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18/10/2006

Uma tradição renasce na Tailândia

The New York Times
Seth Mydans

em Bancoc, Tailândia
O dançarina se curvou e abriu suas pernas em uma pose clássica, mas era Peeramon Chomdhavat e seu assistente que estavam em movimento ao seu redor, pregando, torcendo, alisando, amarrando e dobrando enquanto ajustavam nele a fantasia elaborada. "Ok, costure!" Peeramon declarou quando tudo parecia estar no lugar, e então seu assistente enfiou uma agulha no peito acolchoado do dançarino.

Josef Polleross/The New York Times 
A dança tailandesa que está renascendo tem como meta 'emular a elegância de um deus'

Com movimentos rápidos tão bem treinados quanto a arte ancestral do
dançarino, o assistente inseria e puxava a agulha, com cuidado para evitar regiões vitais - as faixas douradas e prateadas, as lantejoulas, o ouropel, as minúsculas contas e as asas de besouro verdes e iridescentes que fazem o traje brilhar.

"Não há botões; não há zíper", disse Peeramon, 35 anos, o fundador de uma pequena butique que trupes de dança buscam para reviver o refinamento perdido do estilo clássico, a começar pelos trajes.

"Para fazer com que caiba perfeitamente, fique justo e flexível, a única forma é costurando", ele disse. Pode levar uma hora, às vezes duas, para costurar um dançarino clássico tailandês em seu traje.

E quando a atuação de Peeramon e seu assistente é concluída, se tiverem
trabalhado bem, um ser humano comum terá sido transformado, na visão de
Peeramon, em "um deus, um anjo, um ser celestial, algo sobrenatural". Esta é a meta da dança clássica tailandesa, disse Peeramon, "emular a
elegância de um deus".

É tal aura que Peeramon está buscando criar com sua trupe de três anos, o Teatro de Dança Arporn-Ngam, um grupo livre de cerca de 10 professores de dança e alunos que se apresentam raramente e apenas a convite. A Autoridade de Turismo da Tailândia levou os membros a Londres e Berlim no ano passado para dançar e exibir seus trajes.

A missão da trupe, disse Peeramon, é recapturar a qualidade de refinamento, modéstia e equilíbrio que praticamente desapareceu da dança clássica à medida que passou a absorver os padrões modernos; grande, ousado, ostentoso e rápido.

"Estes são os valores atuais da sociedade -valores de Hollywood, valores de Las Vegas", ele disse. "Precisa ser grande. Grande é bom. Grande é bonito."

Com apresentações atualmente voltadas principalmente para turistas
estrangeiros, e com orçamentos e platéias locais encolhendo, a dança
clássica perdeu muito da sutileza e delicadeza que lhe davam força, ele
disse.

"A beleza da dança clássica tailandesa -ela precisa ser pequena, humilde, pacífica", ele disse. "O caráter da dança tradicional tailandesa vem do caráter do povo tailandês e está ligado ao budismo."

"Isto não significa ser minimalista. Ela é muito elaborada, mas não
barulhenta. Há beleza na fluidez e delicadeza. Há fragilidade. Mas isto não é fraqueza. Os tailandeses são espiritualmente suaves, mas não fracos."

Para a arte contemporânea ser realmente tailandesa, ele disse, ela precisa conter esta essência do passado.

"Não se trata apenas de preservar os estilos antigos; eu os torno vivos", ele disse. "A obra contemporânea não pode acontecer se tudo for novo, novo e novo. Se você não conta com as fundações do passado, você não consegue seguir em frente."

Peeramon, filho de um importante dançarino clássico, aprendeu a dança
tailandesa na infância mas estudou balé e dança moderna. Ele passou dois anos se apresentando com companhias na França. Em busca de suas raízes artísticas após voltar à Tailândia, em 1994, ele voltou sua atenção para a dança clássica. Ele ficou fascinado com as fantasias, uma forma de arte tradicional por si só, cujos detalhes e complexidades estavam sendo esquecidos.

"Desajeitados -esta é a palavra, desajeitados", ele disse sobre os trajes de hoje, com seus materiais baratos, cores espalhafatosas e caimento pesado. "Eu não consegui suportar. Então decidi fazer eu mesmo."

Ele aprendeu bordado tailandês com a ajuda de sua tia, uma designer
proeminente e dona de um museu de fantasias. Ele estudou fotos antigas,
literatura e peças de museu, além de procurar a orientação de artistas
veteranos.

Restam poucos trajes antigos, de meio século atrás. Mas os padrões e pontos encontrados em pedaços de tecido bordado em museus e em sacos nos bastidores de teatros puderam ser estudados.

Os trajes foram destruídos, disse Peeramon, "por pessoas que não sabiam nada". Alguns foram submersos em água após a morte do mestre que os vestiu, para esfriar o espírito agitado que acreditavam estar ligado e eles. Alguns foram queimados para remoção do ouro e prata presentes no material.

Seguindo os velhos desenhos, Peeramon já fez 10 trajes, obras magníficas, complexas e radiantes que levam meses para ser concluídas. Enquanto ele desenvolve sua técnica, seus bordados se tornam menores, mais precisos.

Neste dia chuvoso em seu estúdio, ele e seu assistente, Pawat Jundarak, 24 anos, costuravam um dançarino e uma dançarina em seus trajes, camada por camada, o tecido bordado tão flexível quanto a pele, as dobras tão
impecáveis quanto um origami.

Então vieram os cintos pesados e pingentes, os colares, braceletes e
tornozeleiras, os anéis em cada dedo, e as unhas curvadas revestidas de
prata de mais de 7 centímetros. Finalmente, de forma firme e gentil, as
coroas, amarradas sob o queixo, com o cabelo preso sob elas, cada uma com sua espiral de 30 centímetros de comprimento.

E um último toque: uma guirlanda de jasmim para pendurar de um lado de cada coroa, uma rosa vermelha para o outro.

Os dançarinos tomaram seus lugares lado a lado em uma pose clássica, seus joelhos e cotovelos dobrados, suas cabeças voltadas ligeiramente uma para a outra, as espirais em suas coroas em guarda. Seus trajes reluziam. O sorriso calmo e parado da dança clássica tailandesa aparecia em seus rostos. Eles eram como anjos.

A chuva caía no jardim do lado de fora da parede de vidro do estúdio de
Peeramon e seu barulho preenchia as pausas da tranqüila música gravada de xilofone, oboé e gongos. Peeramon e seu assistente, em pé diante dos
dançarinos, se inclinavam para trás, seus joelhos ligeiramente curvados, seus cotovelos para fora, seus pescoços voltados à frente. Eles ergueram seus braços, com minúsculas câmeras diante de seus olhos, e gravaram seu trabalho. George El Khouri Andolfato

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