UOL Notícias Internacional
 

07/10/2006

Um recrutador falando em árabe tendo dificuldade para ser ouvido

The New York Times
Andrea Elliott

Em El Cajon, Califórnia
O sargento Cameron Murad perambula pelos shoppings e estacionamentos deste enclave iraquiano nas encostas áridas além de San Diego. Onde quer que ele vá, um silêncio parece segui-lo.

Ele pára na entrada de uma mercearia árabe em traje cáqui e boné de beisebol, tentando se misturar. Ele sorri gentilmente. Ele oferece uma ocasional saudação em árabe.

Discretamente, ele procura pelos corredores por uma versão de si mesmo: um expatriado iraquiano com ambições maiores do que perspectivas, um imigrante muçulmano disposto a travar uma guerra americana.

Jim Wilson/The New York Times 
Cameron Murad (de costas) recruta pessoas que falam árabe para servir nas tropas no Iraque

Há inúmeros trabalhos difíceis para os soldados americanos que apóiam a ocupação do Iraque. Poucos parecem mais impossíveis do que o designado a Murad. À medida que o conflito se torna cada vez mais violento e impopular, o sargento deve persuadir pessoas que falam árabe a se alistarem para servir nas tropas da linha de frente. "Eu me sinto como um nômade no meio do deserto à procura de pastos verdes", disse Murad, 34 anos, que é da região curda do Iraque.

Intérpretes se tornaram figuras chaves na ocupação. Eles trabalham para os comandantes nos encontros com prefeitos e xeques. Eles traduzem durante interrogatórios de prisioneiros iraquianos. Eles acompanham os soldados em missões arriscadas.

Na busca urgente por pessoas que falem árabe, as forças armadas se voltaram para os imigrantes do Oriente Médio nos Estados Unidos. Murad é uma estrela em ascensão neste esforço. Ele já recrutou 10 homens para o programa em pouco mais de um ano, um recorde sem igual na Guarda Nacional do Exército.

Ainda assim, ele é um soldado improvável na campanha. Sua própria
evolução -de imigrante adolescente que chegou a Dakota do Norte após a
Guerra do Golfo Pérsico a sargento eficiente -foi marcada por sofrimento.

No campo de treinamento, ele era chamado de "cabeça de trapo". Os
companheiros questionavam sua lealdade. No ano passado, um sargento o
cumprimento dizendo: "Aí vem o Taleban!"

Ele se lembra do dia em 2002 em que o comediante Drew Carey visitou uma base na Arábia Saudita em que ele estava trabalhando. Durante um esquete, lembrou Murad, Carey caiu no chão para imitar a oração muçulmana. Enquanto os soldados gargalhavam, Murad partiu.

"Eu me lembrei de minha mãe quando ela reza, quão humilde ela é", ele disse.

Mas, um dia após o outro, Murad busca vender a outros imigrantes a vida que leva. Ele acredita que os muçulmanos precisam das forças armadas mais do que nunca, ele disse: em um momento em que muitos se sentem alienados, elas oferecem um caminho para a assimilação, uma forma de se tornar inegavelmente americano.

"É quase como o Super-Homem vestindo sua capa", disse o sargento Jamal
Baadani, 42 anos, um imigrante egípcio junto ao Corpo dos Marines dos
Estados Unidos. "Eu tenho meu uniforme e você não pode tirá-lo de mim porque eu o consegui por mérito."

Murad também, mas com um preço. Ele teve que mudar seu nome. Ele se afastou do Islã. Ele freqüentemente se vê em conflito com os imigrantes que tenta alistar.

Para muitos deles, ele é um mistério. Para si mesmo, ele é um homem de
contradições inevitáveis: um patriota americano e um curdo leal, um soldado fora das forças armadas, um sobrevivente dentro delas.

Se sentindo como um pária

O sargento tem 1,82 m, mas freqüentemente se mostra contraído, com as mãos educadamente apertadas. Ele tem um nariz longo e distinto e usa óculos que escurecem no sol mas nunca clareiam completamente, lhe concedendo uma aura distante.

Ele circula pelas ruas de El Cajon em uma picape Toyota Tacoma preta. Na traseira, ele carrega pilhas de folhetos anunciando o que o Exército chama de programa "09-Lima".

No programa, pessoas que falam árabe, farsi, dari, pashto e curdo são
enviadas para um campo de treinamento como outros soldados. Elas
posteriormente recebem treinamento especializado como intérpretes e a
maioria é enviada para o Iraque.

Dos milhares de intérpretes que trabalham para as forças armadas no Iraque, a maioria é composta de civis trabalhando sob contrato, alguns dos quais ganhando até US$ 170 mil por ano. Mas os comandantes militares preferem intérpretes uniformizados porque não podem recusar missões de combate e estão sujeitos a checagens de segurança mais amplas.

Eles recebem uma fração do que muitos intérpretes civis ganham, com salários que começam em cerca de US$ 28 mil, incluindo bonificação. As vantagens do programa, como a aceleração da cidadania, um bônus inicial e plano de saúde, são um grande atrativo, disseram oficiais militares.

Desde que o Exército criou o programa em 2003, mais de 800 pessoas se
alistaram. Mas quase 40% já abandonaram ou fracassaram nas provas de língua ou no campo de treinamento. O alistamento no programa melhorou com a ajuda dos civis que falam árabe contratados pelo Exército para recrutar.

Na Califórnia, a Guarda Nacional do Exército está tentando a mesma
abordagem, mas com soldados. O capitão Hatem Abdine formou uma equipe de soldados, a maioria imigrantes do Oriente Médio ou descendentes, para ajudar no recrutamento em tempo integral, e trouxe Murad no ano passado.

Em abril, o sargento chegou a El Cajon. Antes do término da primeira semana, ele se sentiu como um pária.

Pilhas de folhetos e cartões de contato que ele deixou no comércio
desapareceram. Caixas que antes lhes davam as boas-vindas nas primeiras
visitas repentinamente estavam ocupados demais para conversar. Um gerente fugiu da loja. O dono de outra loja lhe deu as costas e se voltou aos seus afazeres.

"Eles ficam agitados demais quando me aproximo", disse Murad. "É porque sou feio? Eu não me considero tão feio."

Situada em um vale seco, El Cajon atraiu seus primeiros colonos iraquianos há meio século devido à semelhança com sua terra natal. A população cresceu nos anos 90, quando milhares de refugiados -principalmente curdos, xiitas e cristãos caldeus- se juntaram ao que antes era domínio de brancos e latinos.

Murad circula com sua picape cheia de itens promocionais do Exército, como uma caixa de camisetas que diz, em árabe, "Se você consegue ler isto", e então em inglês, "a Guarda Nacional precisa de você". Mas ele não consegue vestir uma.

"Vestir esta camisa e ficar sem corar é algo quase impossível para mim", disse.

Ele defende uma abordagem mais sutil. Ele caminha por restaurantes e
barbearias, como se estivesse apenas de passagem. Ele diz "Assalamu alaikum", ou a paz esteja contigo.

Uma conversa começa. Logo, Murad está se lembrando de sua terra natal,
Kirkuk. Então, quase como por acaso, ele menciona seu trabalho. "Me telefone se souber de alguém", ele diz, oferecendo um cartão.

Mas o telefonema raramente ocorre. Quando ocorre, o recrutamento é difícil. No final de 2005, Murad alistou seus primeiros dois recrutas. Nos 12 meses seguintes, ele encontrou outros 20 homens. Metade deles mudou de idéia.

Freqüentemente os recrutas não vão até o fim por objeções de um pai ou
cônjuge. Outros tomam conhecimento de oportunidades mais lucrativas. As
vitrines das lojas em El Cajon estão repletas de folhetos anunciando
salários de seis dígitos para intérpretes civis.

Alguns dos candidatos do sargento são vencidos pelo medo. Um egípcio de 33 anos de Hemet, Califórnia, deixou o programa em junho após assistir ao noticiário da região nos canais de televisão árabes.

"Eu sei o que está acontecendo lá", disse o homem, que não quis dar seu
nome. "Meus filhos precisam mais de mim do que do dinheiro."

Do final de 2002 até maio de 2006, 172 intérpretes civis contratados foram mortos no Iraque e no Afeganistão, representando 2,6% dos cerca de 6.500 intérpretes que trabalham para as forças da coalizão americana, disse um funcionário do Departamento de Defesa.

Nenhum dos 152 intérpretes que serviram no Iraque pelo programa 09-Lima foi morto. Mas o fato tem pouco peso em El Cajon, onde as lembranças da
violência persistem.

"Eles vieram para cá para viver em paz e agora estão pedindo para irem à guerra", disse o dono de uma padaria na rua principal, que lutou contra o Irã pelo exército de Saddam Hussein. "Nós estamos fartos de guerra." George El Khouri Andolfato

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