão.

Entretanto, um advogado de Neuenfels, Peter Raue, disse que Harms ligou para o diretor no dia 9 de setembro para dizer-lhe que planejava cancelar as apresentações. A questão de mudar o final nunca foi levantada, disse Raue, e de qualquer forma, "não se pode mudá-la, faz parte da história".

A cena criada por Neuenfels coloca um final sanguinário em uma ópera que, na forma escrita por Mozart, termina com o rei Idomeneo desistindo de seu trono para acalmar o deus dos mares e abençoando a união romântica de seu filho Idamante com a princesa grega Ilia.

Com as cabeças decepadas das figuras religiosas, Neuenfels queria marcar "que todos os fundadores de religiões foram figuras que não trouxeram paz ao mundo", disse Raue.

André Krfat, porta-voz da Komische Oper, uma ópera mais aventureira onde Neuenfels está envolvido em outra produção de Mozart, descreveu o diretor de 65 anos como "secularista que não acredita que a religião resolve os problemas do mundo".

Para o Deutsche Oper, o cancelamento é uma grande crise para uma companhia de prestígio que passou por uma transição. Fundada em 1912 como Deutsches Opernhaus, mudou-se para o atual teatro no leste de Berlim em 1961, inaugurando-o com uma produção de "Don Giovanni", de Mozart.

Harms foi nomeada diretora em 2004, vindo de um teatro menos proeminente, na cidade de Kiel, no Norte da Alemanha, onde também enfrentou uma ameaça de bomba. Ela planeja apresentar sua primeira produção, um trabalho pouco conhecido de Alberto Franchetti chamado "Germânia", no dia 15 de outubro.

Alguns críticos da decisão de cancelar as apresentações disseram que revela a debilidade das instituições culturais de Berlim, generosamente patrocinadas.

"Como são subsidiadas pelo Estado alemão, há grande quantidade de independência artística, mas também falta de responsabilidade e rigor intelectual", disse Gary Smith, diretor da American Academy em Berlim.

A modernização de óperas clássicas -freqüentemente com temas políticos ou sociais atuais- é comum na Alemanha. Mas o cancelamento de "Idomeneo"
poderia tornar esta produção um marco de outro tipo.

"Nunca ouvi falar de algo assim, ou mesmo parecido. Vi muitas apresentações politicamente incorretas em Berlim. Acho que a reação ao discurso do papa sensibilizou o cenário cultural", disse Nikolaus Lehnhoff, famoso diretor de ópera alemão. Deborah Weinberg

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