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28/09/2006

Calejado mas briguento, Jerry Lee Lewis continua mandando ver no rock

The New York Times
Jon Pareles
Na tarde de terça-feira, Jerry Lee Lewis se sentou ao grande piano vermelho da FYE Records, no Rockefeller Center, e mandou ver o rock and roll. Sua mão esquerda batia acordes de boogie-woogie, sua direita deslizava e golpeava o teclado e sua voz saltava facilmente até as notas mais altas de "Great Balls of Fire".

Hiroko Masuike/The New York Times 
Jerry Lee Lewis no Rockefeller Center: "Não sou tão jovem, mas ainda toco muito bem"

Ele não chutou o banco do piano. Mas em "Whole Lotta Shakin' Goin' On", um olhar de comando e alguns poucos gestos imperiosos estabeleceram o ar de alegre ameaça resumido em seu apelido "The Killer" (Matador). Depois os fãs o cercaram, segurando cópias de colecionador de seus singles da Sun Records, dos anos 50, na esperança de um autógrafo.

"Eu não sou tão jovem quanto antes", disse Lewis um pouco antes. "Mas ainda toco muito bem."

Lewis, que completará 71 anos na sexta-feira, está nesta semana em Nova York para promover "Last Man Standing" (Artist First), seu primeiro álbum de estúdio em mais de uma década. O álbum está repleto de convidados do rock -três Rolling Stones, Bruce Springsteen, Eric Clapton- e Lewis facilmente se sobressai. Na quinta e sexta-feira, Lewis gravará um especial para o canal PBS com convidados como Don Henley e Kid Rock. No sábado, ele será um dos astros do concerto Farm Aid, em Camden, Nova Jersey.

As pessoas que conhecem Lewis são unânimes a seu respeito. "Ele é uma força da natureza", disse Jimmy Rip, que produziu o álbum. A filha de Lewis, Phoebe, que atualmente é sua empresária, disse: "Ele tem seu modo de fazer as coisas e é assim que tem que ser". Hutch Hutchinson, que ingressou na banda de Lewis em 1961, disse: "Jerry Lee nunca será domado. Ele não responde a ninguém, nunca respondeu. Ele não se conterá diante de você. Ele sempre dirá o que pensa. E não importa se você tem 900 trilhões de dólares ou não tem 10 centavos".

Mesmo em um roupão de banho branco e pijama, caminhando lentamente para se sentar para a entrevista em seu quarto de hotel, antes da apresentação, Lewis ainda exibia o cabelo ondulado e o perfil familiar do martelador de piano que apareceu nos estúdios da Sun, em Memphis, em 1956, para gritar, rosnar e falsetear em meio a canções que se tornaram pedras fundamentais do rock and roll. Ele prosseguiu carreira emplacando sucessos country nos anos 60 e 70, mas no final ficou desencantado com as gravadoras que queriam mantê-lo no estilo country.

Lewis já enfrentou escândalos e pesares. Ele casou com sua prima de segundo grau de 13 anos, Myra, em 1957 -uma decisão que descarrilou sua carreira por uma década- já teve duas esposas que morreram jovens, atirou no peito de um membro da banda e perdeu dois filhos em acidentes. Ele já bateu carros, teve problemas com alcoolismo e apareceu nos portões de Graceland empunhando uma arma. No ano passado ele se divorciou de sua sexta esposa. Atualmente ele vive em Nesbit, Mississippi, a 13 quilômetros de Memphis, dividindo a casa com Phoebe, e os dois jantam regularmente com Myra, a mãe dela. Ele chama os
outros de "Killer" quando está se sentindo jovial.

Genial mas comedido no início, Lewis se animou quando começou a falar sobre crescer em Ferriday, Louisiana, e ouvir a música que misturaria ao rock and roll. Ele teve algumas poucas aulas de piano. Mas sua educação veio de entrar sorrateiramente no Haney's Big House, um clube de propriedade de seu tio, Lee Calhoun.

Na era da segregação, aquele era um clube afro-americano de blues e
rhythm-and-blues, onde músicos como B.B. King tocavam. "Eles nunca percebiam que eu entrava lá e ficava debaixo da mesa, escutando eles tocarem", disse Lewis. "Haney às vezes me achava lá, me pegava pelo cangote e me punha para fora. Ele dizia: 'Garoto, sua mãe me mataria e seu tio certamente me mataria se encontrassem você aqui'. Ele dizia: 'Não volte, Jerry Lee'. Mas eu voltava lá 30 minutos depois. Eu me sentia como se estivesse transgredindo, que não devia estar lá, mas nada podia me impedir de ir exceto Deus."

"Minha mãe perguntava: 'Onde você aprendeu estas canções?'" ele acrescentou. "'Onde você aprendeu esta canção, menino?' Eu ainda posso ouvi-la como se estivesse aqui."

Ele foi enviado para estudar no religioso Southwestern Bible Institute, em Waxahachie, Texas, onde sua música causou tumulto pela primeira vez.

Ele cantava versões rock and roll dos cânticos da igreja. "Eles queriam me expulsar. Mas todo garoto na escola da Bíblia passou a dizer: 'Se expulsarem o Jerry Lee Lewis desta escola, então eu também vou embora'. O reitor veio e me disse: 'Viu isto? Você arruinou uma grande escola'. Eu disse: 'Eu não arruinei nada. Olha, me deixe tirar umas duas semanas de folga para esfriar os ânimos e então eu volto'. E o reitor disse: 'Esta é uma boa idéia'. Mas não voltei."

Na Sun, ele misturou seu piano boogie-woogie com uma voz cheia de yodeling do country e o fulgor do gospel para criar canções como "Whole Lotta Shakin' Goin' On", que inicialmente foi proibida por muitas estações de rádio. "Era apenas outra canção para mim", ele disse. "Eu nunca notei que tivesse um efeito ruim sobre alguém. As garotas ficavam um pouco malucas, mas garotas são assim mesmo."

Cinqüenta anos após seus primeiros singles da Sun, Lewis soa mais experiente mas não menos briguento em "Last Man Standing". Ele foi persuadido a gravá-lo pelos produtores do álbum, Rip e Steve Bing, o produtor de cinema e dono da Shangri-La Entertainment, que financiou a gravação. Fãs de longa data da música de Lewis, eles o atraíram de volta ao estúdio, primeiro para gravar canções para um filme não lançado, "Why Men Shouldn't Marry" (por que homens não devem casar), e depois para "Last Man Standing".

O álbum inclui rock and roll desordeiro, canções country atiçadas no piano e blues. "Nós tentamos escolher canções que pudessem ser quase capítulos extraídos da vida de Jerry Lee", disse Rip.

O álbum tem Lewis e o patriarca do country, George Jones, se divertindo em uma antiga canção de country and western, "Don't Be Ashamed of Your Age", Eric Clapton fazendo um solo choroso no standard do blues "Trouble in Mind". Canções como o sucesso de Hank Williams, "Lost Highway", "Pilgrim" de Kris Kristofferson e "Twilight" do The Band contemplam a idade e o arrependimento, e em "That Kind of Fool", Lewis e Keith Richards cantam sobre uma vida assentada que nunca tiveram.

Enquanto isso, "Pink Cadillac" de Bruce Springsteen e "Rock and Roll" do Led Zeppelin insistem que Lewis não planeja partir tranqüilamente. Seu piano ruge e estrondeia durante as canções; sua voz é conhecedora e rabugenta.

No estúdio, disse Rip, "havia momentos em que ele chegava e parecia que mal chegaria até o piano. Mas no segundo em que chegava, o piano saltava cerca de 60 centímetros do chão e ele era o Jerry Lee".

O plano de Rip não era fazer um álbum de duetos, ele disse. Mas após gravar alguns, ele considerou difícil recusar as ofertas; o álbum tem 21 faixas e duas dúzias de convidados. Lewis já completou outro álbum sem convidados -apesar de Rip ter dito que abriria uma exceção para Bob Dylan caso estivesse disponível- e está planejando uma coleção de gospel.

Antes de sua aparição na loja de discos, Lewis fez outra parada: na redação da revista "Rolling Stone". Ele foi recebido pelo fundador da revista, Jann Wenner, que parecia tão embasbacado como um fã. Lewis se sentou em uma mesa de conferência cercada por funcionários de olhos arregalados, tímidos demais para fazer perguntas. Então Wenner fez, perguntando a Lewis se estava orgulhoso do tamanho da influência de sua música.

Lewis escutou a pergunta e sorriu: "Eu não sabia que causaria tamanha
confusão". George El Khouri Andolfato

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