UOL Notícias Internacional
 

23/10/2006

Visão econômica: um cálculo do custo da guerra no Iraque

The New York Times
Ana Bernasek
Eis aqui uma pergunta básica: até o momento, qual foi o custo da guerra no Iraque? O fato é que não é fácil encontrar um economista capaz de responder a essa questão. Embora existam vários estudos dedicados ao custo da guerra para os norte-americanos, não há um trabalho comparável relativo aos custos para os iraquianos.

É claro que a perda de vidas humanas sempre foi evidente. Recentemente, a Organização das Nações Unidas (ONU) calculou que, em média, 100 iraquianos morrem a cada dia como resultado da guerra. Outros afirmam que este número é bem maior. Um estudo recente, publicado no periódico britânico de medicina "The Lancet", sugeriu que o número médio de indivíduos mortos é de 500, o que indica a perda de 2% da população iraquiana desde a invasão norte-americana em março de 2003.

Já o custo econômico tem sido menos visível. As informações publicadas sobre o assunto são muito limitadas, embora um economista, o professor Colin Rowat, tenha realizado alguns cálculos preliminares utilizando as melhores fontes disponíveis. Rowat, um especialista em economia iraquiana que leciona na Universidade de Birmingham, no Reino Unido, se baseou principalmente em dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) para calcular o efeito geral da guerra sobre a economia iraquiana. Os seus cálculos são um trabalho ainda em andamento, mas aquilo que ele descobriu até agora é interessante: o custo chega a pelo menos 40% do Produto Interno Bruto iraquiano.

Rowat se debruçou sobre um período de seis anos, de 2000 a 2005, e o dividiu em três fases. Durante o primeiro período, de 2000 a 2001, as sanções econômicas contra o Iraque estavam começando a desmoronar; o Conselho de Segurança aboliu o limite para as vendas de petróleo iraquiano ao resto do mundo, e o governo iraquiano estava se especializando em contornar as restrições comerciais remanescentes. O segundo período, de 2002 a 2003, se refere à preparação para a guerra e à própria invasão. O último período, de 2004 a 2005, cobre os anos da pós-invasão, quando as sanções foram removidas.

Rowat realizou vários tipos de cálculos. Primeiro, ele estimou a verdadeira mudança no tamanho da economia iraquiana. A seguir, considerou os efeitos econômicos da ajuda estrangeira em 2005, grande parte dela oriunda dos Estados Unidos (como a ajuda estrangeira é tida como temporária e espera-se que sofra uma redução gradual, diz ele, ao excluí-la das avaliações pode-se ter uma idéia do verdadeiro desempenho econômico iraquiano).

Finalmente, ele estimou qual poderia ter sido o desempenho da economia caso a guerra jamais tivesse ocorrido. É claro que esta última estimativa depende de uma série de suposições, como Rowat é o primeiro a frisar. Ele assumiu, por exemplo, que na ausência da guerra, a economia iraquiana teria sido impelida pelo preço do petróleo. E, de fato, o preço do petróleo é crucial para a economia do Iraque. Segundo o Banco Mundial, a renda gerada pela venda desse produto representa 60% da economia total do país. Rowat também supôs que a economia teria crescido de 2002 a 2005 como cresceu de 2000 a 2001 -- segundo um ritmo equivalente a 71% do índice de aumento dos preços globais do petróleo. É claro que parte do aumento do preço do petróleo ocorrido nos últimos anos pode ser atribuído à própria guerra no Iraque.

Rowat admitiu isso, mas não tentou removeu esse fator dos seus cálculos
estimados.

Ele reconheceu logo a dificuldade para se chegar a um conjunto de números incontestáveis. No entanto, a sua análise se constitui em pelo menos um ponto de partida.

Debruçando-se primeiro sobre a economia iraquiana real, ele calculou que ela pode ter crescido em média 3,1% ao ano, após se fazer as correções relativas à inflação, de 2000 a 2005. Porém, quando ele subtraiu do total o fator representado pelo auxílio estrangeiro, descobriu que a economia do país sofreu na verdade uma contração de 0,2% ao ano durante o mesmo período.

Segundo ele, a ajuda internacional foi especialmente crucial em 2005, quando manteve a economia do Iraque à tona.

Finalmente, com base na drástica ascensão dos preços do petróleo, ele
calculou que sem a guerra e com uma produção constante de petróleo, o Iraque teria crescido 12% ao ano após ser feito o ajuste para a inflação. Esse índice teria feito do Iraque uma das economias de maior crescimento no mundo, apesar de que tal expansão ocorreria a partir de um patamar econômico muito pequeno.

E até que ponto essa projeção é realista? É difícil dizer, já que grande parte dela depende da economia do setor petrolífero. Mesmo assim, o FMI concluiu que a economia iraquiana conta com a capacidade de crescer muito rapidamente -- sob as condições certas. Atualmente o banco prevê um crescimento real nos próximos cinco anos segundo uma taxa anual média de mais de 10%.

Usando-se os cálculos de Rowat, qual poderia ser o custo econômico da guerra para o Iraque? Segundo os seus cálculos, se não tivesse havido guerra, o valor da economia iraquiana em 2005 poderia ter chegado aos US$ 61 bilhões, comparados aos US$ 37 bilhões atuais. Isso indica uma perda de US$ 24 bilhões devido à guerra. Ao se excluir a ajuda estrangeira dos cálculos, a perda estimada é de cerca de US$ 30 bilhões.

Consideremos a cifra mais conservadora, de US$ 24 bilhões. Ela equivale a uma redução de 40% do produto interno bruto per capita - uma perda média de US$ 900 para cada iraquiano em 2005.

Comparações diretas com os Estados Unidos não são possíveis, mas estimativas aproximadas do custo médio da guerra para os norte-americanos estão na casa dos US$ 1 trilhão em um período de dez anos. Isso equivale a cerca de 1% da renda da nação durante esse período.

Para o Iraque, não há dúvida de que a violência e a balbúrdia contínuas
estão prejudicando a economia. Em agosto último, o FMI declarou em um
relatório que o crescimento do Iraque estava se originando do setor não
petrolífero e que a expectativa é de que a produção de petróleo permaneça estacionada no mesmo patamar neste ano. A produção de petróleo do Iraque não retornou ainda aos níveis anteriores à guerra. O FMI atribui a ausência de progresso no setor petrolífero à violência, que está impedindo que ocorram os tão necessários investimentos, e aos problemas com a infraestrutura do país.

Embora os cálculos de Rowat representem apenas o esforço de um economista para interpretar dados extremamente limitados, o seu trabalho poderá encorajar outros a seguir o seu exemplo. É claro que a avaliação do custo econômico da guerra para o Iraque não fornece uma resposta para quem deseja saber se a guerra vale a pena no longo prazo. Mas o trabalho de Rowat se constitui em uma pista. Danilo Fonseca

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,84
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,35
    68.594,30
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host