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12/10/2006

Perón está morto, mas não descansando: processo de paternidade está pendente

The New York Times
Larry Rohter

em Buenos Aires
Os argentinos não deixarão o general Juan Domingo Perón descansar em paz. Ele morreu em 1974 e está enterrado no túmulo da família aqui, mas uma batalha em torno de seus restos mortais irrompeu entre seus herdeiros ideológicos, que querem transferir seu corpo para um mausoléu, e uma mulher que alega ser sua filha e deseja que um exame de DNA seja realizado primeiro.

Nicolas Goldberg/The New York Times 
No cemitério La Chacarita, muitos argentinos ainda depositam flores para Juán Perón

Os líderes do movimento peronista e dos sindicatos trabalhistas afiliados a ele anunciaram dois dias de cerimônias para transferência dos restos mortais do general, que se encerrarão em 17 de outubro, o aniversário do levante populista que o levou ao poder em 1945. Alguns até mesmo ameaçaram desafiar a lei caso sejam impedidos pela Justiça, onde está transcorrendo a luta.

Em 2004, os líderes peronistas iniciaram a construção de um mausoléu de US$1,3 milhão para seu líder na propriedade de 19 hectares em San Vicente, um município da Grande Buenos Aires, que o general e sua segunda esposa, Evita, adquiriram em 1946. Um museu em homenagem ao casal atualmente ocupa a propriedade, que Perón sempre disse ter sido cenário de algumas de suas lembranças mais felizes.

"Eu estava com ele em 1953 quando ele disse que queria ser enterrado no solo da Província de Buenos Aires", disse Antonio Francisco Cafiero, 84 anos, o mais velho estadista do movimento peronista e membro da comissão que supervisionou a construção do mausoléu. "A situação atual é de degradação e abandono, e nem atende seus desejos nem é apropriada para uma figura de tamanha importância histórica."

Mas Martha Holgado, 72 anos, tenta há mais de uma década confirmar sua alegação de ser a filha única de Perón, fruto de um breve caso amoroso.
Quando ela soube do plano para transferir os restos mortais, ela imediatamente passou a suspeitar. Ela teme que o reembalsamento do corpo de Perón, que precederá a transferência, causará mudanças químicas que prejudicarão o exame de DNA pelo qual ela luta há muito tempo.

"Isto tudo é uma manobra, e ocorre no momento em que se esgotaram os impedimentos legais à minha demanda pelo teste", disse Holgado em seu apartamento aqui, decorado com fotos do homem que governou a Argentina de 1945 a 1955 e novamente em 1973 e 1974. "Eles querem obter votos e usar o corpo do meu pai como troféu, mas este é um assunto que cabe à família decidir."

Mas os membros da família Perón rejeitam a alegação de Holgado.

"Esta mulher é uma impostora e uma caçadora de fortuna", disse Alejandro Rodríguez Perón, um sobrinho-neto de 45 anos do general, que administra o túmulo da família. "Ela não é uma Perón e não pode ser uma Perón, mas aspira ser uma para que possa pôr suas mãos no que não lhe pertence."

Por anos, para minar a aura de macho bravateador que Perón tinha como ditador, seus inimigos espalharam rumores de que ele era impotente.
Rodríguez Perón mudou tais alegações ao dizer que Perón era impotente devido a um acidente em 1913, quando era um cadete de 18 anos nas forças armadas, que esmagou seus testículos.

"Ele estava se exercitando em um equipamento de ginástica quando escorregou e caiu feio", disse Rodríguez Perón, um caminhoneiro. "Era impossível para ele ter filhos. Ele reconheceu isto em cartas para amigos íntimos, mas é possível imaginar quanto seria difícil naquela época fazer tal confissão em público, especialmente para alguém de sua proeminência."

Mas Holgado respondeu com depoimentos de outros associados de Perón e do caseiro de sua mãe. Tais declarações, algumas feitas durante o longo exílio de Perón após ser removido do poder por um golpe militar em 1955, lembram de incidentes nos quais ele falou tristonhamente de uma filha, cuja existência estava sendo mantida em segredo.

Segundo Holgado, uma certidão de nascimento citando Perón como seu pai foi apresentada muitos anos atrás. Mas, ela disse, um esquadrão da morte de direita pró-Perón removeu o documento dos registros públicos e o destruiu nos anos 70, o que a assustou a não fazer a reivindicação e contribuiu para levá-la para o exílio nos Estados Unidos por algum tempo.

Em 4 de outubro, Holgado obteve uma nova ordem de restrição, reafirmando decisões de 1993 e 94 de que os restos mortais de Perón não devem ser movidos e nem mesmo tocados. Mas advogados do Partido Justicialista, como o movimento peronista é formalmente conhecido, e da família apelaram a ordem e também estão tentando negociar um acordo.

A viúva de Perón e sua sucessora como presidente, Maria Estela Martínez de Perón, conhecida como Isabelita, permaneceu em silêncio durante a controvérsia. Ela vive tranqüilamente na Espanha, onde buscou exílio após ser derrubada e presa no golpe militar de 1976. Por meio de seus advogados, ela aprovou o plano para transferência dos restos mortais e se opôs a qualquer exumação para realização do exame de DNA.

"Ela sabe que Perón é meu pai, porque ela me viu com ele no Panamá em 1956, quando ela ainda estava dançando com poucas roupas" em um cabaré, disse Holgado. "Por isso metade de Buenos Aires sabe que sou a filha de Perón."

Holgado disse que seu principal interesse é estabelecer seu parentesco, mas não negou que também tem interesse nos bens do general. "Por que não ia querer o que é meu?" ela perguntou.

Perón não deixou testamento e foi originalmente enterrado na residência presidencial, nos subúrbios daqui, ao lado de Evita, que morreu em 1952. Após uma junta militar ter tomado o poder em 1976, ela ordenou que os dois corpos fossem removidos do local, e o corpo de Perón foi reenterrado no cemitério La Chacarita, nos arredores da capital.

Mas o túmulo da família Perón ali é pequeno e quase anônimo, apenas um entre muitos ao longo de uma passagem estreita. Seu nome não está gravado no túmulo e seus seguidores tentaram corrigir isto colocando placas homenageando ele e Evita, que está enterrada no cemitério Recoleta de elite.

Além disso, em 1987 o túmulo foi profanado e as mãos de Perón foram cortadas e roubadas. As mãos ainda não foram recuperadas -"e provavelmente não serão a menos que alguém se arrependa em seu leito de morte", disse Cafiero.

Mas a abertura do túmulo permitiu a entrada de ar no caixão e, de lá para cá, o corpo está se deteriorando. Parentes e seguidores queriam deter o processo, mas as várias ordens judiciais obtidas por Holgado em seu favor proíbem especificamente qualquer "inovação" envolvendo os restos mortais.

"O que se pode fazer?" perguntou Cafiero dando de ombros. "Parece ser o destino dos Peróns nem viver e nem morrer em paz." George El Khouri Andolfato

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