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22/10/2006

Para latinos nos EUA, rostos conhecidos nem sempre são patrões amigáveis

The New York Times
Mireya Navarro

Em San Francisco
Gloria Azpeitia trabalhava como secretária no México antes de vir para os EUA em 1993, e durante algum tempo sobreviveu vendendo "tamales" [panquecas] de porta em porta. Oito anos atrás começou a fazer faxina em residências, preferindo trabalhar para outros latinos porque falavam espanhol e, segundo ela, compreendiam melhor suas necessidades.
Por isso, Azpeitia disse que ficou surpresa três anos atrás quando um patrão mexicano-americano para quem ela trabalhava havia dois anos subitamente mostrou seu lado autoritário quando a filha de Azpeitia entrou em trabalho de parto e ela chegou atrasada por causa dessa emergência.

"'Vou puni-la', ele disse, como se eu fosse uma criança", lembra Azpeitia. "'Você vai ter de trabalhar mais pelo mesmo preço.'" Ela disse que foi embora na mesma hora, ofendida pela prepotência do patrão. E embora qualquer pessoa pudesse ter essa reação, ela disse que vinda de um latino lhe pareceu "um balde de água quente".

Darcy Padilla/The New York Times 
"Maria Guadalupe (esquerda) toma conta de Lupe Valência em São Francisco; muitos latinos encontram seu primeiro emprego nos EUA com conterrâneos mais velhos

"Dói mais quando vem de latinos porque eles são compatriotas", disse Azpeitia, 50, que é divorciada e tem duas filhas e cinco netos. "Todos precisamos uns dos outros. Eles esquecem que somos iguais."

No mercado de trabalho para imigrantes legais e ilegais, muitas babás e empregadas estão encontrando seus primeiros empregos entre as gerações mais antigas de latinos, que hoje têm condições de contratar empregados domésticos. Mas enquanto os dois grupos de batalhadores podem se atrair mutuamente por causa das semelhanças culturais e lingüísticas, sua intersecção também pode ser prejudicada por tensões e expectativas frustradas, dizem pesquisadores, empregadores e trabalhadores. Por exemplo, um mero descuido pode assumir novas dimensões.

"Às vezes a pele é um pouco fina", disse Leo Chávez, professor de antropologia e diretor do Centro de Pesquisa sobre Latinos em uma Sociedade Global, da Universidade da Califórnia em Irvine. "Se um 'anglo' diz alguma coisa eles não se importam, mas se for um latino ficam magoados. Esperam mais empatia."

A imigração produziu uma população hispânica que hoje é 60% nascida nos EUA e 40% imigrante. Especialmente em enclaves latinos como a Califórnia e a Flórida, os ganhos educacionais e econômicos entre latinos nascidos nos EUA permitem que muitos deles ofereçam trabalho para imigrantes em suas empresas e residências, embora não haja números concretos sobre a freqüência dessas interações "co-étnicas".

Segundo uma análise de números do censo feita pelo Centro Hispânico Pew, 36% das famílias hispânicas em 2002 possuíam bens que as situavam na classe média, e outras 7% pertenciam às camadas mais altas de riqueza. Enquanto a mão-de-obra barata e a disponibilidade influem no fato de latinos procurarem trabalhadores latinos, os empregadores também têm motivos pessoais, como querer que seus filhos sejam bilíngües através da interação diária com babás que falem espanhol. E para os trabalhadores que não falam inglês nem compreendem a cultura americana buscar emprego com outros latinos garante pelo menos a comunicação e certo grau de familiaridade em uma terra estrangeira.
Reina I. Flamenco, 43, uma babá de El Salvador, diz que quando trabalha para patrões de língua inglesa nunca tem certeza do que concordou em fazer.

"Quando ela me deu instruções para o almoço, fiquei na dúvida se queria ovos mexidos ou fritos", disse Flamenco sobre uma patroa. "Certa vez eles me disseram: 'Quando você sair, não deixe o gato para fora', mas às vezes eu ficava insegura. Ela disse para eu deixar o gato dentro ou fora? É difícil porque não quero que as pessoas fiquem irritadas."

Carmen Denis, coordenadora do programa de treinamento profissional Caring Hands do Mujeres Unidas y Activas, um grupo da área da Baía de San Francisco para imigrantes latinas, disse que a maioria das afiliadas não tem documentos, chegou recentemente e "no início resiste a trabalhar para famílias que falam inglês".

Mas a dinâmica de latinos trabalharem para outros latinos também depende da classe, segundo sociólogos e pessoas que conhecem o mercado de trabalho: por exemplo, quando os empregadores vêm de famílias que também trabalharam em serviços simples. Em nenhum lugar as relações sociais são mais íntimas do que no espaço restrito de uma residência.

Para os trabalhadores pode haver benefícios e tensões na mesma casa.
Marta Rodríguez, 33, trabalha para uma latina que a contratou para cuidar de sua mãe idosa duas vezes por semana. Ela disse que sua patroa está sempre disponível para ajudar na tradução e em telefonemas que exigem falar inglês.

A empregadora, uma corretora de imóveis, também a incentiva a freqüentar a escola e ter metas elevadas, explica Rodríguez. Mas ela disse que a experiência de sua patroa como camareira de hotel 30 anos atrás, quando ela chegou aos EUA vinda da Argentina, a tornou exigente demais. Rodríguez, que é casada com um padeiro e tem cinco filhos, disse que ela tem de limpar, cozinhar e cuidar do jardim. Deve usar uma escova de dentes para tirar a sujeira das janelas e limpar o piso ajoelhada, como se fosse "uma obra de arte", disse Rodríguez. "Ela me diz: 'Você vai sair daqui bem treinada'."

Mas alguns empregadores dizem ter um motivo profundamente pessoal para buscar empregados latinos: querem ajudar outros latinos que às vezes os lembram das dificuldades que seus próprios pais enfrentaram.

Elizabeth Gallagher, 52, que tem uma empresa de serviços em Las Vegas, contou que sua mãe se sustentou como empregada durante quase toda a vida depois que seu marido morreu, quando Gallagher tinha 5 anos. Agora que ela pode oferecer trabalho a uma latina, em casa e em sua empresa, "tento fazer as pessoas crescerem comigo", ela disse. "Eu sei como minha mãe dava duro, e às vezes não tínhamos comida em casa", disse Gallagher, que cresceu em Tucson e tem quatro irmãos.

Alguns empregadores latinos têm motivos mais práticos. Quando o pai idoso de Stella Blankenship foi hospitalizado e ficou evidente que não poderia mais cuidar de sua mulher, Blankenship, 50, que é enfermeira na área da Baía, disse que ligou desesperada para agências de emprego para encontrar uma acompanhante que falasse espanhol.

Sua mãe, Lupe Valencia, 82, que nunca aprendeu inglês direito e sofre de Alzheimer, precisava de alguém com quem pudesse se comunicar, disse Blankenship. Então apareceu María da Guadalupe Calvillo, 36, que veio do México como os pais dela e havia trabalhado como imigrante como eles quando chegaram aos EUA nos anos 50 - sua mãe como lavadeira, seu pai como agricultor e na construção de ferrovias.

Calvillo, que é casada e tem dois filhos pequenos, faz pratos mexicanos.
Quando Valencia tem um dia ruim, elas se dão as mãos e rezam juntas para a Virgem de Guadalupe, pedindo uma solução. O pai de Blankenship, Bernardo Valencia, 80, que ainda trabalha como tabelião público apesar da diabetes e da doença cardíaca, diz sobre Calvillo: "Ela tem a humanidade e a bondade típicas do estado de Michoacan", de onde ela vem. Calvillo também tem sentimentos sobre o casal que ultrapassam a relação patrão-empregado.

"Minha mãe morreu de câncer dez anos atrás, e eu teria gostado de cuidar dela como faço com a senhora Lupita", diz Calvillo, que trabalha das 9 da manhã à 1 da tarde nos dias de semana e ganha US$ 15 por hora. "Ela me trata com tanto carinho, é isso que me lembra de minha mãe."

Quando os relacionamentos dão certo, existe um profundo nível de bem-estar, sensibilidade cultural e comunhão de valores e costumes. Mas algumas trabalhadoras domésticas latinas dizem que evitam patroas latinas por causa das atitudes que algumas trazem de seus países, como tratá-las como criadas ou discutir na hora do pagamento. Em algumas pesquisas, os empregadores latinos recebem avaliações mistas, diz Abel Valenzuela Jr., um professor de planejamento urbano da Universidade da Califórnia em Los Angeles, que pesquisou trabalhadores e patrões. "Há empregadores latinos que querem ajudar os imigrantes e entendem suas dificuldades", ele acrescentou. "Mas nem todos os latinos são benevolentes."

Em um estudo com 500 trabalhadores diaristas que Valenzuela fez em 1999, os trabalhadores classificaram os patrões latinos em um grau inferior aos anglos em tratamento justo, mas superior aos asiáticos e no mesmo nível dos negros. Os trabalhadores eram empregados em residências como pedreiros, jardineiros e pintores. Valenzuela disse que os trabalhadores tendem a considerar os latinos em um padrão mais elevado que outros patrões. "Quando um latino tem meios para contratá-los, os trabalhadores têm expectativas mais altas", ele disse.

Entre as babás, faxineiras e acompanhantes latinas, queixas comuns sobre os patrões, independentemente da etnia, são sobre terem de trabalhar mais do que foi combinado originalmente pelo mesmo pagamento, ter o horário de trabalho prolongado, ser constantemente vigiadas enquanto trabalham e ter de suportar patrões difíceis. "Eles se queixam de que os patrões descontam suas frustrações neles", disse Denis, da Mujeres Unidas y Activas.

Mas o pagamento é o principal problema, disse Denis, já que a maioria das mulheres é o chefe da família. Uma pesquisa de 2004 com 247 trabalhadoras domésticas feita por uma coalizão de grupos que representam mulheres na Área da Baía descobriu que a maioria delas não conseguia suprir as despesas básicas da vida e que a maioria trabalhava horas extras sem compensação.

Um projeto de lei que garantiria o pagamento de horas extras para babás e permitiria que elas e outros funcionários domésticos processassem os patrões para receber salários atrasados foi vetado no mês passado pelo governador Arnold Schwarzenegger, que disse que ele encorajaria litígios triviais.

Mas enquanto os funcionários domésticos não têm muitos dos direitos básicos dos trabalhadores, como seguro-saúde e férias pagas, ainda podem tentar "fazer o serviço com dignidade", disse Guillermina Castellanos, uma coordenadora de programas de trabalhadores no Centro Legal La Raza, em San Francisco. As mulheres mais atuantes ensinam as outras a se defender em organizações como La Raza e Mujeres Unidas y Activas. Abrigada no Edifício das Mulheres no bairro de Mission, a Mujeres ensina suas sócias a negociar horários, limpar com produtos naturais como vinagre e bicarbonato de sódio e realizar ressuscitação cardiopulmonar.

Azpeitia, que é afiliada à Mujeres, disse que faz faxina para uma patroa latina que compartilha seus valores e sentimentos. Sua empregadora não criou caso, por exemplo, quando Azpeitia foi trabalhar com a neta em certa ocasião porque sua filha não podia cuidar da menina. "Ela disse: 'Não tem problema, ligue a TV'", contou Azpeitia. "Como ela é latina, sabe me valorizar." E afinal Azpeitia diz que considera seus patrões latinos como modelos na vida. "Se eles conseguiram, por que eu não posso conseguir o mesmo?" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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