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17/10/2006

Em meio a boom tecnológico, Índia tem mais empregos do que trabalhadores

The New York Times
Somini Sengupta

em Tiruchengode, Índia
No momento em que as suas empresas do setor de tecnologia prosperam com a tendência à terceirização, a Índia se depara com um desafio inesperado. Em um país que já foi tido como fonte inesgotável de engenheiros fluentes em inglês, dispostos a receber baixos salários e prontos para trabalhar, uma carência de mão de obra paira no horizonte.

A Índia ainda produz uma grande quantidade de engenheiros. Segundo as últimas estimativas, são quase 400 mil profissionais por ano. Mas a competência desses trabalhadores está sendo colocada em dúvida.

Um estudo encomendado pelo grupo comercial Associação Nacional de Companhias de Software e Serviço, ou Nasscom, revelou que apenas um em cada quatro engenheiros tem condições de ser contratado por empresas de tecnologia. Os outros demostraram deficiências nas habilidades técnicas exigidas, na fluência em inglês ou na capacidade de trabalhar em equipe ou de fazer apresentações orais básicas.

Essa lacuna em termos de habilidades é um reflexo da exigüidade de educação superior de alta qualidade na Índia e do ritmo estonteante de crescimento da economia do país, liderada pelo setor de serviços, e que em termos de expansão só perde para a China. Somente as exportações na área de softwares acusaram uma expansão de 33% no ano passado.

Os sistemas universitários de poucos países seriam capazes de acompanhar tal demanda, e a Índia está sem dúvida enfrentando problemas nessa área. As melhores e mais seletivas universidades do país geram um número demasiadamente pequeno de graduados, e as novas faculdades particulares estão produzindo profissionais de qualidade duvidosa.

Muitos temem que este problema seja um sinal da existência de gargalos em outras partes da economia. Isso é algo que já se observa no setor de tecnologia da informação.

Com a expectativa de que os empregos do setor tecnológico quase dobrem de número, chegando a 1,7 milhão nos próximos quatro anos, as companhias estão se empenhando em encontrar novos talentos no campo da engenharia e em atualizar as instituições de ensino superior que produzem esses profissioinais.

Algumas companhias treinam por conta própria membros do corpo docente, oferecem cursos voltados para as necessidades do setor e melhoram a qualidade dos laboratórios e das bibliotecas das faculdades. Essas empresas não perdem tempo para serem as primeiras a escolher os futuros engenheiros antes mesmo que estes terminem seus cursos. E com tal objetivo elas estão se voltando para faculdades pequenas e remotas das quais ninguém ouviu anteriomente falar.

As mais bem sucedidas instituições tecnológicas do país não podem mais se dar ao luxo de realizar recrutamentos apenas nas mais prestigiadas universidades indianas. E elas tampouco podem achar que os recém-graduados estejam prontos a trabalhar instantaneamente nas suas unidades de produção. A maioria das companhias exige que todos os novos funcionários passem por um treinamento interno com duração de dois a seis meses.

E o excesso de demanda começa a gerar efeitos nos patamares mais baixos da escala funcional. Os salários iniciais na indústria de software tiveram um aumento médio de 10% a 15% nos últimos anos. E a Nasscom prevê uma carência de 500 mil profissionais do setor de tecnologia por volta de 2010.

Não há dúvida de que a carência de mão-de-obra é um problema causado pela prosperidade, e esse problema começa a se fazer sentir em todos os nichos da economia do setor de serviços. A ICICI, a maior empresa de serviços financeiros do país, anunciou planos para a contratação de 40 mil empregados nos próximos três anos.

A Associação de Varejistas da Índia anunciou em julho passado que a sua indústria de rápida expansão necessitará de quase 115 mil trabalhadores nos próximos seis meses. A Reuters anunciou neste mês que o Google está tendo dificuldades para encontrar trabalhadores indianos proficientes nas tecnologias de linguagem e de software utilizadas na última geração de websites.

Neste ano a maior companhia de software da Índia, a Tata Consultancy Services, pretende agregar 30 mil indivíduos à sua força de trabalho, que atualmente é de 72 mil pessoas. Uma demonstração disso foi o fato de, em uma tarde recente, um grupo de quatro funcionários da companhia ter visitado as salas de uma faculdade fundada por um magnata local do setor têxtil nesta pequena cidade no sul da Índia.

A equipe veio a Tiruchengode com o objetivo de selecionar a sua próxima geração de programadores de software e de avaliar como, no curto prazo, a companhia poderia ajudar a faculdade a produzir rapidamente uma quantidade maior dos profissionais dos quais ela necessita. "Esses são os caras que vão criar o meu Windows 2010", brincou um dos recrutadores.
"Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar talentos", declarou A.K. Pattabiraman, um membro da equipe.

Eles fizeram várias perguntas aos professores e administradores: Quantos membros do corpo docente têm doutorado? Por que tantos alunos têm matérias pendentes ao ingressarem no seu quarto e último ano? Que programas eles usam para o curso de mecatrônica - uma combinação de mecânica, tecnologia da informação e eletrônica?

Eles avaliaram a capacidade dos alunos de raciocinar e falar, apresentando tópicos para debates, como democracia versus ditadura, assim como questões de testes de ciências, perguntando, por exemplo, o que aconhtece com uma vareta de ferro colocada em um recipiente contendo ácido nítrico. Os recrutadores examinaram os materiais existentes na biblioteca e no laboratório de língua inglesa da universidade.

O exercício fazia parte de um processo elaborado por parte da companhia para determinar se este campus, a Faculdade de Educação Técnica K.S. Rangasamy, poderia ser agregado ao grupo de faculdades que é alvo de campanhas de recrutamento.

No passado a Tata Consultancy Services precisava apenas atuar nas principais faculdades de engenharia do país: os nove campi do Instituto Indiano de Tecnologia e em alguns outros, nos quais a admissão é muito mais difícil do que o ingresso nas universidades norte-americanas de elite que compõe a Ivy League (Harvard, Brown, Cornell, Yale, Princeton, Universidade da Pensilvânia, Dartmouth e Columbia).

Atualmente a lista inclui 209 instituições, muitas das quais, como esta, são faculdades particulares recém-inauguradas que surgiram com o objetivo de atender às aspirações de uma nova geração de estudantes. Rangasamy, o fundador da faculdade, é ele próprio um produto da expansão econômica indiana. As suas fábricas produzem toalhas de mesa e lençóis para a K-Mart e o Marriott.

Rangasamy só cursou a escola até a quarta série e não fala uma só palavra em inglês. Mas o aglomerado de faculdades que ele criou educa quase 12 mil alunos. Desses, quase 3.600 estudam engenharia de software, e a maioria deles, segundo autoridades acadêmicas, são os primeiros em suas famílias a frequentar uma instituição de ensino superior.

O endosso da Tata Consultancy sem dúvida se constitui em um prêmio para a faculdade, e o campus foi adornado com flores e faixas saudando a equipe de funcionários da companhia. Ser certificado como integrante do grupo de faculdades aprovadas pela companhia significaria que os alunos teriam uma chance de conseguir um emprego mesmo antes da formatura, além de outros benefícios para a instituição - treinamento do corpo docente, material gratuito para os cursos, oportunidades de pesquisas para professores e alunos.

O número de intituições técnicas de pesquisa na Índia, incluindo faculdades de engenharia, mais do que triplicou nos últimos dez anos, segundo o Conselho Indiano de Educação Técnica. A maioria delas é particular.

Um novo tipo de instituição emergiu para oferecer àqueles que terminaram de se formar e estão ingressando em uma carreira treinamento intensivo em língua inglesa e instrução nas disciplinas técnicas exigidas no local de trabalho. Tais instituições são chamadas de "escolas de acabamento", e a Nasscom estará criando a sua própria até o início do ano que vem.

Mas no final do processo a faculdade de Rangasamy acabou não atendendo aos requisitos da companhia. A equipe encontrou deficiências na maneira que matérias básicas são lecionadas e constatou que os alunos apresentam um nível de qualidade médio.

A educação superior só é disponível para uma pequena parcela da juventude da Índia. Apenas 10% dos indianos com idades entre 18 e 25 anos estão matriculados na faculdade, segundo estimativas oficiais. Quase 40% dos indianos com mais de 15 anos são analfabetos.

A indústria está promovendo um intenso lobby no sentido de permitir que haja investimento privado na educação superior indiana. A Índia continua sendo um dos países que mais envia estudantes estrangeiros aos Estados Unidos e, cada vez mais, a outros países, como Austrália e Canadá.

Nandan M. Nilekani, diretor-executivo da Infosys, um dos maiores provedores indianos de tecnologia e serviços administrativos para companhias ocidentais, afirma que a situação representa uma encruzilhada para o seu país. Com mais da metade da sua população com menos de 25 anos, ele diz que a Índia poderia educar os seus jovens e criar oportunidades de emprego para eles, ou então ficar com uma grande e potencialmente inerte reserva de jovens desqualificados e incapazes de encontrar trabalho. "Esta é uma oportunidade de ouro", diz ele. "E tal oportunidade poderá ser desperdiçada caso não adotemos as medidas certas."

De fato, apesar de serem tão cobiçados, vários dos indianos recém-contratados pela Infosys não puderam contar com uma educação em artes liberais. Eles escrevem programas de computador desde que ingressaram no segundo grau, passaram por concursos disputadíssimos para se tornarem engenheiros e há anos se fixaram somente na indústria de software.

Porém, eles estão ganhando salários que seriam inimagináveis na época dos seus pais. Naini Gomes, 22, obteve um emprego na Infosys ao final do seu terceiro ano de faculdade. Isso não é algo incomum no seu campus, uma faculdade de engenharia muito conceituada em Bangalore. "Todos já tinham oferta de pelo menos dois empregos", explica Gomes.

A verdade é que o excesso de oportunidades é capaz de produzir uma enervante auto-confiança nos indianos da geração de Gomes.
"Do jeito que o setor de tecnologia da informação está prosperando, este é o local certo para se estar", afirma Chinmay Nanavati, um jovem recém-recrutado, de 22 anos. "Neste momento estou satisfeito com a forma como as coisas estão trasncorrendo. Elas transcorrem do jeito que eu quero." Danilo Fonseca

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