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21/10/2006

Com os subúrbios como barris de pólvora, Paris teme aumento da violência

The New York Times
Elaine Sciolino e Ariane Bernard

em Paris
No último final de semana, a polícia foi avisada do roubo de um carro no subúrbio violento de Epinay-sur-Seine, ao Norte de Paris. Três policiais em uma patrulha correram para lá e se viram cercados por 30 jovens de capuz, jogando pedras e empunhando bastões e barras de metal.

Nem tiros de gás lacrimogêneo detiveram o ataque. Somente quando os reforços chegaram, o cerco terminou. Um policial ficou com dentes quebrados e precisou de 30 pontos no rosto.

O assalto foi duro, mas não foi único. Só nas últimas três semanas, ocorreram três ataques similares contra a polícia nesses subúrbios, que há um ano estavam em chamas com a ira de jovens desempregados com pouca escolaridade, na maior parte filhos de imigrantes árabes e africanos.
De fato, com o aniversário dos distúrbios se aproximando, o aumento no número de crimes violentos na área sugere não só que as coisas não melhoraram, mas que podem até ter piorado. Moradores e especialistas dizem que o fosso é ainda maior do que antes, e que a violência generalizada pode emergir novamente a qualquer momento.

"A tensão está crescendo dramaticamente. Há uma vontade de matar", disse Patrice Ribeiro, vice-diretora do sindicato da polícia Synergie Officiers. No mês passado, um memorando da polícia vazou para a imprensa, advertindo que havia um "clima de impunidade" em Seine-St.-Denis, distrito infame ao Norte de Paris que inclui conjuntos de subúrbios como Clichy-sous-Bois e Epinay-sur-Seine.

O memorando relatava um aumento de 23% em roubos violentos e 14% nos assaltos na primeira metade deste ano, no distrito de 1,5 milhão de pessoas. Ele também reclamava que policiais jovens e inexperientes estavam sobrecarregados e que o sistema de justiça era leniente demais. Apenas um dos 85 jovens presos durante os tumultos foi preso, acrescentou.

Em toda a França, de acordo com o Ministério do Interior, 480 incidentes de violência contra a polícia foram registrados em setembro, um aumento de 30% em relação ao mês anterior.

Na próxima sexta-feira completará um ano desde a morte por eletrocussão no ano passado de dois adolescentes enquanto, segundo dizem, fugiam da polícia em Clichy-sous-Bois. A tragédia gerou uma orgia de três semanas de violência, na qual baderneiros na França queimaram carros, destruíram lojas e atacaram policiais e bombeiros, mergulhando o país no que o presidente Jacques Chirac chamou de "mal-estar profundo".

Apesar de várias promessas de grandes mudanças, autoridades locais e moradores dizem que o choque dos confrontos do ano passado não gerou um plano coerente para criar novos empregos, melhores moradias, mais educação e serviços sociais -nem mesmo para aumentar a consciência dos cidadãos.

"Nossa população foi verdadeiramente abandonada a seu triste destino", disse Claude Dilain, pediatra e prefeito de Clichy-sou-Bois que recentemente escreveu um livro sobre a luta de sua cidade. "A sociedade francesa quer que os pobres vivam esmagados em guetos para não tê-los como vizinhos", disse ele. "Diz: 'Coloquem os pobres lá fora nos subúrbios, mas evitem a violência a todo custo, para que tudo saia bem, e não tenhamos que falar mais sobre isso'. Nosso povo se sente traído. Todas as condições continuam existindo para nova explosão."

Clichy-sous-Bois está pior que muitos outros subúrbios. Não tem delegacia, não tem teatro, piscina, escritório para desempregados, agência de atendimento às mães, metrô ou trem interurbano para a cidade.
Até mesmo alguns dos subúrbios mais violentos, ficam a 20 minutos do centro de Paris. De Clichy-sous-Bois, se houver lugar no ônibus, pode levar uma hora e meia. O desemprego é de 24%, mas é muito mais alto entre os jovens. Entre os moradores, 35% são estrangeiros, muitos não falam francês. O único ginásio e centro esportivo municipal da cidade foi incendiado no levante do ano passado.

Quando Nadia Boudaoud, 27, educadora em tempo parcial, foi perguntada por que sua família saiu de Clichy-sous-Bois há dois anos, ela deu três
razões: o barulho, o lixo e os ratos.

Como parte de um esforço para marcar os eventos de um ano atrás e trazer um toque de Paris à cidade de 23.000 habitantes, uma mostra de fotografias ambiciosa sobre a vida do lugar foi inaugurada há uma semana.

Era uma noite glamorosa, com a apresentação dos trabalhos de uma dúzia de fotógrafos mundialmente renomados, inclusive Marc Riboud, William Klein e Sarah Moon, que se misturaram com centenas de moradores locais. Os visitantes foram recebidos com painéis brancos longos, com fotos das duas vítimas adolescentes, Bouna Traore, 15, e Zyed Benna, 17.

Dilain, o prefeito, tinha esperanças de que a exibição enviasse uma mensagem, e convidou muitas autoridades francesas. Houve uma resposta, mas não a que ele esperava. Nenhuma autoridade apareceu. "É sintomático da ausência de interesse em nós", disse ele. "Tenho vergonha pela França."

Entrevistas com moradores e autoridades em meia dúzia de subúrbios similares em torno de Paris nas últimas semanas refletiram a convicção de que o principal interesse do governo neles é manter a segurança antes das eleições presidenciais na próxima primavera.

Nicolas Sarkozy, ministro do interior que deve vencer a nomeação do partido governante de centro-direita, apostou em uma postura rígida em relação aos jovens revoltosos. Mas seu aumento no número de policiais nos subúrbios -muitos deles de partes distantes da França- significou mais opressão e revistas ao acaso dos jovens, alimentando reclamações de que são injustamente perseguidos. Deborah Weinberg

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