UOL Notícias Internacional
 

04/10/2006

Para 'Village' de Tóquio, uma via pública pode levar à ruína ou revigoração

The New York Times
Martin Fackler

em Tóquio
Com suas lojas de roupa "vintage", clubes de música ao vivo e lojas de "noodle" (talharim) barato, Shimokitazawa é a resposta de Tóquio a Greenwich Village, um epicentro da cultura jovem em uma das metrópoles mais cheias de modas da Ásia.

Ko Sasaki/The New York Times 
A construção de uma via de 25 metros de largura ameaça a vida alegre de Shimokitazawa

O bairro é popular pelo aconchego residencial, atraindo hordas de estudantes e jovens funcionários de escritório, que regularmente circulam por seu labirinto de alamedas e becos estreitos. Suas lojas minúsculas, muitas em casas convertidas ou prédios de apartamento de baixa estatura, freqüentemente possuem nomes que lembram a contracultura do outro lado do Pacífico: Village Vanguard Diner, Haight Ashbury, Mojo Rising.

Mas uma sombra está atravessando o coração deste bairro pulsante. Em quatro anos, as autoridades municipais pretendem iniciar a construção de uma via pública de 25 metros de largura que dividirá Shimokitazawa em dois.

A via provocou uma rara batalha pela preservação em um país onde grandes projetos de construção há muito são recebidos como progresso e costumam lubrificar as engrenagens da política. A luta colocou donos de bares e butiques, entre eles os primeiros que trouxeram a cultura hippie ao bairro há três décadas, contra a prefeitura e os moradores mais velhos que se ressentem dos relativos recém-chegados.

Em cidades de Nova York a Bucareste, a prática de abrir vias largas cortando comunidades urbanas já é amplamente rejeitada. Mas Tóquio está apenas começando a considerar os custos sociais, após décadas cobrindo seus rios e fossos medievais com estradas, substituindo habitações com telhados por prédios de concreto tediosos.

"Até agora, ninguém se importava se destruíssemos a cultura e o ambiente de Tóquio", disse Mikiko Ishikawam, professora da Universidade Keio daqui, especializada em planejamento urbano. "As pessoas estão lentamente compreendendo que estas coisas também importam."

Para muitos moradores de Tóquio, o charme de Shimokitazawa está no fato de ter escapado de tal redesenvolvimento. Uma comunidade residencial sonolenta nos arredores da cidade, ela escapou dos bombardeios americanos na Segunda Guerra Mundial. Após a derrota do Japão, ela ganhou vida como um movimentado mercado para excedentes de roupas e alimentos das forças armadas americanas.

Outra transformação ocorreu nos anos 70, quando suas casas de madeira e becos torcidos pré-guerra atraíam músicos, atores e estudantes contrários à guerra do Vietnã.

Há três anos, quando as autoridades municipais reuniram 1.500 estudantes e lojistas para anunciar a via planejada de US$ 140 milhões, juntamente com a suspensão das restrições de altura para construções, elas foram recebidas com consternação e revolta.

"Eu não podia acreditar", disse Kenzo Kaneko, um arquiteto de 41 anos que mora aqui. "Eles simplesmente anunciaram a morte do bairro, sem nos perguntar o que achávamos."

Kaneko e amigos organizaram a Salve Shimokitazawa, um dos vários grupos de oposição que surgiram rapidamente e continuam protestando.

Em uma recente noite de sábado, mais de 300 manifestantes -alguns mais
velhos, com cabelos grisalhos na altura do ombro presos em rabo-de-cavalo, outros mais jovens vestindo roupas estampadas, uniformes militares e tênis de cano alto- marcharam pelo bairro segurando velas.

Os manifestantes se reuniram diante de uma igreja católica, um pequeno
teatro underground e uma faixa de pequenos bares, entre os centenas de
prédios que a avenida destruirá.

"Nós viemos para este bairro porque era diferente e único", disse Yutaka Oki, 61 anos, que é dono de um clube de jazz que ele abriu aqui em 1975. "Se esta avenida for construída, a atmosfera do bairro será totalmente destruída."

Mas o projeto tem muitos defensores, entre eles os sindicatos de lojistas de Shimokitazawa que foram fundados logo após a Segunda Guerra Mundial. Eles esperam que um amplo bulevar fornecerá uma rota de fuga em caso de terremoto e facilitará para ônibus e táxis percorrerem o bairro.

Kuniyoshi Yoshida, um proprietário de 71 anos que lidera um dos sindicatos, disse que à medida que o bairro, assim como o restante do Japão, envelhece, os moradores dão maior prioridade à segurança e conveniência. Ele também disse que os recém-chegados não têm direito de reclamar, já que a maioria se recusou a ingressar em seu sindicato e em participar das limpezas do bairro.

Isto sem contar os muitos problemas que trouxeram, ele disse: o movimento excessivo, as pichações, a música alta, bêbados que urinam nas casas.

"Eles dizem que a avenida destruirá o bairro", ele disse. "Mas os moradores originais consideram isto um progresso."

Defensores e opositores concordam que o projeto é obra da chamada tribo da via pública. São políticos que usam obras públicas para conquistar votos e que enchem seus baús de campanha com doações ligadas às construções. O governo gasta US$ 130 bilhões por ano em construção de avenidas e estradas, disse Takayoshi Igarashi, um professor de política urbana da Universidade Hosei, em Tóquio. "As vias públicas ainda são o rei dos reis na política japonesa", ele disse.

Em Shimokitazawa, o principal defensor da via é Noriyuki Kumamoto, o chefe do Distrito de Setagaya, onde fica situado o bairro. Ele se recusou a ser entrevistado pelos repórteres devido ao debate em torno da obra. Mas em uma coletiva de imprensa em junho, ele disse que queria que a obra assegurasse a futura vibração de Shimokitazawa.

Especialistas em planejamento urbano dizem que tais comentários refletem a crença amplamente disseminada no Japão de que novas avenidas e estradas apenas beneficiam a comunidades.

"Nós não estamos apenas dividindo Shimokitazawa", disse Masahiko Toyama, do departamento de vias públicas do distrito. "Nós estamos adicionando boas coisas."

Os oponentes da estrada estão pessimistas com suas chances de deter o
projeto. O maior obstáculo, eles disseram, é a relutância da maioria dos moradores em se manifestar.

Das cerca de 1.500 lojas do bairro, cerca de 500 ingressaram no novo
sindicato alternativo de lojistas que é contrário à obra. Mas muitos outros lojistas disseram privativamente que têm medo de se oporem à via devido aos antigos laços com os sindicatos dos lojistas tradicionais.

Além disso, muitos disseram privativamente que se sentem em conflito diante de um projeto que também os enriquecerá. Os proprietários de terrenos ao longo do trajeto da via, que subsistiram por anos com suas lojas minúsculas, agora se vêem diante da perspectiva de riqueza instantânea caso a cidade lhes pague caro pelas propriedades.

"Muitos estão se mantendo em silêncio enquanto o bairro morre", disse Masami Kobayashi, um professor de arquitetura da Universidade Meiji daqui que tentou persuadir sem sucesso a cidade a aceitar um plano alternativo de menor impacto. "Em 10 anos, nós lamentaremos ter feito isto." George El Khouri Andolfato

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