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11/10/2006

Europeus temem que muçulmanos não possam se adaptar

The New York Times
Dan Bilefsky, em Bruxelas

com Ian Fisher, em Roma
Os europeus parecem estar cruzando uma linha invisível em relação às suas minorias muçulmanas: mais pessoas do centro político estão argumentando que o Islã não pode ser conciliado com os valores europeus.

"Você viu o que aconteceu com o papa", disse Patrick Gonman, 43 anos, dono do Raga, um excêntrico bar de vinho no centro de Antuérpia, a 40 quilômetros daqui. "Ele disse que o Islã é uma religião agressiva. E no dia seguinte eles matam uma freira em algum lugar e confirmam seu argumento."

"A racionalidade desapareceu."

Gonman está longe de ser um extremista. Na verdade, ele organizou um protesto na semana passada, no qual 20 bares e restaurantes fecharam à noite quando um partido de extrema direita, com uma mensagem antimuçulmana, realizava no comício nas proximidades.

Sua preocupação é compartilhada por centristas por toda a Europa, furiosos com os ataques terroristas em nome da religião em um continente que em grande parte a abandonou, e perturbados com a possibilidade de que qualquer crítica ao Islã ou à imigração muçulmana possa provocar ameaças de violência.

Por anos, aqueles que erguiam suas vozes eram na maioria da extrema direita. Agora, aqueles normalmente vistos como moderados - pessoas comuns assim como políticos - estão se perguntando se valores inquestionáveis de tolerância e multiculturalismo devem ter limites.

O ex-ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Jack Straw, um proeminente político trabalhista, pareceu resumir o momento quando escreveu, na semana passada, que se sentia desconfortável se dirigindo a mulheres com os rostos cobertos por um véu. O véu, ele escreveu, é uma "declaração visível de separação e diferença".

Quando o papa Bento 16 fez o discurso no mês passado que incluía uma citação que considerava aspectos do Islã "malignos e desumanos", ele pareceu expressar tais sentimentos. Os muçulmanos o acusaram de estigmatizar sua cultura, enquanto não-muçulmanos o aplaudiram por falar corajosamente a verdade.

A linha entre crítica aberta a outro grupo ou religião e preconceito pode ser tênue e muitos muçulmanos temem que ela esteja sendo cruzada cada vez mais.

Sejam quais forem as motivações, "a realidade é que os pontos de vista de ambos os lados estão se tornando cada vez mais extremos", disse o imã Wahid Pedersen, um proeminente dinamarquês convertido ao Islã. "Se tornou politicamente correto atacar o Islã e isto dificulta para os moderados de ambos os lados permanecerem razoáveis." Pedersen teme que antigos moderados estejam se voltando contra os muçulmanos, as pessoas que deveriam estar integrando à Europa.

As preocupações com o extremismo são reais. O partido de extrema direita belga, Vlaams Belang, recebeu 20,5% dos votos nas eleições municipais de domingo, cinco pontos percentuais a mais do que em 2000. Mas em Antuérpia, sua base, sua performance melhorou de forma pouco significativa, sugerindo a alguns especialistas que sua força pode ter chegado ao máximo.

Na Áustria neste mês, os partidos de direita também se saíram bem nas urnas, com uma promessa de campanha raramente feita de forma aberta: que a Áustria deve começar a deportar seus imigrantes. O Vlaams Belang também sugeriu a "repatriação " de imigrantes que não façam esforços para se integrar.

A idéia é impensável para os líderes centristas, mas muitos muçulmanos ainda temem que tal dia -ou no mínimo a discussão do assunto- possa estar a apenas um ataque de distância.

"Eu acho que tal dia chegará", disse Amir Shafe, 34 anos, um paquistanês que ganha bem vendendo roupas em um mercado em Antuérpia. Ele condena o terrorismo e disse não sentir hostilidade na Bélgica. Mas, ele disse, "nós agora estamos pensando em voltar ao nosso país antes que tal dia chegue".

Muitos especialistas notam que há uma história profunda e conturbada entre o Islã e a Europa, com os cruzados e o Império Otomano se enfrentando por séculos e definindo sangrentamente as fronteiras do cristianismo e do Islã. Um senso de culpa pelo passado colonial da Europa e depois pela Segunda Guerra Mundial, quando a intolerância explodiu em assassinato em massa, permitiu que ocorresse uma grande migração sem qualquer debate desconfortável sobre as diferenças reais entre os imigrantes e os anfitriões.

Então os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 sacudiram a Europa e despertaram uma nova consciência e preocupação.

Os subseqüentes ataques a bomba em Madri e Londres, assim como o assassinato do cineasta holandês Theo van Gogh por um holandês descendente de marroquinos, se destacaram como exemplos do extremo. Mas muitos europeus - mesmo aqueles que geralmente apóiam a imigração - começaram a falar mais duramente sobre as diferenças culturais, especialmente sobre as crenças religiosas profundas e os valores sociais dos muçulmanos, que são bem mais conservadores do que os da maioria dos europeus em questões como direitos das mulheres e homossexualidade.

"Muita gente, pessoas progressistas - nós não estamos falando de
nacionalistas ou da extrema direita - estão dizendo: 'Agora nós temos esta religião, ela tem um papel e muda nossas suposições sobre o que aprendemos nos anos 60 e 70", disse Joost Lagendik, um membro holandês do Parlamento Europeu pelo esquerdista Partido Verde, que é ativo em questões muçulmanas.

"Então há este medo", ele disse, "de que estamos sendo transportados de
volta em uma máquina do tempo, de forma que temos que explicar para nossos imigrantes de que há igualdade entre homens e mulheres, e que os gays devem ser bem respeitados. Agora há esta idéia de que temos que fazer isto novamente".

Tão forte é o temor de que os valores holandeses de tolerância estejam
sitiados que o governo apresentou no inverno passado um guia sobre tais
valores para os recém-chegados potenciais à vida holandesa: um DVD mostrando brevemente mulheres fazendo topless e dois homens se beijando. O filme não menciona explicitamente os muçulmanos, mas seu público alvo é tão claro quanto sua mensagem: aceite nossa cultura ou vá embora.

Mas talvez a mais dura seja a questão da liberdade de imprensa e expressão, e o crescente temor de que qualquer crítica ao Islã possa provocar violência.

Na França, no mês passado, um professor colegial foi obrigado a se esconder após receber ameaças de morte por escrever um artigo chamando o Profeta Maomé de "senhor da guerra impiedoso, saqueador, assassino em massa de judeus e um polígamo". Na Alemanha, uma ópera de Mozart, com uma cena da cabeça decapitada de Maomé, foi cancelada por temores de segurança.

A cada incidente, os líderes políticos estão se manifestando mais
abertamente. "A autocensura não nos ajuda contra pessoas que querem praticar violência em nome do Islã", disse a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, ao criticar o cancelamento da ópera. "Não faz sentido recuar."

A repercussão está se revelando de outras formas. No mês passado, o ministro do Interior do Reino Unido, John Reid, pediu aos pais muçulmanos que ficassem atentos aos seus filhos. "Não há uma forma agradável de dizer isto", ele disse a um grupo muçulmano no leste de Londres. "Estes fanáticos estão buscando treinar e fazer lavagem cerebral nas crianças, incluindo seus filhos, para realização de atentados suicidas, os treinando para se matarem visando assassinar outros."

Muitos muçulmanos dizem que este novo sentimento está repentinamente impondo expectativas que nunca existiram antes, a de que os muçulmanos sejam exatamente iguais aos seus anfitriões europeus.

Dyab Abou Jahjah, um ativista de origem libanesa aqui na Bélgica, disse que por anos os europeus enfatizaram "cidadania e direitos humanos", a noção de que os imigrantes muçulmanos tinham a responsabilidade de obedecer a lei, podendo fora isto manter suas tradições.

Então alguém vem e diz que é agora é diferente", disse Jahjah, que é contra a assimilação. "Você tem que abandonar sua cultura e religião. É um acordo diferente agora."

Alan Cowell, em Londres; Maia de la Baume, em Paris; Peter Kiefer, em Roma; Mark Landler e Sarah Lyall, em Frankfurt; e Renwick McLean, em Madri, contribuíram com reportagem para este artigo. George El Khouri Andolfato

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