UOL Notícias Internacional
 

20/10/2006

Estudantes adotam laboratórios virtuais, mas educadores têm dúvidas

The New York Times
Sam Dillon
Quando a Internet estava apenas começando a sacudir o ensino americano, um professor de química fotografou milhares de tubos de ensaio contendo soluções moleculares e, trabalhando com projetistas de videogames, criou um laboratório simulado que permite aos estudantes misturarem as substâncias químicas em béqueres virtuais e observarem as reações.

C.J. Gunther/The New York Times 
Aluna disseca um porco pela internet porque seu colégio não dispõe de um laboratório

De lá para cá, tal laboratório virtual de química - assim como outros simuladores que permitem aos estudantes dissecarem criaturas virtuais ou espiarem em águas virtuais em busca de uma anêmona virtual - se tornou uma ferramenta de ensino de ciências amplamente usada. O laboratório virtual de química sozinho conta com cerca de 150 mil estudantes sentados em terminais de computador ao redor do país, que testam experimentos que seriam caros ou perigosos demais para serem realizados nos colégios locais.

"Alguns garotos descobrem como explodir coisas em meia hora", disse o professor, Brian F. Woodfield, da Universidade Brigham Young.

Mas agora uma disputa com conseqüências potencialmente abrangentes teve início em torno e quão longe a Internet pode ir na substituição de um laboratório real.

Pressionado por professores universitários céticos, o College Board, uma das organizações mais poderosas no ensino americano, está questionando se os laboratórios baseados em Internet são um substituto aceitável para o manuseio de gels ou espiar por microscópios, ingredientes há muito tempo essenciais nos laboratórios de ciência americanos.

Como parte de uma extensa auditoria de milhares de cursos colegiais que exibem sua marca de Advanced Placement (colocação avançada, AP), o conselho recrutou comissões de professores universitários e especialistas em aprendizado pela Internet para avaliar a qualidade dos laboratórios online usados nos cursos AP de ciências baseados em Internet.

"Os professores estão dizendo que as simulações podem ser muito boas, que as usam para complementar seu próprio trabalho em laboratório, mas estão preocupados em dar crédito para estudantes que nunca tiveram experiência em um laboratório de fato", disse Trevor Packer, o diretor executivo do conselho para cursos AP. "É possível ter estudantes entrando direto no segundo ano dos cursos de ciência universitários sem nunca terem usado um bico de Bunsen."

Educadores baseados em Internet estão tentando persuadir o conselho e a opinião pública de que seus laboratórios virtuais são educacionalmente sólidos, apontando que seus estudantes obtêm altas notas nos exames AP. Eles também dizem que os laboratórios online são freqüentemente a única forma de ciência avançada possível de ser lecionada em escolas rurais isoladas ou urbanas sem recursos. O ensino online, que era praticamente inexistente no ensino primário e médio há uma década, atualmente é um dos setores da educação que mais cresce, com cerca de meio milhão de matrículas em cursos em todo o país.

Vinte e cinco Estados operam escolas públicas baseadas em Internet como a Florida Virtual School (escola virtual da Flórida), a maior do país, que conta com cerca de 40 mil estudantes. O Virtual High School (colégio virtual), uma escola sem fins lucrativos com sede em Maynard, Massachusetts, conta com 7.600 estudantes de 30 Estados e muitos países. Susan Patrick, uma ex-autoridade do Departamento de Ensino que é presidente do Conselho Norte-Americano para o Aprendizado Online, estimou que 60 mil estudantes de escolas públicas estão matriculados em algum curso de ciência online.

John Watson, um consultor de educação que escreveu um relatório no ano passado documentando o crescimento do ensino virtual, disse que as escolas online enfrentaram processos devido a financiamento e resistência dos conselhos de ensino locais, mas nada tão intimidante como o College Board. "Este desafio ameaça o avanço do ensino online nacionalmente de forma sem precedente", disse Watson.

O conselho sinalizou uma posição dura neste ano.

"Os membros do College Board insistem que os cursos de ciência em laboratório de nível universitário não sejam rotulados 'AP' sem um laboratório real", disse o conselho em uma carta enviada para as escolas online em abril. "Os cursos de ciência online só podem ser rotulados 'AP' se o provedor online" puder assegurar "que os estudantes têm experiência orientada em laboratório real (não virtual)".

Mas após um protesto das escolas online, o conselho emitiu um pedido de desculpas em junho, reconhecendo que "pode haver novos desdobramentos" no aprendizado online que podem lhe valer um endosso.

Packer, do College Board, disse em uma entrevista que o conselho estabeleceu três comissões de cinco membros, compostas de professores de biologia, química e física, além de educadores online, que se reunirão no próximo mês em Nova York para analisar a qualidade dos laboratórios online oferecidos pelas escolas baseadas em Internet para cursos AP.

As regras do conselho determinarão se os colégios poderão aplicar a designação AP em cursos de ciência online, a partir da metade do próximo ano, nos pedidos de matrícula universitária de seus alunos, disse Packer.

Em conversas recentes com professores de ciências universitários, o conselho encontrou considerável ceticismo diante da possibilidade de laboratórios virtuais poderem substituir a experiência real, ele disse.

Mas educadores de várias escolas online proeminentes apontaram para as altas notas de seus estudantes em exames AP.

No exame de biologia AP de 2005, por exemplo, 61% dos estudantes em todo país receberam nota de aprovação de três ou mais no sistema de cinco pontos do AP. Mas 71% dos estudantes que realizaram biologia AP online pela Florida Virtual School, e 80% dos estudantes que fizeram o curso pelo Virtual High School, obtiveram três ou mais no exame.

"Eis a prova", disse Pam Birtolo, diretora chefe educacional da Florida Virtual School.

Mas ainda há uma variedade tremenda. Um guia de 2005, "Finding an Online High School (procurando um colégio online), compilado por Vincent Kiernan, um redator sênior do "The Chronicle of Higher Education", lista 113 escolas de ensino médio baseadas em Internet, 32 das quais oferecendo pelo menos um curso de ciência AP. O currículo online está longe de ser padronizado e novas abordagens para os laboratórios online surgem em um ritmo alucinante, disse Kemi Jona, um professor de ciência da computação da Universidade do
Noroeste.

"Não é uma paisagem tamanho único", disse Jona.

Os cursos de ciências oferecidos por alguns colégios online exploram múltiplos sites de Internet que fornecem dados, então guiam os estudantes em suas análises. Em um site, por exemplo, operado pela Universidade do Arizona, os estudantes reúnem dados de células de uma raiz de cebola e os utilizam para calcular a duração de cada fase da divisão celular.

Cursos de química e outros de ciências em muitos colégios baseados em Internet incluem laboratórios freqüentemente caracterizados como "ciência de cozinha", no qual os estudantes usam materiais domésticos comuns -gelo, óleo de cozinha, jarras de vidro- para realizar experiências.


"'Cuide para que tenhamos batatas em casa', minha filha me disse antes de sua prova de laboratório", na qual os estudantes estudaram osmose, disse Mayuri Shah, cuja filha Sonia está cursando biologia AP na Florida Virtual School. Sonia, 16 anos, se matriculou no curso online porque seu colégio em Lecanto, Flórida, ao norte de Tampa, não o oferece.

Este é um dos motivos mais comuns para os estudantes se matricularem em cursos online, disse Patrick, a presidente do Conselho Norte-Americano para o Aprendizado Online.

"Milhares de escolas nas áreas rurais não possuem laboratórios científicos, mas possuem alunos que desejam ir para a faculdade e precisam de tal experiência científica", ela disse. "Os laboratórios virtuais de ciência são sua única opção." George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host