UOL Notícias Internacional
 

28/09/2006

E a orquestra segue tocando, expressando as dificuldades do Iraque

The New York Times
Edward Wong

em Bagdá, Iraque
Era uma música adequada para uma guerra complicada.

A noite começou com a orquestra tocando o final da abertura "1812" de Tchaikovsky, com as notas do hino marcial ganhando corpo pelo auditório enquanto trombetas e trombones se misturavam às cordas em um clímax bombástico.

Mas o sentimento logo entristeceu para uma peça chamada "Réquiem", composta neste ano pelo maestro da orquestra. Um solo de violoncelo, ele era lento, pesaroso e inesquecível, composto como uma elegia para seu país.

As centenas de iraquianos e o punhado de diplomatas ocidentais na platéia pareciam hipnotizados, assim como os guardas corpulentos empunhando Kalashnikovs.

"É como uma pessoa que está morrendo", disse o maestro, Muhammad Amin Ezzat, 45 anos, após o concerto, realizado em uma noite recente em um clube social no oeste de Bagdá. "Por algum tempo ele ainda estava sorrindo. O coração ainda está batendo, mas é difícil respirar, difícil falar e ele está próximo da morte."

A mudança repentina do triunfalismo de Tchaikovsky para o tom fúnebre da peça de Ezzat reflete a mudança da sorte no Iraque e de um dos símbolos resistentes de sua unidade nacional: a Orquestra Sinfônica Nacional Iraquiana.

Ao longo de mais de três anos de guerra, a orquestra tem lutado para levantar o ânimo do país e ajudar por meio da arte. Mas os membros da orquestra estão descobrindo que apesar da arte às vezes ser capaz de fornecer um breve alívio para a dura realidade, ela não pode resistir para sempre como proteção contra um turbilhão de conflito.

Neste ano, quatro membros fugiram para a Síria e Dubai, desfalcando a orquestra de dois violoncelistas, um oboísta e um violinista, a deixando com 59 músicos. A orquestra é freqüentemente forçada a ensaiar sem eletricidade, devido aos constantes apagões. Os ensaios são realizados três vezes por semana em um ex-sala de concerto real perto do decrépito coração histórico de Bagdá, com guardas armados cercando o local.

Os músicos estão ficando sem coisas como arcos e cordas e poucas lojas de instrumentos musicais continuam abertas no Iraque, em parte porque os militantes islâmicos explodiram muitas. Os músicos precisam se preocupar em não ofender os milicianos fundamentalistas e os vizinhos islâmicos.

"As circunstâncias nos afetam diariamente", disse Karim Wasfi, 34 anos, um diretor de orquestra formado nos Estados Unidos e um violoncelista acostumado a vestir camisas pretas abotoadas até o colarinho sob ternos pretos. "Mas quero transmitir que, apesar das dificuldades, problemas e instabilidade, nós existimos, nós tocamos, nós damos esperança."

A orquestra é uma das mais antigas da região, disse Wasfi. Suas raízes remontam a um quarteto de cordas fundado em 1939. Sua primeira encarnação, conhecida como Filarmônica de Bagdá, se tornou uma orquestra plena no final dos anos 50. Seu repertório consiste basicamente de composições européias clássicas, mas ela também toca composições originais de seus membros, incluindo as baseadas em tradições musicais árabes.

Desde a invasão americana em 2003, a orquestra já tocou nos Estados Unidos, Jordânia e Dubai, e viaja com freqüência para o Curdistão Iraquiano. Ela realizou sete concertos na última temporada, alguns sob patrocínio de uma operadora de celulares kuwaitiana. A estréia desta temporada está marcada para 1º de outubro, em um teatro no centro de Bagdá.

O governo paga aos membros de US$ 140 a US$ 620 por mês.

Mesmo agora, com o conflito sectário que divide o país, a orquestra continua sendo um espelho da sociedade multiétnica, multirreligiosa. Árabes sunitas e xiitas, curdos, cristãos e secularistas tocam lado a lado, assim como um seguidor da religião gnóstica mandeana, que considera Adão e João Batista como profetas.

Mas as esperanças que estes músicos nutriam após a queda de Saddam Hussein, em 2003, desapareceram. Naquele ano a orquestra fez uma apresentação emocionante no Kennedy Center, em Washington, tocando para, entre outras pessoas, o presidente Bush e o secretário de Estado, Colin L. Powell. Alguns membros foram convidados à Casa Branca.

Agora Ali Khasaf, um clarinetista, precisa praticar discretamente em uma sala acusticamente isolada em sua casa, no leste de Bagdá, para não correr o risco de ofender milicianos conservadores.

Khasaf, 48 anos, vive em Sadr City, a fortaleza da milícia que responde ao clérigo radical xiita Muqtada al Sadr. Alguns tribunais shariah comandados por seguidores de Al Sadr consideram a música como sendo antiislâmica, como o Taleban fazia no Afeganistão.

"Se os vizinhos escutarem o som, eles podem não gostar", disse Khasaf, um veterano de 25 anos da orquestra. "A platéia popular é diferente de nós."

Khasaf não é o único membro de sua família na orquestra. Um irmão mais velho toca trompa; um irmão mais novo, oboé; e um sobrinho toca trompete. O caso de amor de Khasaf pelo clarinete começou em 1973, quando ingressou na banda do exército iraquiano. Ele estava seguindo os passos de seu irmão mais velho, Mehdi, que ingressou na banda 10 anos antes.

"Eu vi que era lindo, então ingressei", disse Khasaf. "Nós aprendemos com músicos russos, músicos alemães, quando eu estava no exército."

Khasaf e os outros membros de sua família precisam transportar
sorrateiramente seus instrumentos para dentro e fora do bairro. Mas ao menos eles conseguem praticar em casa. O mesmo não acontece com Izzat Ghafouri Baban, um trompetista curdo que mora no que chama de "local imundo": o bairro conflituoso de Shaab, no nordeste, também dominado pelo Exército Mahdi de Al Sadr.

"Eu não posso praticar em casa porque estou cercado de husseiniyas", disse Baban, 41 anos, se referindo às mesquitas xiitas batizadas segundo o neto mártir do Profeta Maomé. "Imagine se alguém ouvir que há música na minha casa. Eles pensariam que sou contra a religião."

Ele pratica chegando à sala de ensaio duas horas antes de seus colegas.

"A única coisa que nos mantêm felizes é quando vemos uns aos outros", disse Baban, um homem atarracado com cabelo grisalho e um sorriso tão largo quanto a campânula da tuba. "É o momento mais feliz de nossas vidas."

Ele disse que freqüentemente leva para casa uma garrafa de uísque após
farrear com seus amigos músicos após os ensaios. Certa vez ele estava
chegando de carro ao seu bairro quando viu uma barreira do Exército Mahdi.

Ele sabia que o degolariam se revistassem seu carro e encontrassem a
garrafa. Ele foi salvo no último minuto, quando os milicianos fugiram de jipes Humvee americanos que patrulhavam a área.

Baban contou sua história para o visitante estrangeiro pouco antes do início do concerto no clube social.

Um trombonista esguio chamado Ali Nasser se aproximou trajando smoking e colocou o braço nos ombros de Baban.

"Esta orquestra representa o verdadeiro mapa do Iraque", disse Nasser, 48 anos, enquanto Baban acendia um cigarro. "Este homem é curdo, outro ali é cristão. Esta é a verdadeira sinfonia nacional. Os laços entre nós são inquebráveis."

Nasser, talvez ainda mais que os outros, provou sua dedicação à música. Um padeiro na cidade de Nasiriyah, no sul do país, ele vem de carro ou toma um táxi para ensaiar. Isto representa uma viagem de 4 a 6 horas em cada sentido, e o alto preço da gasolina consome metade de sua renda. Para piorar, a estrada passa pelo "Triângulo da Morte", uma área infestada de rebeldes, milicianos e gangues criminosas. Homens armados certa fez fuzilaram passageiros de um táxi pouco à frente do seu.

"Minha esposa diz: 'Por favor, não vá. A vida é muito ruim em Bagdá. Há
muita morte em Bagdá'", ele disse. "Ela tenta me impedir de vir, mas eu
venho. Não podemos sobreviver sem música. É como oxigênio."

A sobrevivência -e não a desintegração- ainda fornece inspiração artística, pelo menos por ora. Isto ficou evidente enquanto as notas finais do "Réquiem", a elegia para o Iraque tocada por Wasfi em seu violoncelo, soavam pelo clube social naquela noite recente. A peça era em grande parte em tom menor, passando um sentimento de perda, mas as últimas notas eram em um vigoroso tom maior.

A mensagem era clara: o Iraque ainda está vivo. George El Khouri Andolfato

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