UOL Notícias Internacional
 

26/10/2006

No México, guerra das drogas se acirra com gangues matando impunemente

The New York Times
James C. McKinley Jr.

em Uruapan, México
Música nortista estava tocando no bar Sol y Sombra em 6 de setembro, quando vários homens em trajes militares invadiram a festa tarde da noite. Acenando poderosas metralhadoras, eles gritaram para que a multidão não se mexesse e então despejaram o conteúdo de um saco plástico pesado na pista de dança.

Cinco cabeças humanas rolaram sangrando pelo chão.

"Isto não é algo que você vê todo dia", disse um barman, que pediu para não ser identificado por temer perder sua própria cabeça. "Terrível."

Janet Jarman/The New York Times 
No bar Sol y Sombra homens armados exibiram cabeças decapitadas de cinco pessoas

Uma guerra do submundo entre gangues do narcotráfico está ocorrendo no
México, medieval em seu barbarismo, com seus soldados operando com pouco medo de interferência da polícia, sua amplitude e brutalidade sem
precedentes, mesmo em um país acostumado a um grau elevado de violência das drogas.

Nos últimos meses, a violência incluiu duas dúzias de decapitações, um ataque audacioso contra uma delegacia de polícia por homens empunhando granadas e uma bazuca, e seqüestros à luz do dia de altas autoridades. Pelo menos 123 autoridades, entre elas dois juízes e três promotores, foram mortas a tiros ou torturadas até a morte. Cinco policiais estão entre os decapitados.

Ao todo, a violência já matou mais de 1.700 civis neste ano, com as
autoridades federais dizendo que as mortes provavelmente superarão as cerca de 1.800 no submundo que ocorreram no ano passado. Estes números de mortos superam os 1.304 em 2004 e os 1.080 em 2001, disseram as autoridades.

As autoridades do México argumentam que a violência é um sinal de que
conseguiram progresso no desmonte das grandes famílias do crime organizado no país. As prisões de vários líderes do cartel das drogas e seus principais tenentes provocaram a disputa violenta entre os gangsteres de segundo escalão pelas rotas de tráfico, disseram os promotores federais. A antiga ordem foi quebrada e os traficantes remanescentes estão matando uns aos outros ou fazendo novas alianças.

"Estas alianças estão acontecendo porque nenhuma das organizações consegue controlar sozinha o território que costumava controlar, e isto demonstra a crise em que estão", disse José Luis Santiago Vasconcelos, o principal promotor federal para o crime organizado.

O procurador geral Daniel Cabeza de Vaca disse que o aumento constante do vício em drogas dentro do México provocou alguns dos assassinatos, já que os traficantes disputam os mercados locais. Ao mesmo tempo, mais e mais policiais honestos estão tentando manter a lei em vez de fazer vista grossa aos traficantes, freqüentemente pagando com suas vidas, disseram os promotores.

Mas tais avaliações, disseram outras autoridades, são excessivamente
otimistas e podem explicar apenas parte do quadro. Alguns especialistas
dizem que as forças policiais mexicanas, enfraquecidas pela corrupção e
intimidadas pelos assassinatos, simplesmente não estão à altura da tarefa de enfrentar as disputas do submundo, provocadas pelas prisões dos líderes de cartel nos últimos seis anos. Os narcotraficantes têm tão pouco medo de represália da polícia que seus ataques têm sido cada vez mais ousados.

Muitos dos mortos ganhavam a vida com as drogas e pereceram na disputa maior por território entre uma federação de cartéis com sede em Sinaloa, no Oceano Pacífico, e o Cartel do Golfo, do Estado nordestino de Tamaulipas, disseram promotores federais.

Os cinco homens decapitados em Uruapan, em Michoacan, eram vendedores de rua de metanfetaminas, eles mesmos viciados na droga sintética. Eles estavam vagamente ligados à família Valencia, que antes controlava grande parte da venda de drogas no Estado e faz parte do grupo Sinaloa, disse a polícia. Os assassinos vieram de uma gangue chamada A Família, supostamente aliada do Cartel do Golfo.

"Este é um ano para esquecer, um ano sombrio", disse Jorge Valdez, um
porta-voz da polícia de Acapulco. "É o mais violento dos últimos 50 anos, e os atos são bárbaros, sangrentos, sem nenhum traço de humanidade."

A violência de forma alguma está limitada a Acapulco. Em meados de julho, cerca de 15 homens armados atacaram ao amanhecer uma delegacia de polícia em uma cidade pequena no Estado de Tabasco, munidos de granadas, uma bazuca e metralhadoras, em uma tentativa de libertar dois membros de sua gangue que foram presos em uma briga de bar na noite anterior.

Dois policiais morreram no ataque.

Apesar dos ataques à polícia terem aumentado, eles são superados em muito pelas mortes horrendas de membros de gangue. Em Michoacan, A Família supostamente é responsável pela decapitação de uma dúzia de outras pessoas, além daquelas que entregaram no bar Sol y Sombra. As cabeças costumam ser acompanhadas por mensagens enigmáticas declarando as mortes como sendo justiça divina, acusando as vítimas de crimes ou desafiando seus rivais a enviarem mais capangas.

Quase todo dia novas vítimas são encontradas em Estados ao longo das
principais rotas de transporte de drogas, especialmente Quintana Roo,
Michoacan, Guerrero, Tamaulipas e Baja California. A maioria é amarrada, amordaçada e morta a tiros, com os corpos despejados em estradas solitárias.

Nas cidades mais duramente atingidas pela guerra de gangues, o medo é
palpável. Há dois anos Nuevo Laredo tem sido o principal campo de batalha da disputa entre os homens leais a Joaquín (Chapo) Guzmán do Sinaloa, e os remanescentes do Cartel do Golfo, cujo líder, Osiel Cárdenas, está na prisão aguardando julgamento.

"Eu não seria humana se dissesse que não estou com medo", reconheceu
Elizabeth Hernández Arredondo, uma promotora estadual em Nuevo Laredo, que teve fixada em sua porta uma foto de uma juíza que desapareceu recentemente.

Os efeitos estão em toda parte. Muitos jornalistas locais deixaram de cobrir a violência das drogas por temerem se tornar alvos. Os turistas costumavam atravessar a fronteira vindos de Laredo, Texas, para beber tequila, comprar badulaques e farrear. Não mais.

A freqüência na igreja caiu, disse o padre Alberto Monteras Monjaras da
Igreja do Santo Menino, porque mesmo uma manhã de domingo pode ser perigosa.

"As pessoas costumavam dormir na varanda quando estava muito quente", ele disse. "Não mais. Você fica dentro de casa e coloca três ou quatro
fechaduras na porta."

Antonio Betancourt, na Cidade do México, e Marc Lacey, em Nuevo Laredo, contribuíram com reportagem para este artigo George El Khouri Andolfato

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