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05/10/2006

Antigo costume chinês assegura sucesso matrimonial no além

The New York Times
Jim Yardley, em Chenjiayuan, China

Jake Hooker
Para muitos chineses, um ancestral é alguém que deve ser reverenciado, mas também alguém que precisa ser sustentado. As famílias queimam oferendas de dinheiro falso ou modelos de papel de carros luxuosos em caso do ancestral precisar de troco ou de uma viagem com estilo no além.

Mas aqui nos secos desfiladeiros ao longo do Rio Amarelo, conhecido como planalto Loess, alguns parentes com filhos solteiros falecidos vão um passo além. Para assegurar o contentamento do filho no além, alguns pais pesarosos buscam por uma mulher morta para ser sua noiva e, assim que o cadáver é obtido, enterram o par junto como sendo um casal.

"Isto acontece com freqüência, especialmente quando adolescentes ou jovens morrem", disse Yang Husheng, 48 anos, um diretor funerário itinerante na região, que disse que faz poucos meses desde que atendeu a um destes funerais. "É bastante comum. Eu já estou no ramo há sete ou oito anos e já vi todo tipo de coisa."

Ruth Fremson/The New York Times 
Chen Xingwu diz que prática é para encontrar esposa para um filho que fracassou na vida

O hábito rural, surpreendente para a sensibilidade ocidental, é conhecido como "minghun", ou casamento do pós-vida. Estudiosos do costume disseram que ele está enraizado na forma chinesa de adoração aos ancestrais, que diz que as pessoas continuam a existir após a morte e que os vivos são obrigados a cuidar de seus desejos - ou enfrentar as conseqüências. As crenças tradicionais chinesas também dizem que uma vida não casada é incompleta, o motivo de alguns pais se preocuparem com a possibilidade de infelicidade do filho morto não casado.

Em entrevistas aleatórias em diferentes aldeias por todo o planalto Loess, que se espalha por partes das províncias de Shanxi e Shaanxi, todos reconheceram o hábito. As pessoas disseram que os pais de um filho morto dependem de uma rede informal de amigos ou parentes, ou mesmo de uma pessoa influente, para localizar uma família que tenha perdido recentemente uma filha solteira. A compra e venda de cadáveres para fins comerciais é ilegal na China, mas estas transações individuais, geralmente por dinheiro, parecem cair em uma categoria obscura e são discretamente arranjadas entre as famílias.

Em algumas aldeias, um filho está pronto para ter uma esposa se tiver 12 anos ou mais quando morrer. Nenhuma das pessoas entrevistadas considerava o hábito vergonhoso ou macabro. Em vez disso, ele foi descrito como um dever dos pais para com o filho perdido e que reflete os valores confucianos de lealdade à família.

"Os pais têm um senso de responsabilidade para com seus filho", disse uma mulher, Li Yinlan. Ela disse que já participou de cerimônias onde os caixões eram colocados lado a lado e músicos tocavam uma nênia com trompas. "Este costume está por toda parte", ela disse sobre sua região.

O Partido Comunista já tenta há muito tempo, com sucesso mediano, extinguir crenças que considera superstição. Mas a continuidade da prática do antigo costume no planalto de Loess é um testamento do isolamento extremo da região. Em outras partes da China rural, é difícil saber com que freqüência o costume é seguido ou se não é.

O planalto de Loess, uma região de desfiladeiros onde algumas aldeias são inacessíveis por estradas, fica separado de grande parte das mudanças que estão ocorrendo na China. Muitos jovens fugiram das colinas áridas, enquanto aqueles que ficam para trás se esforçam para obter sucesso em suas plantações. Muitos dos homens que ficam para trás também têm dificuldade para encontrar uma esposa.

O motivo é que muitas mulheres que partem para trabalhar nas cidades nunca retornam, enquanto as mulheres que permanecem podem se dar ao luxo de ser seletivas. Nenhuma família aprovaria o casamento de uma filha com um homem pobre demais para pagar um dote e assegurar um futuro decente. As famílias dos solteiros mais pobres às vezes reúnem suas economias para comprar uma esposa de vendedores de noivas, que às vezes atraem, enganam ou seqüestram mulheres de outras regiões e então as vendem ilegalmente para casamento.

Na minúscula aldeia de Chenjiayuan, um agricultor chamado Chen Xingwu, 57 anos, espetou uma pá em seu campo no alto do penhasco, com vista para o Rio Amarelo, e disse que a prática do minghun representa o esforço final dos pais para encontrar uma esposa para um filho, após terem fracassado durante sua vida. Ele disse que os pais de um homem inválido, por exemplo, estavam tão preocupados com a possibilidade de seu filho morrer antes de encontrar uma esposa que recentemente deram um anel e brincos de ouro para a família de uma jovem para a garantirem como noiva.

Chen disse que seu próprio casamento foi um golpe de sorte, ocorrendo tardiamente, aos 35 anos, após intenso lobby junto à família de uma jovem de outra aldeia. Ele lhe permitiu que tivesse três filhos e assegurasse a continuidade do nome de sua família. Mas Chen disse que o número de noivas disponíveis é limitado, uma escassez que aumenta seu valor - uma ironia, já que em algumas famílias rurais, cientes da política chinesa de um único filho, abortam os fetos femininos antes do nascimento ou abandonam as menina recém-nascidas.

"Para as garotas, não importa se são idiotas ou não", disse Chen. "Ainda assim há interesse nelas como esposas." Mortas ou vivas, concordou Chen, enquanto olhava para o Rio Amarelo. "Há garotas que se afogaram no rio lá embaixo", ele disse. "Quando seus corpos são recuperados, suas famílias podem conseguir uns dois milhares de
yuans por eles."

Os aldeões e Yang, o diretor funerário, disse que uma família em busca de um cadáver feminino geralmente paga mais de 10 mil yuans, ou cerca de US$ 1.200, quase quatro anos de renda para um agricultor médio. As famílias das noivas consideram o dinheiro como o dote que receberiam caso a morte não tivesse ocorrido.

A existência de tal mercado para noivas levou a relatos isolados de roubo de túmulos. Neste ano, um homem na província de Shaanxi, no sul, capturou dois homens que tentavam desenterrar o corpo de sua esposa, segundo a imprensa local. Em fevereiro, uma mulher da cidade de Yangquan tentou comprar os restos mortais de uma menina morta de 15 anos, abandonada em um hospital de outra cidade, para satisfazer seu irmão morto solteiro. Ela disse que o fantasma do irmão estava invadindo seus sonhos e exigindo uma esposa, segundo o noticiário.

Na aldeia de Qinjiagelao, onde cerca de um entre quatro homens em idade para casar é solteiro, Qin Yuxing, 80 anos, é um avô que não tem vergonha da prática do minghun ou do fato de ter comprado esposas para seus dois filhos.

Seu filho mais novo, de 40 anos, tentou encontrar uma esposa mas a família era pobre demais. Qin economizou dinheiro e comprou uma esposa de um homem que apareceu no mercado local, oferecendo uma mulher por US$ 500. A mulher lhe deu um filho e então partiu, há três anos, para visitar sua família - e nunca mais voltou.

"As pessoas não estão dispostas a vir aqui", disse o velho Qin para explicar o motivo para comprar uma mulher para seu filho. Sua aldeia fica situada no topo de um penhasco e não tinha acesso por estrada até o ano passado. As mulheres freqüentemente enfrentam trabalho árduo. "Nem adiantava ele procurar por uma noiva", o pai acrescentou.

Qin disse que pressões semelhantes pesaram na família vizinha após a morte de um filho solteiro em uma explosão de gás, há mais de uma década. Aquela família gastou US$ 500 para um casamento pós-vida, disse. A esposa de Qin, Cao Guoxiang, 76 anos, lembrou de outro caso envolvendo a compra por pais de uma esposa morta para seu filho solteiro, um caminhoneiro que morreu em um acidente.

"Os pais dele procuraram por uma boa companheira para ele", disse Cao. "Eles encontraram uma garota na cidade de Wubao."

Cao disse que a cerimônia realizada em tal evento depende das posses da
família. "Os pobres apenas trazem os corpos e os colocam na terra", disse. "Pessoas com dinheiro promovem uma recepção e abatem um porco ou
carneiro para os amigos."

Ela acrescentou: "É superstição e religião. As pessoas vivem como casais. Se morrem, devem também viver como casais".

E é por isso que as famílias pobres demais para comprar uma esposa minghun também seguem um costume semelhante em algumas aldeias. Elas fazem uma figura de palha e enterram ao lado do filho morto como a esposa que nunca teve. George El Khouri Andolfato

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