UOL Notícias Internacional
 

22/10/2006

Com entusiasmo cauteloso, democratas esperam pela eleição

The New York Times
Adam Nagourney e Robin Toner

Em Washington
Há algo incomum borbulhando ultimamente nas águas políticas democratas: otimismo.

A cada nova má notícia para os republicanos -outro congressista republicano sendo investigado, outro distrito republicano perdido, outra pesquisa mostrando queda no apoio ao Congresso controlado pelos republicanos- um partido que estava se acostumando a perder está considerando, com certa descrença e com a devida preocupação, a possibilidade de que pode vencer em novembro.

"Eu passei de otimista a entusiasmado", disse Gordon R. Fischer, ex-presidente do diretório democrata de Iowa. "Eu realmente estou."

O deputado Barney Frank, democrata de Massachusetts, que poderá se tornar presidente do Comitê de Serviços Financeiros em caso de uma Câmara democrata, ofereceu evidência da mudança de percepção na disputa. Seu gabinete, disse Frank, foi contatado por uma firma de pintura de retrato, interessada em conversar sobre a possibilidade de realizar a pintura tradicional do presidente do comitê, uma prerrogativa do poder há muito ausente na vida dos democratas da Câmara.

"Eu consegui muitos novos amigos neste ano", disse Frank. "E não fui mais gentil."

Para os democratas atualmente, a vida é uma mistura de uma pitada de alegria, uma pitada de temor e uma de autoconfiança. Se estão tão confiantes quanto há uma década sobre a retomada de pelo menos uma casa do Congresso -e estão- é uma confiança misturada com a lembrança dolorosa de terem sido superados nas últimas eleições por republicanos melhor organizados e com maior força financeira, além da preocupação com o talento político do principal conselheiro do presidente Bush, Karl Rove.

Rove deixou claro que considera o otimismo democrata injustificado, prevendo que a vantagem financeira de seu partido e a experiência em mobilizar os eleitores a votarem esmagarão o sonho democrata novamente. E os democratas dizem que agradecem a passagem de cada dia com alívio, temerosos de que o próximo trará um desdobramento capaz de alterar a natureza da disputa, como o ressurgimento de Osama Bin Laden às vésperas da eleição, como aconteceu em 2004.

"Eu sei que muita gente está dando piruetas", disse o deputado Rahm Emanuel, democrata de Illinois e presidente do Comitê Democrata de Campanha ao Congresso, em reprovação aos seus companheiros de partido. "Eu não tenho liberdade para fazer isto."

Ainda assim, a animação democrata podia ser encontrada em todos os cantos de Washington nos últimos dias. Ela era palpável em encontros sociais e de trabalho, onde os democratas trocavam fofocas sobre quão grande poderia ser a maioria democrata na Câmara; nas salas de conferência no Capitólio, onde os democratas estão preparando planos de transição (sob ordens para permanecerem calados); e nos escritórios de estrategistas e pesquisadores democratas, que estão elaborando crescentes listas de republicanos que podem estar vulneráveis.

"Eu estou me sentindo melhor do que nunca", disse a deputada Louise M. Slaughter, uma deputada do interior de Nova York. "Eu acho que temos a melhor chance de vencer simplesmente por causa do acúmulo de desastres."

Stanley B. Greenberg, que foi o analista de pesquisa da Casa Branca para o presidente Bill Clinton em 1994, quando os republicanos chocaram os democratas ao conquistarem o Congresso, encomendou uma pesquisa recentemente e a repassou por e-mail pela cidade com uma única palavra na linha de assunto: "Colapso". Em uma entrevista, Greenberg disse: "Eu não vejo como podemos perder a Câmara; eu não acho que está nem mesmo perto".

Ellen R. Malcolm, presidente da Emily's List, uma rede de mulheres democratas, e uma antiga arrecadadora de fundos para o partido, disse que as trepidações democratas estão começando a desaparecer a cada novo ciclo de notícias. "As pessoas estão ficando mais encorajadas a cada dia que passa", disse Malcolm. "Toda pesquisa que chega parece ser melhor que a anterior."

A deputada Nancy Pelosi, democrata da Califórnia, que poderá se tornar a presidente da Câmara caso seu partido conquiste a Casa, mandou avisar que ninguém deve falar com confiança ou detalhe demais sobre os dias após 7 de novembro. Mas mesmo Pelosi escorregou em certa ocasião. Em uma recente entrevista para a agência de notícias "The Associated Press", quando perguntada que gabinetes usaria como presidente da Câmara, ela disse rindo: "Qualquer um que eu quiser".

A mudança de humor e a evidência de força democrata nas pesquisas e na arrecadação de fundos estão alimentando algumas deliberações cruciais de líderes democratas, com a discussão em alguns cantos passando de se os democratas podem vencer para qual o tamanho da margem que o partido pode obter.

Os candidatos democratas em distritos que eram considerados muito difíceis agora estão implorando para que o comitê de Emanuel envie dinheiro para eles. E alguns importantes democratas, entre eles Greenberg, estão pedindo para Emanuel aproveitar o momento para expandir o campo no qual os democratas estão competindo, dizendo que o partido tem chance de consolidar uma grande vantagem na Câmara em novembro.

Este argumento tem preocupado alguns estrategistas democratas, que alertam que o excesso de confiança pode pressionar os líderes do partido a tomarem decisões que desviarão recursos de disputas acirradas, colocando em risco a vantagem do partido. "Na Câmara, faz sentido se concentrar em 25 cadeiras para conquistar 14, não 50", disse Steve Rosenthal, consultor político e trabalhista com laços estreitos com o partido, que descreveu muitos democratas como "excessivamente entusiasmados".

"Se tivéssemos recursos ilimitados, seria diferente", disse Rosenthal. "Mas temos que ser cuidadosos."

Emanuel disse que está pesquisando para decidir qual o próximo passo do partido. Mas ele disse que fora uma injeção de dinheiro de última hora, ele está considerando apenas um aumento relativamente limitado no número de cadeiras nas quais os democratas podem gastar. Na semana passada, eles expandiram seu campo de cerca de 35 para mais de 40 disputas, veiculando propagandas contra os republicanos que agora consideram vulneráveis na Flórida, Minnesota, Nevada, interior de Nova York e no Estado de Washington.

Alguns democratas expressaram apreensão de que esta confiança pode ser irracional, ou no mínimo prematura, e estão aconselhando moderação. Parte disto é tático: os democratas estão tentando evitar ajudar o Partido Republicano enquanto este busca mobilizar sua base conservadora, apresentando visões apocalípticas de um Congresso liderado por liberais como Frank, Pelosi e o deputado Charles B. Rangel, democrata de Nova York.

Parte do constrangimento dos democratas vem da familiaridade dolorosa com o retrospecto de sucesso de Rove, assim como de seu próprio reconhecimento de que possuem vantagem apenas tênue em muitas disputas e ainda podem cair vítimas da operação sofisticada dos republicanos de mobilização de eleitores.

"Eu estou preocupado em estarmos gastando todo nosso tempo falando sobre qual será nossa agenda em janeiro em vez de como vamos obter nossos votos no início de novembro", disse Chris Redfern, presidente do diretório democrata de Ohio.

Parte da preocupação é o temor com o possível dano psíquico de longo prazo que as fileiras do partido podem sofrer caso os democratas fracassem novamente na linha de chegada. "Nós todos já enfrentamos estas decepções, que refreiam nosso entusiasmo", disse Tom Daschle, o líder democrata do Senado derrotado em 2004.

Steve Elmendorf, o estrategista democrata que orientou a campanha presidencial do senador John Kerry de Massachusetts, disse: "Nós todos nos sentamos em 2004 e olhamos para as pesquisas de boca-de-urna, que diziam que John Kerry seria o presidente. E estavam erradas. Nós já estivemos nesta colina antes".

Para conquistar a Câmara, os democratas precisam angariar mais 15 cadeiras. Das cerca de 40 que consideram em disputa, três são atualmente de democratas e uma de um independente, disseram estrategistas de ambos os lados.

As perspectivas de uma tomada democrata do Senado, onde o partido precisa de seis cadeiras, são mais difíceis. Os republicanos dizem que quatro de seus atuais senadores correm sério risco de perder -em Montana, Ohio, Pensilvânia e Rhode Island- e estão tentando construir uma parede corta-fogo enviando grande parte de seus recursos para as disputas ao Senado em Missouri, Tennessee e Virgínia, onde as pesquisas mostram que as disputas estão empatadas.

O senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York e presidente do Comitê Democrata de Campanha ao Senado, disse que seu comitê, que tem consistentemente superado em arrecadação seu par republicano neste ano, dispõe de dinheiro mais que suficiente para concorrer com os republicanos nestes Estados. Schumer disse que está reservando alguns recursos para o caso dos republicanos darem algum passo inesperado nos últimos dias de campanha.

"Eles sempre tentam tirar coelhos da cartola, mas nunca sai nenhum", ele disse. "Mas estamos guardando algum dinheiro para o caso de alguma surpresa em outubro."

Apesar da possibilidade do excesso de confiança ter um preço, na forma de complacência em alguns comandos de campanha, há vantagens nas bases, onde ela pode alimentar a empolgação que os democratas esperam que resultará em ganhos significativos em 7 de novembro. Os republicanos enfrentam o lado inverso do problema, com a perspectiva de seus eleitores, desencorajados com os apuros do partido, permanecerem em casa.

Tudo isto coloca os democratas em um posição com a qual não estão familiarizados, mas que parecem estar apreciando. "Eu sou um pessimista congênito", disse Howard Wolfson, um consultor que está trabalhando para os democratas em várias disputas acirradas no interior de Nova York. "Mas nunca estive mais confiante em nossas chances do que em qualquer outro momento nos últimos 12 anos." George El Khouri Andolfato

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