UOL Notícias Internacional
 

11/10/2006

Consultor de vinho que formata os gostos mundiais

The New York Times
Eric Asimov
Entra Michel Rolland, o mais famoso consultor de vinhos do mundo -talvez o único consultor de vinho famoso do mundo. Em seu alinhado terno azul, barba branca bem aparada, carregando uma lustrosa mala de couro, Rolland parecia pronto para o conselho de diretores, em vez do vinhedo, a adega ou o aeroporto, seus ambientes comuns.

Owen Franken/The New York Times 
Rolland (direita): "Um produtor nunca muda o caráter de um vinho, pois ele vem das uvas"

Ele chegou tarde nesta fresca manhã de setembro para um café da manhã marcado por um de seus representantes americanos no Union League Club, muito diferente de seu hotel francês elegante, Le Parker Meridien (nenhuma relação com seu bom amigo, o escritor de vinho Robert M. Parker Jr.). Viera de jato da França no dia anterior para uma degustação corporativa e voltaria para Pomerol, sua casa, depois de nosso café e de uma rápida parada nos estúdios da Wnyc-AM, no centro da cidade, para participar do programa de Leonard Lopate.

Se parecia um pouco apressado, era apenas natural. Bordeaux está no meio da colheita, e ele queria voltar a ela. "Começou um pouco antes do esperado", disse ele. Com mais de 100 clientes espalhados em cinco continentes, é difícil imaginar um momento em que Rolland não esteja olhando para seu relógio e correndo.

Os negócios atualmente estão melhores do que nunca para Rolland, 59, que há um ano e meio tinha razões para preocupação. Na época, o documentário de Jonathan Nossiter "Mondovino" já tinha sido lançado na França e estava prestes a estrear nos EUA. O filme polemicamente apresentava um conflito entre a cultura de vinho pastoral, distintamente local, e a economia globalizada que ameaça afogá-la com grande marketing e consumismo homogeneizado.

No meio dessa vilania apresentada por Nossiter estava Rolland, que é retratado como criador de vinhos ricos, luxuosos e vendáveis que têm o mesmo sabor independentemente de onde foram feitos. Ele aparecia como um consultor fumando cigarrilha e andando de motorista e que só desligava o telefone celular para humilhar as pessoas do lugar, sempre rindo, como disse um crítico francês, como Mephistopheles.

Rolland partiu para o ataque, acusando Nossiter de manipulação e desonestidade, que este negou. Clientes e amigos de Rolland defenderam-no. Como resultado, ele saiu do episódio atraindo mais simpatia, e não se tornou motivo de piada, como temia.

"Em termos de negócios, 'Mondovino' foi muito positivo", disse rindo.

Ele de fato ri muito, apesar de não de forma sinistra, como cuidadosamente ressaltam seus amigos.

"Além de ser um gênio, é divertido. Ele tem um jeito de expressar as coisas e fazer as pessoas sentirem que estão fazendo coisas ótimas, mas que talvez pudessem melhorar um pouco", disse Andy Erickson, produtor de vinho que conhece Rolland há 12 anos e trabalhou com ele em Harlan Estate, Staglin Family Vineyards e Ovid Vineyards, um ambicioso empreendimento em Napa Valley.

Em pessoa, Rolland é informal e pé no chão. Ele mergulha seu croissant no café enquanto conversamos. É modesto e freqüentemente repete comentários que vão contra si: "Um produtor de vinho nunca, nunca muda o caráter de um vinho. O caráter vem das uvas."

Ainda assim, a risada e as piadas escondem uma certeza absoluta e desdenho por opiniões divergentes.

Conversamos sobre o nível crescente de álcool nos vinhos e a tendência de permitir que as uvas amadureçam por mais tempo antes de serem colhidas. Os vinhos resultantes são maiores e mais opulentos, mais doces, com taninos mais suaves e uma ausência de sabores de ervas que eram comuns em vinhos de base cabernet sauvignon. Menciono Clos du Val e Corison, dois produtores do Napa Valley cujos vinhos aderem a um estilo mais austero e Rolland é impressionantemente crítico.

"Eles têm sucesso no mercado? Não", disse ele, empolgando-se. "O vinho é feito para quê? Para o público! Vinho é negócio. Eles querem fazer vinho para vender vinho. Nos EUA, são honestos e assumem que querem boa classificação. Não querem vinhos perdedores."

Rolland expressa espanto que algumas pessoas tenham saudade do estilo de vinho mais magro e menos maduro da Califórnia dos anos 70. Havia boas garrafas na época, admite, mas poucas. "Eu vim aos EUA em 1984 e 85 e fiz muitas degustações", disse ele. "Hoje um rapaz jovem como eu não conseguiria experimentar todos os vinhos bons em uma semana. Na época, dava para fazer em uma hora."

Não é preciso dizer, Rolland não faz vinhos perdedores, ao menos não de acordo com críticos americanos como Parker e Wine Spectator, cujas classificações freqüentemente movem o mercado do vinho. Seus clientes incluem notáveis de St.Emilion como Ângelus, Ausone e Valandraud, assim como Pape Clement em Pessac-Leognan, Pontet-Canet em Pauillac, Ornellaia na Toscana e Harlan Estate, Bryant Family, Araújo e Dalla Valle em Napa. Mas Rolland não se restringe a produtores festejados. Ele também ajuda vinicultores na Bulgária, Grécia, Índia e Brasil. Ele e sua mulher, Dany, que também é enologista e produtora de vinho, têm participações em 11 vinícolas, estendendo-se de Pomerol até a Espanha, África do Sul e Argentina.

Como Parker, ele afirma que o mercado de vinho é muito mais diverso hoje do que antes e que a qualidade do vinho nunca foi tão boa. Ele rejeita as críticas que seu estilo favorito de sabores voluptuosos, maduros e frutados e texturas suaves esteja fazendo os vinhos terem o mesmo gosto de Pomerol até Napa e Argentina.

"Temos menos globalização hoje do que há 20 anos", disse ele. "As grandes marcas eram muito mais fortes na época. Havia muito menos pequenos produtores. Não estamos padronizando vinhos. Estamos apenas fazendo bons vinhos." Deborah Weinberg

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