UOL Notícias Internacional
 

19/10/2006

Controle dos cidadãos diminui na Coréia do Norte

The New York Times
Norimitsu Onishi

em Bancoc, Tailândia
Em março passado, Lee Chun-hak, um norte-coreano de 19 anos, foi até a fronteira chinesa para se encontrar com um contrabandista de dinheiro norte-coreano. Usando o celular chinês do contrabandista, Lee conversou com sua mãe, que desertou para a Coréia do Sul em 2003. Ela lhe disse que o tiraria dali.

Lee sentia saudade de sua mãe, irmã e irmão e tinha um desejo persistente, mesmo que ainda não plenamente formado. "Eu gostaria de ir para um país mais desenvolvido", ele disse, "mais desenvolvido até mesmo que a Coréia do Sul".

Em junho, um homem jovem norte-coreano apareceu repentinamente em sua casa com uma mensagem: "Sua mãe está à sua procura". O homem então o levou de bicicleta e a pé até a fronteira e o entregou para um soldado norte-coreano. Por orientação do soldado, Lee foi ordenado a deixar sua carteira de identidade e seu emblema de Kim Il Sung, que é usado por todos os norte-coreanos em homenagem ao fundador do país.

O soldado então escoltou Lee na travessia do Rio Tumen, onde do outro lado dois homens chineses vestidos à paisana pagaram o suborno ao soldado. Lee estava livre para partir.

A crescente facilidade com que as pessoas são capazes de comprar sua saída da Coréia do Norte sugere que, sob as imagens dos soldados marchando em Pyongyang, a capital, a capacidade ainda considerável do governo de controlar seus cidadãos está diminuindo, segundo dissidentes norte-coreanos, intermediários, missionários cristãos sul-coreanos e outros especialistas no assunto. Os dissidentes com parentes ricos fora do país estão explorando uma rede sofisticada de contrabandistas de seres humanos que opera dentro das Coréias do Sul e do Norte, China e Sudeste Asiático.

Aprender qualquer coisa sobre um país sigiloso e imprevisível como a Coréia do Norte, que se isolou ainda mais ao realizar um teste nuclear em 9 de outubro, é difícil. Fragmentos de informação fornecidos por dissidentes freqüentemente se mostram não confiáveis, influenciados o máximo possível pelas organizações que os abrigam e apóiam ao mesmo tempo que defendem causas políticas e religiosas.

Mas fotos instantâneas da vida dentro da Coréia do Norte, e um quadro desta rede de contrabando, despontam de entrevistas com 20 norte-coreanos em Bancoc e intermediários, missionários cristãos, autoridades do governo e pessoas que trabalham em organizações privadas, tanto na Tailândia quanto na Coréia do Sul. Os norte-coreanos em Bancoc foram entrevistados independentemente e todos tinham chegado recentemente à Tailândia.

Reunidos, os relatos fornecem vislumbres de um governo que, apesar de ainda um Estado policial repressivo, está progressivamente perdendo o papel predominante que costumava desfrutar na sociedade, até de se ver incapaz de alimentar sua própria população na fome dos anos 90. O poder da ideologia parece estar enfraquecendo neste país de cerca de 22,7 milhões de habitantes após as pessoas serem abandonadas para se virarem por conta própria e à medida que a informação do mundo externo começa a entrar.

Os efeitos do dinheiro e da corrupção parecem ter crescido acentuadamente nos últimos anos, já que a liberalização do mercado permitiu que pessoas comuns tenham pequenos negócios e permitiu que pessoas com contatos prosperem no comércio com a China.

Em um país cujas fronteiras eram seladas até uma década atrás, os dissidentes antes arriscavam não apenas suas vidas, mas a de seus familiares que ficavam para trás, que freqüentemente eram jogados em duros campos de prisioneiros em retribuição. Hoje, a segurança do Estado não é mais o principal obstáculo para a fuga, segundo os dissidentes, intermediários norte-coreanos, missionários cristãos do sul e outros especialistas. Agora é o dinheiro.

"O dinheiro agora supera a ideologia para um número crescente de norte-coreanos e isto permitiu que esta ferrovia secreta florescesse", disse Peter M. Beck, o diretor de projeto para Nordeste Asiático do International Crisis Group em Seul, que tem pesquisado extensivamente o assunto em vários países asiáticos e está publicando um relatório. "A maior barreira para deixar a Coréia do Norte é apenas dinheiro. Se você tem dinheiro suficiente, você pode sair facilmente. Isto retrata o avanço do mentalidade de mercado na Coréia do Norte, especialmente desde as reformas econômicas implementadas em 2002. Qualquer coisa pode ser comprada no Norte agora."

"O controle do Estado está enfraquecendo na periferia", disse Beck, explicando que a maioria dos refugiados vem das áreas rurais do Norte, mas poucos da capital Pyongyang e arredores, onde o controle do Estado permanece forte.

Durante a grande fome da Coréia do Norte de meados ao final dos anos 90, acredita-se que entre 100 mil e 300 mil norte-coreanos se dispersaram na China e dezenas de milhares ainda estariam vivendo lá ilegalmente, segundo organizações de direitos humanos. Atualmente, o número de refugiados supostamente seria muito menor, apesar de haver poucos dados confiáveis.

Segundo o governo sul-coreano, dos 8.740 norte-coreanos conhecidos que fugiram para o Sul desde o fim da Guerra da Coréia em 1953, quase 7 mil chegaram apenas nos últimos quatro anos.

Mas o custo de sair é significativo, segundo especialistas, dissidentes, intermediários e missionários. Há subornos para soldados posicionados na fronteira altamente protegida, um percentual regular para seus supervisores, dinheiro distribuído por uma cadeia de oficiais. E isto apenas no lado norte-coreano.

No máximo, US$ 10.400 compram um pacote para saída de alguém da Coréia do Norte e, armado com um passaporte sul-coreano falso, por avião ou embarcação para a Coréia do Sul em questão de dias, segundo intermediários e uma mulher norte-coreana de 40 anos, atualmente na Coréia do Sul, que retirou recentemente seu filho de 14 anos. Mas a maioria dos norte-coreanos na Coréia do Sul paga cerca de US$ 3 mil em média para tirar parentes pela China e depois pelo Sudeste Asiático ou Mongólia. Algumas saídas são breves.

Um norte-coreano de 37 anos em Seul, um funcionário de uma grande fábrica de autopeças, disse que foi à China em abril para encontrar um amigo, um jornalista na Coréia do Norte que não via há 10 anos. Por algumas poucas centenas de dólares, os contrabandistas levaram o jornalista a Yanji, uma agitada cidade chinesa na fronteira com a Coréia do Norte, onde os dois passaram o fim de semana bebendo e colocando a conversa em dia, disse o homem em uma entrevista em Seul.

Como muitos dos entrevistados para este artigo, ele pediu que seu nome não fosse citado, por temer represálias contra amigos e parentes que ainda vivem na Coréia do Norte. Ele levou pilhas de um jornal sul-coreano, o "Chosun Ilbo", para o jornalista, que não tinha interesse em ler artigos políticos. Em vez disso, ele devorou as páginas de negócios, apesar de não entender palavras como "online" e ter se maravilhado em quanto a Coréia do Sul ultrapassou a do Norte economicamente.

No final do fim de semana, o dissidente voltou a Seul e seus amigo jornalista para a Coréia do Norte. "Fazer algo assim seria inimaginável há poucos anos", ele disse. "Este tipo de corrupção não existia naquela época. Agora, tudo gira em torno de dinheiro."

Su-hyun Lee, em Bancoc e Seul, contribuiu com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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