UOL Notícias Internacional
 

06/10/2006

França busca proibição do fumo em público

The New York Times
Elaine Sciolino, em Paris

Ariane Bernard
Jean-Paul Sartre fumava. Assim como Colette, Cocteau, Camus e Coco Chanel.

Uma das cenas mais memoráveis no cinema francês é Jean-Paul Belmondo levantando sua cabeça, tragando um cigarro e esfregando o polegar nos lábios em "Acossado". (Ele fuma cerca de duas dezenas de vezes no filme).

Há algo em fumar que parece bastante francês.

Mas como em outros países europeus, fumar em público está cada vez mais perdendo espaço aqui. Nesta semana, após uma investigação governamental de cinco meses, um comitê parlamentar aprovou uma proposta de proibição do fumo em áreas públicas.

Segundo a medida, cafés, hotéis, restaurantes, discotecas e cassinos poderão designar espaços para fumantes apenas se puderem ser "áreas hermeticamente seladas, equipadas com sistemas de filtragem de ar e sujeitas a normas de saúde extremamente rigorosas".

Owen Franken/The New York Times 
Para donos de bares e tabacarias, campanha anti-fumo interfere nos direitos do indivíduo

O primeiro-ministro Dominique de Villepin disse que decidirá rapidamente como proceder na matéria. "O povo francês não entenderá se não tomarmos uma decisão" diante da pesquisa, disse na segunda-feira a membros do Parlamento.

Mas nem todos aqui concordam. Para fumantes inveterados e muitos donos de bares, restaurantes e tabacarias, a campanha reflete a perda de um valor francês fundamental - os direitos do indivíduo.

"Eu considero isto como um ataque pessoal", disse Andre Santini, um membro parisiense de centro-direita do Parlamento e fumante compulsivo de charuto, que posou para fotógrafos nesta semana em um quiosque de tabaco no prédio da Assembléia Nacional. "O que me perturba são os aiatolás que você encontra em toda parte. Eles lhe dizem como deve fazer amor, como deve comer."

No final do ano, o quiosque não mais venderá cigarros, charutos e cigarrilhas, apenas guloseimas e jornais. Igualmente ruim, segundo ele, é que o fumo logo será proibido até mesmo nos corredores de pé direito elevado da própria Assembléia Nacional.

A história da França com o tabaco remonta mais de quatro séculos. A nicotina, afinal, recebeu seu nome de Jean Nicot, um embaixador do século 16 em Portugal, que levou folhas de tabaco importadas dos Estados Unidos para Catarina de Médici como uma cura para suas enxaquecas.

Mas a França também sempre esteve na linha de frente do movimento antifumo na Europa, aprovando a legislação mais dura do continente em 1991. O fumo foi proibido na maioria dos lugares públicos, incluindo restaurantes, exceto em áreas designadas. Produtos de tabaco foram obrigados a apresentar alertas de saúde. A propaganda de cigarro foi proibida em 1993. Mas havia brechas e a aplicação da lei tem sido irregular. A nova medida é ainda mais dura, tornando difícil -e caro- criar áreas separadas para fumantes.

O presidente Jacques Chirac, que na época fumava três maços por dia, declarou uma "guerra ao tabaco" em 2003 e impôs grandes aumentos de impostos aos cigarros. Hoje, quase 80% dos franceses apóiam a idéia de proibir o fumo em locais públicos.

Ainda assim, cerca de 12 milhões dos franceses - cerca de 20% da população - são fumantes, segundo números oficiais do governo, e mais de 70 mil pessoas morrem anualmente na França por males ligados ao fumo ou ao fumo indireto.

O fumo continua particularmente predominante e aceitável entre os jovens. Os colégios públicos franceses permitem que os aluno fumem no intervalo.

A Maison Prunier, uma famosa brasserie art déco de ostra e caviar em Paris, ainda vende charutos caros, após as refeições, para sua clientela.

Mas mesmo seus gerentes acreditam que a proibição pode não ser ruim. "Nós servimos refeições gourmet, de forma que é desagradável que charutos sejam fumados aqui", disse Benoít Rade, um dos maitres do Prunier. "O fumo é um problema para a maioria de nossos funcionários e também para alguns clientes. Um cliente pode se abster de fumar por cerca de uma hora. Será muito melhor."

O La Coupole, uma grande e clássica brasserie de Paris cuja marca registrada antes era a nuvem de fumaça, impôs uma proibição quase total ao fumo por conta própria em julho, em antecipação ao decreto do governo.

A nova campanha para proibição do fumo em público ocorre após proibições de vários graus -e vários graus de oposição- por toda a Europa.

A proibição na Itália de fumo em locais públicos, em janeiro passado, foi recebida com feroz resistência, incluindo uma campanha para um plebiscito nacional para derrubá-la e a publicação em jornais de listas de restaurantes onde é permitido fumar. Um cinema exibiu um filme mexicano chamado "Nicotina" e ofereceu entrada gratuita para espectadores que aparecessem com um maço de cigarros.

Muitos empresários franceses prevêem que seus negócios serão seriamente
afetados e uma queda nos lucros. Eles certamente (já que se trata da França) exigirão indenização.

"Haverá danos consideráveis", disse François Attrazic, o líder do principal sindicato de donos de hotéis e restaurantes (e um fumante ocasional). "Nós não avaliamos quanto porque é complicado, mas estamos ouvindo coisas de países que proibiram e que mostram uma queda de 25 a 30% nas vendas em alguns estabelecimentos." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host