UOL Notícias Internacional
 

25/10/2006

Vietnã se prepara para ingressar na OMC

The New York Times
Keith Bradsher

em Ho Chi Minh, Vietnã
Quase quatro décadas atrás, os líderes sul-vietnamitas elaboravam os seus planos de batalha dentro do palácio presidencial desta cidade. Quando perderam a guerra, o palácio se transformou na base do Comitê Popular da Cidade de Ho Chi Minh, que atuou no sentido de impor um rígido controle comunista.

AChau Doan/The New York Times 
Após 1975, o Vietnan se tornou a segunda economia de mais rápido crescimento da Ásia

Mas em setembro último, o lugar foi cenário de uma reunião bem diferente: um encontro da diretoria do Hong Kong and Shangai Bank. Nas três décadas após 1975, o Vietnã passou da guerra ao comunismo, e deste para o quase capitalismo - para se tornar a segunda economia de mais rápido crescimento da Ásia, tendo apresentado no ano passado um crescimento de 8,4%, perdendo apenas para a China.

O índice de exportações vietnamitas para os Estados Unidos está crescendo ainda mais rapidamente do que o da China. Companhias norte-americanas como a Intel e a Nike, bem como investidores de toda a região, estão despejando bilhões de dólares sobre o país. Vietnamitas que moram no exterior estão retornando para dirigir as novas empresas no país natal.

E agora, após mais de uma década de conversações, negociadores do comércio de todas as partes do mundo estão se preparando para concluir um acordo, possivelmente em 26 de outubro, para que o Vietnã ingresse na Organização Mundial do Comércio (OMC). O presidente Bush, o presidente Hu Jintao, da China, o presidente Vladimir V. Putin, da Rússia e outros chefes de Estado pretendem vir a Hanói em meados de novembro para participarem de um encontro de cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico.

Para o Vietnã, o evento será uma festa de apresentação, crítica para o orgulho do país de forma similar ao que as Olimpíadas de 2008 em Pequim representam para a China.

"Creio que eles são a próxima China", afirma Michael R.P. Smith, diretor-executivo da Hong Kong and Shangai Banking Corporation. "O Vietnã não é algo da dimensão da China, mas é uma economia significante". De fato, o crescimento do Vietnã superou aqueles da Tailândia, da Malásia, de Taiwan, da Coréia do Sul e até mesmo o da Índia, o seu rival mais próximo.

O mais recente dos tigres econômicos asiáticos, o Vietnã atualmente produz e utiliza mais cimento do que a França, país do qual foi colônia. O principal índice da bolsa de valores de Ho Chi Minh - e o de uma bolsa menor em Hanói - quase dobrou de valor neste ano. O Vietnã se tornou o assunto das conversas de banqueiros e investidores de toda a Ásia.

Mas com tal crescimento vem a controvérsia, aqui e nos Estados Unidos. Os republicanos no Congresso estão divididos quanto a uma votação que será realizada pouco após as eleições parlamentares deste ano. A questão a ser votada é a seguinte: os Estados Unidos deveriam manter relações comerciais plenas e permanentes com o Vietnã, considerando a história dos dois países e a atual posição do Vietnã, na qual o valor das exportações do país asiático para os Estados Unidos é quase nove vezes maior do que as suas importações de produtos norte-americanos?

O setor empresarial dos Estados Unidos também está dividido, devido a uma concessão do governo Bush no sentido de obter votos favoráveis ao status comercial pleno para os vietnamitas. Em setembro passado o presidente procurou agradar aos senadores sulistas, que representam Estados produtores de roupas e tecidos. As autoridades vietnamitas estão furiosas com Washington devido àquilo que consideram uma medida protecionista de última hora para tentar limitar as exportações da próspera indústria de vestuários do país.

No Vietnã, um crescimento de quase dois dígitos está começando a provocar carências de mão-de-obra qualificada, assim como ocorre na Índia e na China. Os executivos de multinacionais como o Groupe Lafarge, da França, e o Prudential, do Reino Unido, dizem que a reserva local de contadores, gerentes de relações humanas e outros profissionais é tão escassa que os salários aumentaram de 30% a 50% em um ano. Atualmente, muitos vietnamitas qualificados são como Ha Nguyen, um engenheiro químico de 34 anos de idade que está trabalhando no seu terceiro emprego em três anos, tendo recebido grandes aumentos salariais todas as vezes em que mudou de companhia.

"Atualmente é fácil encontrar emprego no Vietnã", diz ele, interrompendo por um momento a análise da qualidade do cimento, realizada em um laboratório de uma empresa daqui.

As estradas e os portos do país estão cada vez mais abarrotados de carros e navios. O congestionamento é pior do que na China, mas não ainda tão grave como na Índia. Mas a corrupção enraizada tem atrasado as obras públicas. Neste ano o governo desacelerou a construção de uma auto-estrada no norte do Vietnã, após descobrir um escândalo de corrupção que levou a renúncias e detenções que atingiram o alto da hierarquia do Ministério dos Transportes.

Quem gerencia tais problemas é um governo que, como o da China, abraçou o capitalismo após se desiludir com a pobreza generalizada e, em determinada ocasiões, com a fome, que acompanhou o rígido controle estatal da economia.

Políticas de liberalização econômica têm sido aplicadas intensamente desde o início da década de 1990, depois que as péssimas colheitas e a má administração econômica deixaram milhões de pessoas expostas à desnutrição em 1990.

Entre os arquitetos dessa mudança está um punhado de economistas brilhantes como Le Dang Doanh, um assessor graduado do governo e do Partido Comunista do Vietnã, que estudou na antiga União Soviética e na Alemanha Oriental, mas que se desiludiu profundamente com a corrupção e a ineficiência das indústrias estatais.

"A reforma é definitivamente irreversível", assegura Doanh. "Qualquer tentativa de retornar a uma economia centralizada, de supervalorizar o setor estatal, é economicamente irracional, psicologicamente ineficiente e contraproducente". Danilo Fonseca

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